Publicado por: Nicholas Marino | 7 de novembro de 2013

Que gordura é essa aqui? O que a ecologia tem a ganhar colocando elas na dieta

Nos últimos anos, os avanços da transdiciplinaridade entre a ecologia e as demais áreas do conhecimento possibilitou a exploração de novos campos, o que, por sua vez, passou a fornecer novas respostas para perguntas e paradigmas antigos na ecologia. Em especial, o uso de marcadores nutricionais tem sido empregado como uma peça chave na discussão sobre a importância das fontes de carbono para as cadeias tróficas aquáticas. Vou te explicar porquê…

Um dos principais componentes da gordura são as moléculas de ácidos graxos, compostas por longas cadeias de átomos de carbono, podendo estar ligados entre si por ligações simples (ácidos graxos saturados) ou ligações duplas (ácidos graxos insaturados).

Existem muitos ácidos graxos conhecidos e, com certeza, você já ouviu falar de alguns deles – se você não se lembra, é porque ainda não foram formalmente apresentados. Por exemplo, quando você pega uma revista e lê lá que o peixe ou a verdura tal é muito boa pois tem uma alta concentração de ômega-3, é dos ácidos graxos insaturadas que estão falando. Você também já deve ter visto em farmácias e lojas de suplementos alimentares a venda de cápsulas ricas em ácidos graxos ômega-3, prometendo ganhos de massa muscular e melhoria da qualidade de vida. Apesar do nome pomposo, o tal do ômega-x representa a classe dos ácidos graxos insaturados, onde o “x” mais indica do que a posição da ligação dupla na molécula do ácido graxo. Viu? Apresentados!

Dentre esses suplementos, os mais comuns são os compostos por “DHA” ou, melhor ainda, o “EPA” (“Que raio de comprimido de EPA é esse?”). Essas duas siglas fazem referência ao Ácido Docosa-Hexaenoico (em inglês, “docosahexaenoic acid’) e ao Ácido Eicosapentaenoico (em inglês, “eicosapentaenoic acid”), ambos ácidos graxos insaturados de cadeia longa (com 22 e 20 átomos de carbono em sua composição, respectivamente), pertencentes à classe do Ômega-3, e alguns estudos associam o consumo destes ácidos graxos a melhorias no organismo (apesar da evidência ser um pouco controversa).

Ok. E por que esses dois ácidos graxos são tão importantes e o que isso tem a ver com a ecologia e a limnologia? Bom, um dos maiores paradigmas sobre as cadeias tróficas aquáticas é a importância do subsídio de duas diferentes fontes de energia: as fontes autóctones, vindas da atividade fotossintética de produtores primários do próprio ambiente aquático (algas e macrófitas aquáticas), e fontes alóctones, vindas de ecossistemas terrestres e/ou aquáticos adjacentes (principalmentena forma de detrito).

A maioria dos organismos são nutricionalmente dependentes de ácidos graxos ômega-3. Por conta de limitações bioquímicas, a maioria dos animais não podem produzir estes compostos, dependendo da sua dieta para a obtenção direta de direta de EPA e DHA ou a obtenção de Ácido a-Linolênico (a-LA) e conversão para EPA e DHA (uma via pouco eficiente). Ora, se os animais não são capazes de sintetizar estes compostos, então se for possível saber de qual fonte eles vêm, saberemos qual a principal fonte de carbono sustentando as cadeias tróficas aquáticas. E é esse exatamente o caso: nos ambientes aquáticos, estes compostos só podem ser sintetizados eficientemente por vegetais inferiores, como as algas. Logo, uma alta concentração destes compostos em um organismo indicaria uma grande importância das fontes autóctones, enquanto baixas concentrações seriam associadas a uma maior importância de fontes alóctones.

Representação dos ácidos graxos (A) EPA e (B) DHA.  Imagens retiradas da Wikipedia.

Representação dos ácidos graxos (A) EPA e (B) DHA. Imagens retiradas da Wikipedia.

O uso desse marcador nutricional tem alimentado diversas discussões. Ao longo dos últimos anos, alguns pesquisadores tem utilizado esta técnica para contrapor os resultados encontrados com a utilização de, por exemplo, isótopos estáveis de carbono (uma técnica que já circula na ecologia há décadas) e hidrogênio (uma técnica relativamente nova na ecologia). O debate tem se acalorado bastante e, até agora, nenhuma integração entre as duas técnicas foi, de fato, realizada.

Apesar disso, o uso de marcadores nutricionais para o estudo de cadeias tróficas tem ganhado projeção. Há alguns meses, a revista “Ecology Letters”, uma das mais conceituadas e respeitadas na área da ecologia, publicou uma revisão onde deixava claro que o uso destas técnicas representa um grande avanço para os estudos sobre as comunidades e a compreensão sobre o funcionamento dos ecossistemas.

E por que é importante saber como os organismos respondem a estas duas fontes? Vou te pedir para abrir esse link, e dar uma olhada na página 3. Nessa figura você vai ver algumas pulgas d’água, pequenos organismos que vivem no ambiente aquático, se alimentando de algas e servindo de alimento para diversas espécies de peixes. A mensagem da figura é clara: quanto menor a quantidade de carbono de origem alóctone na dieta destes organismos, maiores eles ficam. E é claro…quanto mais nutritivo e maior o alimento que um organismo ingere, tanto maior ele cresce e se desenvolve – e, em se tratando de estoques pesqueiros, isso tem grande importância para a alimentação humana.

Quando eu ainda era um aluno da graduação, lembro de ter estudo bioquímica e todos aqueles ciclos cheios de nomes e detalhes – na época, agradeci por não ter que trabalhar com aquilo e conhecer todos eles. Ao mesmo tempo, um certo professor de ecologia falou na sua primeira aula: “ecólogos têm que ser megalomaníacos – devem saber de tudo (disciplinas) um pouco”. Cada vez mais a transdiciplinaridade se faz presente na ciência. Em se tratando da Limnologia, que é uma ciência que naturalmente engloba elementos de diversas áreas do conhecimento, essa presença se faz ainda mais marcante. E não é que esse professor estava certo mesmo?

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Responses

  1. Nicholas, adorei o post!
    Fui chamada atenção ultimamente tb para alguns artigos que trabalham com estes marcadores biológicos e o aporte de pesticidas em ambientes aquáticos, mostrando mais uma vez a versatilidade desta metodologia fantástica, apesar de complicada (rs). Vale a pena ressaltar tb a ‘possível’ contribuição dos organismos mixotróficos como fonte de DHA para o zooplâncton em alguns ambientes aquáticos, apesar de nova esta discussão ainda pode render muito assunto, especialmente no que se trata do papel da ‘alça-microbiana’, não?
    Bjos,
    Clarice


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