Publicado por: Nicholas Marino | 10 de outubro de 2013

O que tem nesse Igarapé?

Existem muitas semelhanças entre as coisas que observamos no nosso corpo e os aspectos naturais do meio ambiente. Se você já olhou algum mapa de bacia hidrográfica, vai reparar que ele pode lembrar a distribuição de vários capilares sanguíneos, veias e artérias. Diversos rios aparecem como risquinhos bem pequenos e, após o encontro com outros rios vão se alargando, até formarem as grandes manchas azuis que cortam os continentes. Pode ser difícil observar esse tipo de coisa em mapas de algumas regiões do nosso país, mas aposto que se você der uma olhada em mapas da Amazônia, a situação fica bem diferente.

(A) Representação esquemática de rios em uma bacia de drenagem. (B) Foto de satélite do delta de um rio. (C) Esquema da bacia de drenagem do Rio Amazonas. Note como, em todos estes exemplos, a distribuição dos rios lembram veias, alvéolos e galhos de árvores.

(A) Representação esquemática de rios em uma bacia de drenagem. (B) Foto de satélite do delta de um rio. (C) Esquema da bacia de drenagem do Rio Amazonas. Note como, em todos estes exemplos, a distribuição dos rios lembram veias, alvéolos e galhos de árvores.

Na região amazônica existe uma grande quantidade de ‘riachos’ que são chamados de Igarapés. A palavra ‘Igarapé’ significa ‘caminho de canoa’,  já que seu tamanho normalmente não permite a passagem de grandes embarcações (de fato, a maior parte dos igarapés são bem pequenos, com cerca de um a dois metros de largura). No decorrer do percurso de um Igarapé, eles vão se unindo a outros Igarapés, podendo desaguar em um lago e até mesmo em um grande rio.

Um aspecto importante dos Igarapés é que suas características refletem muito do que acontece na área de drenagem. É neste contexto que os Laboratórios de Limnologia e de Ecologia de Peixes da UFRJ e o Laboratório de Ecologia Aquática da UFJF, em parceria com a Mineração Rio do Norte, vem desenvolvendo nos últimos 15 anos o Projeto de Monitoramento Limnológico dos Igarapés da Floresta Nacional Saracá-Taquera, no oeste do Pará. Os Igarapés desta região drenam extensas áreas que estão sujeitas à influência da atividade de mineração da bauxita (mineral a partir do qual se faz o alumínio) e, portanto, podem ter sua qualidade ambiental modificada.

Alguns Igarapés da FLONA Saracá-Taquera/PA. (A) Imagem da região da nascente de um Igarapé. (B) Trecho médio do Igarapé Caranã, da região. (C) Trecho final do Igarapé Saracá, no Lago Sapucuá, Oriximiná/PA.

Alguns Igarapés da FLONA Saracá-Taquera/PA. (A) Imagem da região da nascente de um Igarapé. (B) Trecho médio do Igarapé Caranã, da região. (C) Trecho final do Igarapé Saracá, no Lago Sapucuá, Oriximiná/PA.

Sempre que pensamos em comprometimento da qualidade ambiental de algum corpo hídrico logo imaginamos alterações catastróficas em sua paisagem, com efeitos adversos bem marcados, mas nem sempre as coisas são assim – parafraseando o Pequeno Príncipe, ‘o essencial é invisível aos olhos’. Muitas vezes prezamos pela integridade da paisagem de um ecossistema como uma medida de sua qualidade, mas nos esquecemos que não somos seus únicos usuários: existe uma infinidade de formas de vida associadas aos Igarapés que dependem de seu bom funcionamento.

Você já deve ter visto aqui no blog a importância dos organismos aquáticos como biondicadores da qualidade de água. Se não se lembra, resumidamente, a ideia é que se o ambiente não está bom para um organismo aquático, tampouco estará para você. Assim, durante nossas campanhas semestrais no monitoramento dos Igarapés da região, buscamos conciliar o monitoramento dos parâmetros físico-químicos da água com o monitoramento das comunidades biológicas.

Nestes Igarapés podemos encontrar diversas algas microscópicas e organismos zooplanctônicos que se encontram à deriva no ambiente. Mas os macroinvertebrados aquáticos, que vivem enterrados ou sobre o sedimento, e também os peixes, são os principais representantes da biota que são monitorados. Em especial, vale destacar que muitos dos peixes encontrados nestes Igarapés não são aqueles que você vai comer quando for em um restaurante da região, como um tucunaré, um surubim ou um pirarucu, mas espécies bem pequenas (muitos dos quais não chegam a medir mais do que 10 centímetros), como o Carazinho, a Piaba e o Peixe-Lápis.

Algumas das principais espécies de peixes que encontramos nos Igarapés: (A) o Carazinho (Apistogramma agassizi), (B) a Piaba (Bryconops caudomaculatus) e (C) o Peixe-Lápis (Copella nigrofasciata).

Algumas das principais espécies de peixes que encontramos nos Igarapés: (A) o Carazinho (Apistogramma agassizi), (B) a Piaba (Bryconops caudomaculatus) e (C) o Peixe-Lápis (Copella nigrofasciata).

‘Mas pra que então realizar o monitoramento desses representantes da biota?’, talvez você se pergunte. Bom, qualquer sinal de que as coisas não andam tão bem no Igarapé logo se refletem na mudança na composição das comunidades biológicas. Alguns organismos necessitam de condições ambientais muito específicas para estarem presentes em um Igarapé, como as larvas de inseto de diversas espécies da família Trichoptera, que necessitam de matérias-primas naturais (como grãos de areia, folhas e gravetos) para construir seu abrigo, além, é claro, de boas condições de oxigenação na água. Com a redução da qualidade ambiental de um Igarapé também pode ocorrer o aparecimento de representantes de outros grupos de macroinvertebrados, que possuem maior tolerância a este tipo de condição.

Algumas larvas de Trichoptera encontrados nos Igarapés. Repare como cada larva tem a preferência por construir sua casinha com um tipo de material diferente.

Algumas larvas de Trichoptera encontrados nos Igarapés. Repare como cada larva tem a preferência por construir sua casinha com um tipo de material diferente.

Um outro aspecto relevante são as relações alimentares entre estes grupos: qualquer mudança na abundância de um deles pode levar a uma cascata de alterações na cadeia trófica que, em última instância, podem ser sentidas na abundância dos peixes de grande porte – agora sim, aqueles que você come por lá. Assim, utilizamos estes sinais para diagnosticar o estado destes corpos hídricos e fornecer bases adequadas para sua gestão, manejo e conservação.

Sabe…se você pensar bem, vai ver que os Igarapés funcionam de forma muito parecida com nosso sistema circulatório…eles captam toda a atividade que acontece em uma região, recebem e removem o material que se acumula em sua área de influência, se juntam, dividem, juntam novamente, formam canais maiores e desaguam em locais ainda maiores…assim como os glóbulos vermelhos e os brancos, as plaquetas, proteínas e hormônios do sistema circulatório, a biota encontrada nos Igarapés ajudam a contar a estória do que se passa naquele ambiente, e nos ajuda a dar um diagnóstico na hora que nosso paciente nos chama. A natureza é ou não é fantástica?

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Responses

  1. […] industriais, balsas levando alimentos e máquinas para as cidades do interior, canoas vindas de igarapés distantes, botos-rosa e tucuxis nadando em meio ao movimento. E há um grupo especial de barcos, que […]


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