Publicado por: Laboratório de Limnologia/UFRJ | 12 de dezembro de 2013

Educação Ambiental em uma Área de Proteção Ambiental: inspirações para o desenho de um programa de Educação Ambiental

por Edson Chiote Pinheiro

Estudando um pouco mais sobre um dos temas da minha dissertação, vinculada ao Mestrado Profissional em Formação Científica para Professores de Biologia, busco neste relato relacionar diferentes experiências de Educação Ambiental em uma área de proteção ambiental que é a ilha de Fernando de Noronha aos temas da gestão ambiental. No mestrado em desenvolvimento eu proponho ações entre a escola e comunidade em uma área sujeita a inundações, com problemas sociais e descaso do poder público, com vistas a desenhar um programa de EA específico para aquele grupo. O presente relato de um programa de EA em área distinta, agrega a possibilidade de discussão de limites e possibilidades da minha ação ainda que em outro contexto. Deste modo, a experiência de conhecimento dos projetos de Educação Ambiental (EA) em Fernando de Noronha me fez refletir sobre a relação comunidade escola em um contexto de unidades de proteção ambiental, apelo turístico e conflitos de gestão ambiental.

O Arquipélago é dividido em duas unidades de conservação: uma Área de Proteção Ambiental (APA) e um Parque Nacional Marinho (PARNAMAR).

 Concentrei minha investigação na parte urbana da APA, onde está situada a Escola Arquipélago de Fernando de Noronha (AFN), a única de Ensino Fundamental e Médio da região.

Nessa escola seus alunos participam ativamente de dois projetos existentes na ilha, o do Golfinho Rotador e o TAMAR.  O primeiro projeto, em parceria com PARNAMAR, APA e a Escola AFN, executa um amplo programa de EA, com foco na temática marinha e nas inter-relações ecológicas deste ecossistema com o cotidiano da população local e dos visitantes. Com os alunos da Escola acontecem atividades de disciplina de EA, oficinas ambientais teóricas e oficinas práticas. Já foram 499 oficinas teóricas de EA nos últimos anos, envolvendo 6.131 alunos. Como principal resultado alcançado teve o incremento no conhecimento ambiental sobre o PARNAMAR e a APA, dado constatado pela análise dos questionários de avaliação, que registraram incremento médio de acerto de cerca de 20%, entre os questionários aplicados antes e após as oficinas.

Com os turistas, o projeto mantém programa de sensibilização e orientação ambiental nos pontos mais visitados de Fernando de Noronha. Além de orientar e distribuir folder interpretativo aos visitantes, os monitores registraram as infrações ambientais às normas do PARNAMAR e da APA. Um resultado observado e preocupante foi que em 74% das infrações, ela foi voluntária, o infrator sabia que estava cometendo uma contravenção e tinha a opção de não fazê-la. O outro resultado negativo, obtido pelos executores do projeto, foi que metade das infrações foram cometidas por moradores de Fernando de Noronha, mostrando dificuldades na participação da comunidade local na gestão e conservação ambiental.

Além dos dados obtidos pelos executores do projeto, pude notar após alguns dias na ilha, a falta de comprometimento de parte da população com a gestão dos resíduos sólidos. Outro ponto observado sobre a falta de gestão do lixo a mistura do lixo após separação inicial em lixeiras para a coleta seletiva do lixo. O destino do lixo da ilha é não só a reciclagem, mas também o envio em navio para Pernambuco do lixo misturado. Este relato mostra que não devemos somente atribuir aos moradores a falta de compromisso com a gestão do lixo, mas também ao fato para implementação e/ou fiscalização das políticas públicas de gestão do lixo na localidade.

O segundo, projeto TAMAR, foi iniciado na ilha em 1996. Curioso para saber como são realizados esses trabalhos na ilha, fui ao centro de visitação. Chegando ao local fiquei impressionado com seu projeto arquitetônico, que buscou alternativas ecologicamente corretas nas instalações físicas: madeira certificada, de reflorestamento; reciclagem de containers marítimos; estruturas instaladas sobre pilotis removíveis, para não impermeabilizar o solo. Não foram utilizados recursos naturais não renováveis da ilha, como areia e pedra – uma preocupação fundamental nas obras civis realizadas em ilhas oceânicas, onde o solo é muito facilmente erodido.

Lá conheci um biólogo que atua nos projetos, e conheci o programa “TAMAR na ESCOLA” que executa atividade de EA em parceria com a Escola AFN. O projeto visa despertar nos participantes um entendimento sobre a importância da conservação do meio ambiente, em especial das tartarugas marinhas. Os alunos participam de aulas teóricas e práticas, realizam atividades artísticas e são avaliados ao longo do programa. Este trabalho compila resultados do programa focando a variação do número de acertos na pré e pós-testes aplicados às crianças da escola. Além disso, também são apresentadas percepções acerca da produção artística das crianças ao longo do programa. O outro ocorre desde 2005, onde o TAMAR produz muda nativa para contribuir na recuperação vegetal de Noronha. A ação envolve alunos da Escola AFN e a comunidade local, sendo a 1ª iniciativa para recuperar o ambiente terrestre da Ilha desde seu descobrimento em 1503, quando passou por domínio de diferentes nações, resultando numa severa devastação da vegetação nativa. Cuidar do ambiente que cerca a tartaruga marinha também é uma das preocupações do projeto.

Concluo que a experiências de EA observadas agregaram elementos importantes para a discussão do meu projeto de pesquisa, que é desenhar um programa de EA voltado para uma comunidade em situação de vulnerabilidade socioambiental, utilizando as parcerias entre comunidade e escola.

Observei que o trabalho de EA na ilha é intenso e a comunidade local tem “voz” na região, percebi várias vezes discursos críticos e baseados em conhecimentos ambientais, de alunos, guias, donos de pousadas, taxistas, etc. Isso vai ao encontro ao que afirma Loureiro (2004) que a EA tem caráter transformador e emancipatória, desvelando as esferas ideológicas e de alienação, pela possibilidade do diálogo entre diferentes e da construção e compreensão da realidade concreta e sua dinamicidade.

Bibliografias consultadas:

LOUREIRO, C.F.B. Trajetória e fundamentos da educação ambiental. São Paulo:Cortez, 2004

LOPES.G.  Programa Tamar na Escola. Fundação Pro-Tamar.2010.

JUNIOR, J.M.S. Os golfinhos de Noronha. Bambu Editora e Artes Gráficas. São Paulo. 2010.

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Responses

  1. Excelente texto Edson e grande experiência. Precisamos conversar mais sobre isto. Você relata uma condição que me parece a ideal, na perspectiva de biólogos, para o exercício da EA. Mas é claro também em mostrar o quanto ainda falta para ser completa. Depois aponta para a realidade da sua pesquisa. Uma outra situação ideal, na perspectiva dos educadores ambientais engajados. Como seguimos adiante? Há uma conciliação a ser buscada? Ou são caminhos que serão trilhados independentemente, mas que ambos trarão resultados positivos? Parabéns!


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