Publicado por: Laboratório de Limnologia/UFRJ | 13 de março de 2014

Entre os espinhos da Mata Atlântica

*Esta é uma contribuição dos alunos da disciplina ‘Ecossistemologia’, disciplina  oferecida pelos professores Reinaldo Bozelli e Vinicius Farjalla para os alunos da Graduação em Ciências Biológicas, do Bacharelado em Ecologia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Entre os espinhos da Mata Atlântica

Não está ao alcance de muitos um passeio pela Mata Atlântica brasileira. Ao explorá-la, porém, com olhos que crescentemente ganham a tonalidade inquisitiva de um biólogo, algumas questões saltam à vista, na forma de perguntas que pairam entre as árvores. Esse texto é sobre algumas dessas perguntas, e sobre as tristes respostas que nelas brotam. Mesmo que se entre na mata sem os olhos de biólogo, e não se encare diretamente os problemas da Mata Atlântica (como seu progressivo desaparecimento), a quantidade de motivos ainda restantes para a distração, como as exuberantes árvores e os eventuais e não menos espetaculares animais, aliados a um solo cheio de raízes e serapilheira escorregadia, não raramente provocam quedas ao explorador eventual. No momento em que há necessidade de se escorar em alguma árvore para impedir a queda, é muito comum que as mãos encontrem espinhos, amplamente espalhados pela mata, em diversas formas e cores, defesas de diversas plantas. “Defesa contra o quê?”, perguntariam os mais inquisitivos.

Os mais inquisitivos acabam de espetar suas mãos na primeira pergunta nefasta escondida na Mata Atlântica, e em seu histórico de interação contra o homem. Se pressões de seleção similares atuaram sobre as plantas “espinhentas e de sabor desagradável” (1) da Mata Atlântica brasileira e nos espinheiros-alvar da porção leste dos Estados Unidos (2), o grande fator que favoreceu o surgimento de espinhos independentemente em tantas espécies de planta (de modo que eles sejam tão onipresentes em algumas unidades de Floresta Atlântica) foi a existência de grandes animais herbívoros agora extintos.

Dentre os inúmeros componentes da chamada “megafauna” (animais com massa corporal de 50 kg ou mais), aqueles como as preguiças gigantes, os gomofóteros (um parente do mastodonte) e mesmo alguns primatas como o recém-descoberto Cartelles coimbrafilhoi (3) podem ter sido, através de sua alimentação dependente das folhas e frutos das espécies arbóreas presentes à época, aqueles a fazer com que desenvolver espinhos fosse tão útil às plantas da época, para evitar serem atacadas pelos bichos. Os grandes animais se foram em boa parte do mundo, mas as plantas espinhosas ainda estão por aí. Como discutiremos abaixo, não necessariamente todas as plantas que interagiam com bichos hoje extintos tiveram a sorte das palmeiras-iri.

Odeio atribuir consciência a coisas que não a possuem ao falar de ciência. Por tempo demais encaramos a natureza com uma entidade com emoções e ideias, e não quero colaborar para essa linha de pensamento. Feita essa ressalva, e se tratando de uma crônica, creio que possa comentar sem o risco de má interpretação que a impressão que dá às vezes, quando tantas coisas na mata podem te ferir, que a própria floresta está rancorosa, ou que talvez ela ostente essas defesas para se defender de nós. Que fim levou a megafauna extinta?

Diversas espécies da megafauna (> 50 Kg) foram extintas durante o pleistoceno

Diversas espécies da megafauna (> 50 Kg) foram extintas durante o pleistoceno

Dentre as duas grandes hipóteses principais, a de que a mudança climática global causou uma alta mortalidade nos animais de grande porte tem sido questionada recentemente (apesar de ainda reforçada em filmes como a franquia “A Era do Gelo”), pela existência de fortes evidências de que as extinções ocorreram de forma desencontrada nos demais pontos do mundo, ao contrário da chegada do frio que veio de uma vez só. Além disso, elas foram mais tardias em ilhas do que nos continentes, e aconteceram de maneira muito rápida (4). De fato, uma análise recente sugere que o grande fator coincidente entre as extinções de vários gêneros da megafauna nos continentes e ilhas do globo foi a data de chegada humana a esses locais, apoiando a hipótese contrária à da grande extinção pela glaciação (5). Os dados dessa e de outras análises parecem dar um rosto ao principal culpado das extinções: Fomos nós.

Por mais chateado que Rousseau possa ficar, não faltam evidências para a superexploração de recursos naturais, incluindo espécies animais (a chamada sobrecaça, quando nós matamos os bichos até que não sobre nenhum), por civilizações tradicionais, mesmo antes da colonização das mesmas por sociedades ocidentais, a chamada “chegada do progresso” (6; 7). A extinção da megafauna que, em última análise, teria predisposto o aparecimento de espinhos em plantas como as altas paineiras e o icônico pau-brasil provavelmente tem sua causa nas mãos dos primeiros humanos a conseguirem colonizar a América do Sul. Junto com as espécies animais perdidas, surgem também outras ausências: O estranhamento dos espinhos é, na realidade, o obscuro totem da relação ecológica perdida. As espécies nunca estão sozinhas, elas sempre interagem umas com as outras, e com os processos do ecossistema. Esse tipo de relação entre as espécies é o que chamamos de relações ecológicas. O que acontece quando uma espécie para de existir, e a relação que ela exercia ali não existe mais?

Pensem em uma peça de teatro sem alguns dos atores. Junto à perda dos herbívoros, vão-se as populações de carnívoros que deles dependiam (afinal de contas, eles não tem mais o que comer), bem como parasitas e eventuais mutualistas (que são as espécies que colaboram umas com as outras, e acredite, isso ocorre muito na natureza). A própria arquitetura da mata tende a se reestruturar, uma vez que processos de dispersão e predação de sementes, atrelados a espécies animais que estavam ali junto aos vegetais também se perdem (8). Imagine se uma planta que depende de uma espécie de roedor para plantar suas sementes (como o que fazem os esquilos) de repente não pudesse mais contar com esse animal, chamado de “agente dispersor”? Quantos processos ecológicos perdemos apenas pela extinção da megafauna? E quantos mais viemos perdendo desde então?

Após a chegada dos europeus e o triste genocídio de populações indígenas, veio a introdução de monoculturas em larga escala, especialmente a do café, e a devastação da Mata Atlântica ganhou um componente ainda mais forte: Milhares de hectares devastados (as estimativas de perda chegam a 91,5% da cobertura inicial da mata segundo a ONG SOS Mata Atlântica) para a instalação de plantações, o que acarretou em um gradual empobrecimento dos solos e, naturalmente, da biodiversidade. Um excelente retrato das consequências da exploração do solo que anteriormente era floresta nativa pode ser encontrado no documentário “O Vale”, de Marcos Sá Corrêa, disponível em http://www.youtube.com/watch?v=g5m7F-kwR9g , que mostra inclusive o problema social alimentado por esse processo. A desigualdade social, da qual a superexploração de recursos florestais é tanto fruto quanto principal combustível, torna-se mais gritante a cada dia, e a carência de políticas públicas, assistência e acesso a educação mantêm um status quo cada vez mais preocupante para quase todas as partes envolvidas.

Muito do que restou da Mata Atlântica está dividido em fragmentos florestais

Muito do que restou da Mata Atlântica está dividido em fragmentos florestais

Mas não apenas de consequências sociais diretas pinta-se o panorama de perdas. Novamente, a perda de hábitat tem consequências diretas para as populações animais que vivem naquele local, além da óbvia remoção de diversas espécies de vegetais, podendo até mesmo extinguir aquelas que só existiam em um determinado local (chamadas “endêmicas”). A transformação da Mata Atlântica em pequenos “cacos” de ecossistema trouxe perdas irreparáveis, uma vez que, nas sábias palavras dos ecólogos Soulé e Wilcox “A morte é uma coisa, o final do nascimento é algo diferente.” Queimamos páginas e mais páginas do “poema” de Henry David Thoureau, que comparou a biodiversidade a uma grande obra literária que estava se perdendo aos poucos. Na realidade, nossa espécie é direta ou indiretamente responsável pela perda de tantas espécies, que é como se uma nova Biblioteca de Alexandria tivesse sido queimada, e ela continha espécies dos mais diversos grupos (animais, plantas, microrganismos) que sequer chegaremos a conhecer. Em um ecossistema rico e diverso como é a Mata Atlântica, quantas páginas da história da vida do planeta não estavam contidas, e sequer serão lidas por nenhum de nós?

Quando os primeiros seres humanos chegaram a essas florestas, havia grandes feras, algumas apresentando perigo real, outras nem tanto. Mas havia algo mais a se temer. Foram-se hoje boa parte das onças-pintadas, por exemplo, vítimas da caça e da perda de seu hábitat: um grandioso predador morto de fome, culpa da fragmentação da mata. Para evitar ainda mais perdas como essas, iniciativas de proteção e restauração da Mata Atlântica foram feitas, contando com replantios, preservação na forma de Unidades de Conservação das mais diversas categorias, reintroduções de espécies e a vital (apesar de ainda falha) educação ambiental (9).

Hoje temos a Lei da Mata Atlântica, que torna as áreas desse Ecossistema protegidas e criminaliza sua destruição, apesar de serem evidentes os problemas funcionais da máquina pública brasileira. Hoje, apesar de a Conservação ainda estar engatinhando, temos cada vez mais pessoas, entre cientistas, pessoas públicas, ONGs, populações tradicionais e a população geral, comprometidas com a reparação do dano já causado a esse e a outros ecossistemas, que tanto foram sugados pela nossa espécie.

Hoje, porém, ao andar na mata, ainda corremos o risco de esbarrar no fantasma de tantas interações e processos ecológicos perdidos, enquanto espetamos nossas mãos nos espinhos anacrônicos de palmeiras-iri, enquanto contemplamos a vegetação característica de áreas ainda se recuperando das feridas recentes, enquanto observamos sementes abortivas espalhadas pelo chão da floresta, na ausência de seus dispersores, e enquanto nos distraímos com a beleza ainda restante da mata, sem a vocalização das aves e mamíferos para completar o panorama. Que os espinhos das questões e de suas respostas não falhem em nos ferir a consciência, quando pensamos no quão próximos ainda estamos de perder “tudo” isso.

 

Referências Bibliográficas

1 – Murdoch, W. W. (1966). ” Community Structure, Population Control, and Competition”-A Critique. American Naturalist, 219-226.

2 – Guilday, J. (1989). Pleistocene extinction and Environmental Change – A case study of the Appalachians in  Paul S. Martin, Richard G. Klein (eds.): Quaternary Extinctions: A Prehistoric Revolution. University of Arizona Press.

3 – Halenar, L. B., & Rosenberger, A. L. (2013). A closer look at the “Protopithecus” fossil assemblages: new genus and species from Bahia, Brazil. Journal of human evolution, 65(4), 374-390.

4 – Fernandez, F. A. S. (2011). O poema perfeito? As grandes extinções pré-históricas e nossa percepção do mundo natural in Fernandez, F. A. S. (eds.): O poema imperfeito: Crônicas de Biologia, Conservação da Natureza e seus Heróis. Editora UFPR.

5 – Araújo, B. (2013) Pleistocene-Holocene extinctions: Distinguishing between climatic and anthropic causes. Dissertação de Mestrado, Universidade Federal do Rio de Janeiro.

6 – Redford, K. H. (1992). The empty forest. BioScience, 42(6), 412-422.

7 – Diamond, J. (2005). Os antigos: os anasazis e seus vizinhos in Diamond, J.(eds.): Colapso – Como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso. Editora Record.

8 – Terborgh, J., Lopez, L., Nunez, P., Rao, M., Shahabuddin, G., Orihuela, G., … & Balbas, L. (2001). Ecological meltdown in predator-free forest fragments.Science, 294(5548), 1923-1926.

9 – Passos, P. L. B. et al. http://www.sosma.org.br/ (último acesso em 19/12/2013).

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Responses

  1. Olá. Eu estou procurando uma dissertação de mestrado que vc cita (5 – Araújo, B. (2013) Pleistocene-Holocene extinctions: Distinguishing between climatic and anthropic causes. Dissertação de Mestrado, Universidade Federal do Rio de Janeiro.), vc tem em pdf? É possível me passar, por favor? Muito Obrigada! 😉


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