Publicado por: Laboratório de Limnologia/UFRJ | 3 de agosto de 2015

Os Jogos Olímpicos e os ecossistemas aquáticos, despoluição à vista? Ou não?

Quando chegaram aqui em 1500, os portugueses encontraram uma baía de Guanabara limpa, com fauna em abundância e um quadro de balneabilidade bem diferente do atual. Anos se passaram e a situação geral dos corpos aquáticos no país, principalmente os de localização urbana, tem sido uma fonte de problemas e discussões cada vez maior. No caso da baía de Guanabara, assim como outros corpos d’água, anos de desenvolvimento urbano em seu entorno levaram ao seu estado atual de degradação, onde mesmo após investimentos milionários iniciados após a Rio-92, a baía de Guanabara continua suja.

Baía de Guanabara, em mapa de 1555. Fonte: wikipedia

Na contagem regressiva para sediar pela primeira vez os Jogos Olímpicos na América do Sul, o Rio tem apresentado obras e prazos em andamento e calendário de eventos-teste já fechado. No entanto, uma das grandes preocupações do Comitê Organizador da Rio-2016 é a despoluição da Baía de Guanabara. Demonstrada em 2009 ao COI (Comitê Olímpico Internacional) como o principal “legado” dos Jogos na área ambiental, a meta de despoluição tem se mostrado atrasada com as perspectivas para 2016. “Temos um compromisso de entregar uma Baía 80% despoluída. Se não conseguirmos, já será um avanço sairmos de 17% para 49%. Vamos conseguir chegar a 80% com essas obras da Baixada que a gente quer lançar. Se não for nas Olimpíadas, vai ficar como um legado”, disse o governador Luiz Fernando Pezão, em encontro com membros do COI. Mas ao que tudo indica, talvez não haja nenhum legado ambiental para a baía de Guanabara.

Lixo nas margens da baía de Guanabara. Fonte: Associated Press

A história ganhou um novo capítulo semana passada, quando a agência internacional de notícias AP divulgou uma reportagem criticando a qualidade da água na lagoa Rodrigo de Freitas e na baía de Guanabara. Segundo órgãos do governo do estado, os testes bacteriológicos, necessários pela legislação brasileira, indicam uma qualidade da água aceitável. O secretário de ambiente do Rio de Janeiro chegou a mergulhar na água para provar que a qualidade de água na baía era própria para banho. O problema, identificado na pesquisa encomendada pela AP, são os níveis alarmentes de vírus, o que indica má qualidade da água. Com isso os atletas estão sujeitos a água contaminada por esgoto, e consequentemente correm risco de contrair doenças e não terminar as provas. Os vírus encontrados podem causar infecções no estômago e doenças como como Hepatite A, e em casos mais graves, atingir o coração e o cérebro. Esses resultados tem alarmado entidades internacionais e provocado discussões polêmicas sobre a responsabilidade de sediar um evento sob essas circunstâncias. A Lagoa Rodrigo de Freitas é outro caso que demonstra preocupação, pois receberá disputas olímpicas e, de vez em quando, fica repleta de peixes mortos. Diante da situação no Rio de Janeiro, a cidade de Búzios chegou a se oferecer para sediar a competição de vela nas olimpíadas, mas o Comitê Organizador dos Jogos descarta esta possibilidade.

A despoluição da Baía de Guanabara, do ponto de vista estritamente ecológico, é relativamente simples. Primeiro, é necessário parar de jogar esgoto na baía. Com o fim do aporte de esgoto, há formas de retirar o lixo da baía e reduzir os níveis de nutrientes na água, reduzindo a eutrofização. Porém, a questão é mais complexa. Cerca de 50 rios desembocam na baía de Guanabara, passando por 16 municípios, onde moram 8 milhões de pessoas no total. Sendo assim, a despoluição não é um problema puramente ambiental, mas também possui aspectos sociais e políticos complexos.

Alguns dos pontos turísticos mais famosos d Rio de Janeiro estão na baia de Guanabara. Fonte:wikicommons

A situação ambiental na Baía de Guanabara já não está boa há muito tempo. Além disso, há décadas ouve-se falar sobre projetos de despoluição da Baía de Guanabara. Ao sediar grandes eventos internacionais, entre eles as Olimpíadas, o Rio de Janeiro tem uma grande chance de deixar um legado para o futuro, incluindo esportes, mas também educação, transporte e visibilidade internacional. Porém, em relação ao meio ambiente e à Baía de Guanabara, os jogos olímpicos estão sendo uma grande oportunidade perdida.

Texto escrito por Elder Sodré e Alice Campos.

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