Publicado por: Alice Campos | 4 de abril de 2015

Existem maneiras de avaliar quantitativamente o conhecimento científico?

Em meio a tantas produções, um mundo de trabalhos experimentais, observacionais, teóricos, em inúmeros ecossistemas, amostrando diversas espécies e processos, sob diferentes delineamentos e análises estatísticas…você talvez deva imaginar: como posso traçar um perfil sobre o desenvolvimento de determinado assunto em uma fonte de literatura científica cada vez mais expansiva e complexa? É possível ter acesso à contribuição de teorias, paradigmas, subtemas da área de interesse e transformá-la em algo mensurável e estatisticamente interpretável?

Inicialmente é importante que você elabore ou tenha alguma hipótese (ou mesmo uma pergunta) em mente, de preferência, que guiará o seu processo de levantamento bibliográfico e lhe permitirá, mais à frente, lançar outras perguntas acerca do conjunto de dados que serão amostrados. E por onde começamos? Quais ferramentas importantes para desenvolver este tipo de pesquisa?

A primeira etapa normalmente compreende uma busca literária em algum site referencial ou plataforma de periódicos reconhecida e segura. Uma fonte a que muitos cientistas recorrem é o Institute of Scientific Information – Thomson Science Citation Index (www.isiwebofknowledge.com). Para a sua pesquisa escolha palavras ou expressões-chave que estejam relacionadas à sua pergunta, podendo decidir por uma seleção mais ou menos abrangente. Se, por exemplo, a seleção for pautada em primeiro plano de acordo com as revistas de interesse, também é possível procurar pelos estudos em seus próprios sites.

A partir do seu pool de artigos podemos estabelecer uma análise cienciométrica sobre eles. Ah, sim! Melhor comentar um pouco sobre esta ferramenta. A cienciometria é conhecida como o conjunto de métodos de natureza quantitativa que costumam ser empregados nos estudos de produções científicas. Ela contribui para traçar um “estado da arte” do tema pesquisado, resultando em avaliações de potenciais vertentes e críticas como um auxílio às possibilidades de exploração do mesmo no futuro. Além das técnicas de avaliação quantitativa (onde também estão compreendidas a bibliometria, a informetria e a mais recente webometria), existem as de avaliação qualitativa.

Historicamente, a cienciometria foi ganhando espaço devido à capacidade de pesquisadores de desenvolverem soluções úteis para planos e estratégias, acrescentando discussões para a ciência moderna. Já na metade do século XX, os cientistas tiveram que se adaptar às modificações e novos desafios econômicos e sociais, principalmente devido aos avanços tecnológico e científico resultantes do período pós-guerra. O termo “cienciometria” foi inicialmente empregado e difundido na União Soviética e Europa Oriental, tornando-se popular com a revista Scientometrics, editada originalmente na Hungria e atualmente na Holanda.

Acima de questões estritamente acadêmicas, a avaliação da produtividade científica pode ser um importante instrumento, por exemplo, para o estabelecimento de uma política nacional de ensino e pesquisa e elaborar um diagnóstico de potencialidades de instituições e grupos. Ela pode gerar novas diretrizes, programas nas áreas político-sociais, tecnológicas, científicas e de saúde. Dessa forma, a cienciometria torna-se uma ferramenta de quantificação científica uniforme e capaz de produzir indicadores com técnicas interdisciplinares.

Retornando um pouco ao nosso mundo, como pode perceber, a análise cienciométrica é aplicável a inúmeras áreas e torna dados, antes espalhados em uma larga escala subjetiva, em rearranjos de gráficos, tabelas e outras formas de interpretação mais inteligíveis e objetivas. Com os seus artigos selecionados, dependendo da quantidade e da sua paciência em organizá-los, é interessante exportá-los para um programa administrador de bibliografia, como o EndNote, Zotero e Mendeley. Até porque, se não conseguir ter acesso a todos na íntegra – fique tranquilo, isso fatalmente vai acontecer -, ao menos você mantém a salvo o resumo e outras informações básicas. E ainda é possível do resumo ser suficiente para você, de acordo com os dados que você pretende extrair.

Um adendo aos problemas com artigos de difícil acesso. É possível que você tente de “n” formas encontrá-los e que mesmo assim seja em vão. Outra alternativa é conseguir o e-mail do primeiro autor ou de um dos colaboradores e requisitá-lo diretamente. O primeiro autor não responde? Tente os próximos contatos. Se o artigo possui um único autor e você não consegue o e-mail ou outro tipo de contato, ou ainda assim você manda e ele não dá sinal, a tirinha abaixo deixa uma sugestão.

Fonte: informationnarratives.wordpress.com

Fonte: informationnarratives.wordpress.com

Para áreas ou temas emergentes é relevante utilizar a cienciometria para detectar possíveis assimetrias e ver como elas estão relacionadas. Outra questão é a detecção de vieses na pesquisa, visto que podem levar a falsas conclusões nos momentos de generalizações e por muitas vezes os estudos não serem representativos ou guiados a condições estatisticamente manipuláveis. Outra aplicação de métodos quantitativos é a meta-análise, que reúne experimentos independentes e possui a propriedade de sintetizá-los em índices de efeito, permitindo comparações entre grupos experimentais biologicamente significativos. Recentemente, várias delas têm utilizado a diferença padronizada entre as médias, dos grupos controle e tratamento. Vale ressaltar que, independente da metodologia ou técnica que deseja utilizar, é de extrema importância que o pesquisador tenha domínio e esteja ciente dos principais trabalhos que guiaram e estruturaram o tema de interesse.

Ainda são ferramentas com as quais estou me familiarizando, mas quis deixar um pouco do contato com as informações que tive. Em uma próxima podemos discutir mais sobre isso! E você, quais suas experiências com esse tipo de ferramenta?

 

Referências:

ANDRADE, H.P. (2010). Análise cienciométrica global em bioindicadores: um panorama das tendências entre os anos 1998 a 2007. Dissertação de M.Sc., Pontifícia Universidade Católica de Goiás, Goiás, GO, Brasil.

CALIMAN, A. et al. (2010). The prominence of and biases in biodiversity ande cosystem functioning research. Biodiversity and Conservation, 19, 651-664.

HEDGES, L.V. et al. (1999). The meta-analysis of response ratios in experimental ecology. Ecology, 80 (4), 1150-1156.

OLIVEIRA Lobo, M.D. (1999). Métodos y técnicas para la indización y la recuperación de los recursos de la World Wide Web. Boletin de la Asociación Andaluza de Bibliotecários, n. 57.

VANTI, N.A.P. (2002). Da bibliometria à webometria: uma exploração conceitual dos mecanismos utilizados para medir o registro da informação e a difusão do conhecimento. Centro de Informática/UFPE, 31 (2), 152-162.

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