Publicado por: Pedro Junger | janeiro 29, 2015

Lagoas hipersalinas no litoral do Rio de Janeiro

Você sabe o que são ambientes extremos? Como o próprio nome diz, são ambientes que possuem condições extremas como alta ou baixa temperatura, pressão, acidez e salinidade; ou a presença de solventes orgânicos, metais pesados, substância tóxica e radiação. Estas condições inviabilizam a existência de vida… bom pelo menos de grande parte dela. Na verdade, existem alguns organismos que conseguem não apenas sobreviver, mas também crescer e se reproduzir nestas condições adversas. A ciência chama estes organismos de extremófilos.

Extremófilos são majoritariamente microorganismos e existe um grande interesse de estudá-los pois eles vivem em ambientes que são muitas vezes semelhantes aos encontrados quando a vida surgiu no planeta Terra, há cerca de 40 milhões de anos. Além disso, esses organismos servem como parâmetro para entender quais os limites da existência da vida e áreas como a astrobiologia os utilizam como modelo para buscar vida extraterrestre.

lagoas hiper.001

Figura 1. Na Lagoa Visgueiro foram formadas várias poças com salinidade à 375 ppt. A coloração avermelhada é devido à presença de microorganismos extremófilos. Note que o sedimento logo abaixo do camada de sal possui coloração escura, possivelmente devido à processos de redução de sulfato, que pode ser realizado por bactérias.

Nesse último mês de Janeiro uma equipe do Laboratório de Limnologia foi surpreendida com alguns exemplos desses ambientes extremos no Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba. Nessa região, existem lagoas que são naturalmente muito salinas, mas, devido à presente seca, alcançaram salinidade ainda maior! Para se ter uma ideia, algumas delas apresentavam salinidade 3 a 12 vezes mais alta do que o oceano, o que as caracteriza como lagoas ou poças hipersalinas. Além disso, foram registradas temperaturas na água acima de 45ºC! Mais quente que a temperatura atmosférica do Rio de Janeiro! Ruim para os peixes, que estavam todos mortos, bom para os extremófilos, que como disse anteriormente, são os únicos adaptados à tamanha adversidade.

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Figura 2. Coleta na lagoa Garças e uma das poças adjacentes, que apesar de visualmente não parecerem extremas, atingiram salinidade de até 100 ppt.

Peixe morto

Figura 3. Os peixes não resistiram às condições extremas encontradas nessas lagoas.

Durante meu mestrado, também investigarei as interações ecológicas entre vírus e bactérias nesses ambientes, o que pode apresentar algumas surpresas científicas. Estou ansioso para ver os resultados!

Lab

FIgura 4. Experimento de laboratório pós-campo em andamento.

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Responses

  1. […] Meu trabalho de mestrado, conduzido no Laboratório de Limnologia (UFRJ) e em colaboração com o Laboratório de Hidrobiologia (UFRJ), teve como objetivo principal cobrir esta lacuna no conhecimento científico. Nós utilizamos 20 lagoas costeiras localizadas no estado do Rio de Janeiro como ecossistemas modelo para testar quais fatores ambientais eram mais determinantes para abundância e produtividade viral em sistemas tropicais. Dentre várias variáveis ambientais, descobrimos que a salinidade é o mais forte dos fatores ambientais determinando positivamente a abundância viral e bacteriana. Em outras palavras, quanto mais salino o ambiente, maior a abundância dos microrganismos. Contudo, não encontramos maior produção viral (quantidade de vírus produzido por unidade de tempo) em ambientes mais salinos. Diante deste aparente paradoxo, nossa hipótese é que este padrão ocorreu por dois motivos principais relacionados com as condições estressantes de ambientes hipersalinos: […]

  2. Muito interessante sua pesquisa, Pedro. Tenho um interesse especial pelos organismos extremófilos e já aguardo ansiosa pela sua dissertação. Sucesso!


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