Publicado por: eldersodre | 16 de maio de 2013

Água sobe e água desce: o pulso de inundação na Amazônia

Imagine que você está numa floresta. Nesta floresta passa um rio. Ao seu redor há árvores com vários metros de altura. Ficando lá durante algum tempo, você ouve o canto das aves, vê macacos, insetos, e outros animais da floresta. Barcos passam de vez em quando pelo rio, e você ouve aquele barulho de motor ao fundo. O rio próximo tem vários metros de distância entre uma margem e outra, e você sabe que lá dentro há peixes, botos, e outros organismos menos conhecidos, como os macroinvertebrados.

Seis meses depois, você volta exatamente para o mesmo lugar. Ao chegar lá, você tem uma grande surpresa. Não é mais possível caminhar por entre as árvores, pois o chão da floresta agora está debaixo da água. De dentro do barco onde você está, você vê que apenas as copas das árvores mais altas não estão submersas, criando uma paisagem onde árvores parecem surgir do meio da água. Peixes agora nadam entre as árvores. Fazer trilha agora, só é possível de barco.

Interior de um igapó no período de águas altas

Interior de um igapó no período de águas altas

A situação imaginada acima acontece de verdade na Amazônia onde vemos esta acentuada variação do nível d´água. Os estudiosos deste fenômeno elaboraram um conceito para explicar esta variação e outros aspectos relacionados a ela, chamado de pulso de inundação. Durante a enchente, o rio inunda suas áreas marginais (sua planície de inundação), criando verdadeiras florestas inundadas. Essa inundação é sazonal, ou seja, acontece todo ano de forma periódica, assim como as estações do ano. Na verdade, o pulso de inundação acontece em todos os lugares onde há enchentes periódicas, mas na Amazônia ele se torna especial pois ainda há muita floresta preservada, e a maior parte dos seus rios não está controlada por barragens.

Nas planícies de inundação é comum a existência de lagos. Estes lagos também estão sujeitos ao pulso de inundação quando, entre outras coisas, a sua profundidade também varia bastante ao longo do ano. O efeito sobre estes lagos depende de sua forma e posição em relação ao rio influencia todos os organismos que vivem naquele lago, além do metabolismo do sistema. Por metabolismo, entendemos todos os processos ecossistêmicos que ali acontecem, tais como a respiração, decomposiçãoprodução primária (fotossíntese) e os ciclos biogeoquímicos de forma geral. Por exemplo, a produção primária do fitoplâncton (algas muito pequenas que vivem na água) é maior no período de águas baixas. Na fase de águas altas, o pulso de inundação tem um efeito homogeneizador sobre os lagos da planície, ou seja, a água do rio que inunda os lagos cria uma conexão entre eles, o que faz com que nestes períodos eles sejam mais similares entre si.

Árvores submersas no período de águas altas

Árvores submersas no período de águas altas

A parte da floresta que é inundada pelo pulso de inundação é diferente da floresta que não é inundada nunca (chamada de mata de terra firme), pois as plantas precisam de adaptações especiais para sobreviver alguns meses do ano embaixo d’água, parcialmente ou totalmente. Essa floresta que fica na planície de inundação dos rios é chamada de Igapó ou Várzea, dependendo do tipo do rio em que ela se encontra. A invasão da água do rio sobre a mata alagada significa que nestes períodos há uma troca de materiais entre o ambiente aquático e terrestre. Afinal, em que outro local há um contato tão íntimo entre uma floresta e um rio?

Durante a época das águas baixas, as árvores da mata alagada crescem e se reproduzem, além de este ser o período em que as sementes germinam. Já na cheia, as árvores reduzem ou param o crescimento, e ficam como que esperando a água baixar para terem melhores condições novamente. Porém, é no período de cheia que ocorre a dispersão das sementes, ou seja, nesta época as sementes caem das árvores e são levadas pela água ou pelos peixes para outros locais onde elas podem ter mais chance de germinar e sobreviver até a idade adulta.

Margem do rio Trombetas (Pará), nos períodos de águas altas e águas baixas

Margem do rio Trombetas (Pará), nos períodos de águas altas e águas baixas

É interessante notar a influência, ou seja, o efeito, do pulso de inundação sobre os animais aquáticos. Por exemplo, os peixes se locomovem pelos rios e lagos da região, e em águas altas eles procuram abrigo e alimento no igapó, comendo sementes e até sendo predados por outros peixes, tudo isso por entre as árvores. O zooplâncton tem sua densidade aumentada em períodos de águas baixas e densidade diminuída em períodos de águas altas. Conforme a água do lago sobe, a densidade do zooplâncton diminui, e sua riqueza (quantidade de espécies) aumenta, por causa das espécies que chegam conforme a água sobe, e o efeito contrário acontece quando o nível da água abaixa.

Um fato interessante é que a água sobe durante o período das chuvas, porém uma das principais causas desta variação é o degelo dos Andes, onde parte dos rios amazônicos nasce. Desta forma, a floresta amazônica está intimamente ligada aos Andes. Por sua vez, o pulso de inundação é tão importante para os ecossistemas aquáticos sujeitos a ele que os rios, lagos e florestas que sofrem seus efeitos não podem ser vistos como meros rios, lagos e florestas comuns. O efeito do aumento e diminuição do nível d’água, aliado à mudanças na conectividade e à interação com o ambiente terrestre adjacente faz com que o pulso de inundação seja uma grande força nestes ambientes, e também em todos os seres vivos que lá vivem.

No Laboratório de Limnologia desenvolvemos pesquisas em ambientes aquáticos amazônicos, estudando a estruturação de comunidades e processos ecossistêmicos nos rios e lagos da região. Estes estudos estão vinculados aos projetos “Estudos Limnológicos no Lago Batata e Igarapés da Flona Saracá-Taquera, PA” e “Biogeoquímica do Carbono e Mercúrio na Bacia Amazônica

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Responses

  1. muito bom.

  2. […]   Esse modelo não contempla alguns tipos de rios, como aqueles em planícies de inundação (rios amazônicos, planície do Pantanal, entre outros). Para esses, o modelo de “pulso de inundação” é mais adequado (descrito no artigo por Junk e colaboradores 1989; link de interesse). […]

  3. Estou estudando limnologia neste semestre, e embora eu vivencie o pulso de inundação na Amazônia durante toda a minha vida, jamais poderia ver com os olhos que hoje vejo, é uma riqueza de informações que passam despercebidos… Estou simplesmente amando e e bem provável que meu TCC seja relacionado à este assunto.

  4. […] Além disso, a diversidade funcional foi utilizada como ferramenta para compreender os efeitos do pulso de inundação sobre os organismos […]

  5. […] altamente variáveis. Os lagos da região apresentaram maiores taxas de emissão durante o período de águas altas, enquanto os rios da região emitiram mais CH4 durante a fase de águas baixas. Essa […]

  6. […] conhecer lagos de altitude  na Amazônia. O limnólogo geralmente pensa na Amazônia como grandes rios e igarapés, várzeas e igapó… a água subindo, a água descendo. Chuva, muita chuva. Aspectos fascinantes de um dinamismo […]

  7. Tema muito interessante! Pra gente que está mais acostumado a trabalhar nos ecossistemas do sudeste, muitas vezes não tem idéia do papel do pulso de inundação nesses ambientes. Se você pensar no conceito de rio contínuo, por exemplo, ele deixa em segundo plano o papel dessas planícies. E quanto da matéria orgânica que é usada pelos organismos do rio é produzido nessas planícies, não é? Só de fitoplâncton e perifíton deve ser uma quantidade imensa.


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