Publicado por: rbozelli | 3 de março de 2013

Processos Locais ou Espaciais?

Prezados colegas, amigos, visitantes do Blog, curiosos (como todo cientista deve ser) e interessados em limnologia:

A teoria de metacomunidades assume que comunidades não são apenas afetadas por processos locais (por exemplo, interações entre espécies), mas também interagem entre si através da dispersão. É reconhecido que o zooplâncton pode rapidamente recolonizar ambientes aquáticos após períodos de seca, tanto através do banco de ovos, como através da dispersão aérea. No entanto, pouco se sabe sobre a importância relativa desses mecanismos. E foi pensando nisto e já tendo dado alguns passos durante sua dissertação de mestrado, que a Paloma Lopes, aluna do nosso laboratório e do Programa de Pós-Graduação em Ecologia da UFRJ planejou e executou sua tese de doutorado. Assim, ela definiu alguns objetivos a serem buscados ao longo do seu trabalho: 1) avaliar a importância relativa do banco de ovos e da dispersão aérea no restabelecimento das comunidades zooplanctônicas em poças temporárias, 2) testar o papel da conectividade hidrológica, heterogeneidade ambiental, distúrbios e extensão geográfica sobre a diversidade beta de comunidades zooplanctônicas de lagos de cinco regiões geográficas brasileiras e 3) avaliar os efeitos de variáveis ambientais e espaciais na estruturação de comunidades zooplanctônicas de lagos conectados e isolados de quatro regiões brasileiras.

Detalhe de experimento conduzido no Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba para avaliar  o papel de fatores locais e espaciais na estruturação de comunidades zooplanctônicas

Detalhe de experimento conduzido no Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba para avaliar o papel de fatores locais e espaciais na estruturação de comunidades zooplanctônicas.

Vejam que interessante este esforço por lidar com dados de distintas regiões brasileiras – como as lagoas costeiras do Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba, no Norte Fluminense, e os lagos de altitude amazônicos, na Serra de Carajás -, denotando um significativo esforço de campo, para o qual ela obteve importantes parcerias. E ao mesmo tempo, como verão na exposição do trabalho um elegante, bem planejado e trabalhoso experimento de campo que produziu resultados muito consistentes.

E apenas para ativar ainda mais a curiosidade de todos, ressalto que entre os resultados que a Paloma obteve, citamos que os resultados sugerem que as comunidades de microcrustáceos são mais dependentes do banco de ovos do que as comunidades de rotíferos. Na ausência de um banco de ovos, os microcrustáceos são mais afetados pela dispersão limitada do que os rotíferos, uma vez que os últimos parecem ser dispersores aéreos mais eficientes. Além disso, foi mostrado que o maior determinante da diversidade beta de comunidades zooplanctônicas é a heterogeneidade ambiental. Usando técnicas de partição de variância, os resultados levam à conclusão de que as variáveis ambientais também foram muito mais importantes que as espaciais para predição das estruturas das comunidades locais, independentemente do nível de conectividade entre os ambientes e do período de amostragem. O que se observa é um efeito indireto da conectividade que homogeniza as condições ambientais e que por sua vez aumenta a similaridade da composição de espécies entre os ambientes. Desta forma, o presente estudo reforça e generaliza a importância dos mecanismos de seleção de espécies para comunidades zooplanctônicas de regiões geográficas brasileiras situadas em diferentes latitudes e apresentando ambientes aquáticos com diferentes características, como hidroperíodo, tipo de conexão entre os ambientes e variabilidade no gradiente ambiental.

Todos estes aspectos serão discutidos na defesa da tese da Paloma, que acontecerá na próxima quarta-feira, dia 06/03, a partir das 13h, no Salão Hélio Fraga (ao lado da entrada do prédio pelo Bloco K, colado no auditório Quinhentão), no CCS, na Ilha do Fundão. Para avaliar o trabalho farão parte da banca os seguintes professores: Andre Padial (UFPR), Christina Castelo Branco (UNIRIO), Ana Petry (PPGE/UFRJ) e Carlos Eduardo Grelle (PPGE/UFRJ).

Por fim, convidamos a todos os interessados que acompanhem conosco este momento importante do nosso grupo, quando um de nossos alunos avança para concluir uma etapa muito importante da sua vida acadêmica, uma etapa decisiva de sua vida profissional. As defesas de tese são eventos um tanto quanto longos, mas são momentos especiais por permitirem o confronto de ideias e visões, e também por permitir que conheçamos um pouco mais colegas que transitam nas mesmas temáticas, ou próximas delas. São momentos de reflexões que com frequência extrapolam o assunto para as condições objetivas de produção daquele conhecimento em discussão. E assim crescemos ao partilhar visões distintas sobre a ciência e as condições materiais e teóricas de sua produção.

Sejam bem-vindos e participem conosco deste momento especial.

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Responses

  1. […] conceito recente em ecologia é a ideia de metacomunidades. Ela é baseada na ideia original de Levin sobre metapopulações, em que um conjunto de […]

  2. […] a resposta dessa comunidade (comparadas a outras também) quanto à contribuição relativa de fatores regionais ou espaciais e locais. O que se vê é um quadro interessante guiado predominantemente pelo determinismo ecológico, […]

  3. […] quase um ano atrás, o conceito de metacomunidades foi abordado aqui pelo prof. Reinaldo Bozelli, cujo tema foi um dos principais assuntos da tese de doutorado de uma […]


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