Publicado por: Laboratório de Limnologia/UFRJ | 20 de novembro de 2014

Vivências em ecologia praticando para educar: aprender/ensinar ecologia nos ecossistemas da Mata Atlântica

Por Deia Maria Ferreira

Desde o final da década de 1990 pesquisadores do Instituto de Biologia da UFRJ vêm desenvolvendo cursos na área de ensino de ecologia.  O curso Vivências em Ecologia praticando para educar é oferecido a professores da educação básica dos municípios de Macaé e seu entorno. É um curso de 40 horas, metade das quais dedicadas a trabalhos de campo nos ecossistemas litorâneos da Mata Atlântica no estado do Rio de Janeiro, a outra metade se completa com atividades decorrentes das vivências em campo.

Os cursos surgem como necessidade de divulgar à população de Macaé e municípios do entorno o que fazem os pesquisadores que trabalham no Núcleo em Ecologia e Desenvovlvimento Sócio-Ambiental de Macaé, o NUPEM/UFRJ. São realizados nos meses de fevereiro e julho de cada ano, já somam 28 cursos, atendendo a mais de 1.000 professores que atuam em Macaé e região, assim como a 260 estudantes de graduação da UFRJ.

O que se propõe em cada curso são trabalhos de campo em distintos ecossistemas, distintas paisagens  (floresta, restinga, lagoas, costão rochosos, manguezal).  Percebido o todo, o observador muda de escala e vai para as partes do todo,  a flora, a fauna, suas interações entre si e com os ecossistemas vizinhos. A relação espaço-tempo é uma referência em todos os pontos visitados.

O percurso promove vivência em mata dentro da Reserva Biológica União, onde é possível observar e refletir sobre o trajeto da água por dentro da floresta, alcançando e escorrendo pelos troncos, ramo por ramo, rugosidade por rugosidade até atingir a serrapilheira ou folhiço, aquela camada de folhas sobre o solo da floresta. Novamente é possível perceber na umidade do folhiço, uma retenção de água que promove nova redução de energia em cada gota para dentro do solo. Assim é possível observar, através da estrutura da floresta, como a água se distribui e chega ao solo que drena para os rios e daí segue um caminho até nossas casas. É um momento refletir sobre a importância da floresta no ciclo da água e sua distribuição para os seres humanos. Ainda dentro da floresta, observa-se um pequeno riacho que nasce na mata e vai compor a bacia hidrográfica de grandes rios da região, como o Macaé e o São João.  A introdução do conceito da bacia hidrográfica estabelece uma dinâmica espaço-temporal que integra conteúdos de várias áreas do conhecimento. A caminhada continua com observação dos diferentes estratos da mata, as plantas (árvores, arbustos e herbáceas) e suas adaptações, interações, a fauna e suas adaptações, fungos e os decompositores.

Mata

Mata

Nosso trajeto continua, em outro dia do curso, para o manguezal do Rio Macaé. Aqueles pequenos córregos que tiveram origem na mata, se juntam a outros tantos, chegam a baixada formando um grande rio que em sua fase final forma um manguezal. O manguezal é um ecossistema regido pelo rio e pelas enchentes e vazantes das marés. A visita ao Rio Macaé traz reflexões sobre a importância da vegetação marginal aos rios, discutindo a ocupação indevida das margens pelo homem. Além disso, o Rio Macaé está impactado, sendo visualmente possível observar uma enorme quantidade de resíduos como garrafas pet, restos de móveis, utensílios domésticos, etc. É possível visualizar canos com esgoto sendo liberado diretamente dentro do rio.  Subimos o rio de barco e aportamos no manguezal, discutindo a ciclagem de nutrientes e sua importância para as cadeias pesqueiras; observamos a flora e fauna bem características.

Manguezal

Manguezal

Mais um dia de curso: água que vem da mata através de pequenos riachos e chega às lagoas que são represadas por barras naturais e que as separam do mar. Sempre com a ideia maior da paisagem, de onde vem a água e para onde ela vai? Aí é possível observar os organismos aquáticos e a vegetação marginal, compondo uma bela paisagem como é o caso da taboas e das ninfeias. Discutimos também a ciclagem de nutrientes e a biodiversidade. Esta discussões são promovidas por atividades,  onde os professores estão em pequenos grupos para observação e cumprimento da atividade proposta, que pode ser um jogo ou uma dinâmica.

As lagoas estão enclavadas na restinga, onde podemos observar uma vegetação com características adaptativas a escassez de água. Embora chova com regularidade na região o substrato é arenoso e a água escoa rapidamente pelos poros entre os grãos, este um dos aspectos e serem observados.  Tipos de folhas como resposta à escassez de água como folhas com pelos, folhas de pequeno tamanho, folhas suculentas, entre outras. O papel das bromélias para os organismos aquáticos em ambiente árido tem sempre ênfase especial.

Lagoa de Jurubatiba

Lagoa de Jurubatiba

Como último ecossistema visitado temos um costão rochoso , outro ecossistema sob influência do regime de marés.  O costão é mais um livro aberto em pequeno espaço para se observar relações forma-função, ou seja adaptações dos organismos e esta variação das marés.  A organização dos grupos de organismos em faixas, os mexilhões, as cracas e as algas; o caramujo predador, ouriços, esponjas, pepinos do mar, peixes, entre outros tantos.  O costão rochoso é sempre uma boa surpresa, está ali bem próximo, em um pequeno espaço chamando os professores para um aprendizado…

Costão Rochoso

Costão Rochoso

Os ecossistemas vivenciados estão em áreas de conservação (mata, restinga e a lagoa de Jurubatiba) e em área com forte ação antrópica (manguezal,  costão rochoso e a lagoa Imboassica). É nossa intenção que seja assim. É possível discutir as funções ecológicas dos ecossistemas em ambientes naturais e em ambientes com forte ação antrópica, comparando as semelhanças e discutindo as diferenças.

São assim os ecossistemas: um convite ao conhecimento, um livro aberto a todas as indagações.

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Responses

  1. Água, água, água…Vendo água em tudo, vendo tudo pela água. Educação e proteção pela água. Água porque se educa e protege. Água que molha, que lava, que dissolve, faz brotar, nutre, alegra, sacia. Água que é princípio e manutenção da vida. Água que precisa de gestão para que não vença a destruição. Viu Deia, que texto inspirador o seu…quanto de nossas vidas ali.


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