Publicado por: eldersodre | 22 de outubro de 2015

Precisamos conversar sobre a crise hídrica

Alguns dias atrás, eu estava navegando pelo internet quando vi a seguinte notícia: devido à estiagem, a sede Teresópolis do Parque Nacional da Serra dos Órgãos estaria fechada. Segundo um site de notícias, era a primeira vez em quase 76 anos de existência que o PARNASO fecha as portas. Imediatamente me lembrei da crise hídrica do sistema cantareira, no estado de São Paulo, alardeada pela mídia no último verão e logo esquecida. Apesar de ter caído no esquecimento, a crise hídrica não acabou. Uma rápida pesquisa no google indica que neste mês de outubro de 2015, faltando 2 meses para o início oficial do verão, a falta de água já é uma realidade em diversas cidades do Brasil. Por exemplo, em Varginha/MG e Niterói/RJ. Em Angra dos Reis/RJ, a prefeitura declarou estado de emergência hídrica e proibiu os cidadãos de lavarem carros, barcos, calçadas, regar jardins, encher ou esvaziar piscinas, entre outros. Com isso, voltamos ao título desta postagem. Precisamos conversar sobre a crise hídrica.

Eu nasci e fui criado em um bairro do subúrbio do Rio de Janeiro. Eu me acostumei a sempre ter água saindo da torneira. Na minha casa, o fornecimento de água só é interrompido quando é necessário fazer manutenções na rede de abastecimento. E devido à localização mais próxima do sistema Guandu, o meu bairro é um dos primeiros a voltar a ter água quando o abastecimento é religado. Além disso, devido à caixa d’água de 1000 litros que temos em casa, quando a água não chega pelos canos, ainda temos água para usar. Torneira seca nunca foi uma realidade para mim, assim como para muitas pessoas. Sei que muitos outros brasileiros não tem a mesma sorte que eu, mas para aqueles que tem isso cria um sentimento equivocado de que a água é um bem infinito. Nos acostumamos a ter sempre água, mas não nos questionamos como a água chega até nossas casas.

E você? Tem água na torneira?

E você? Tem água na torneira?

A verdade é que há muita água em nosso planeta. Mas não significa que temos muita água para o nosso consumo: 97,5% da água do planeta é salgada (oceanos), 1,72% está em calotas e geleiras e 0,72% são águas subterrâneas. Sobram apenas 0,06% da água em rios, lagos, biomassa e vapor¹. Em outras palavras, temos muita água. Mas água potável é muito pouca. E ainda estamos cuidando mal do pouco que temos pela poluição e outros problemas ambientais.

Quando tivemos, no início deste ano, um problema com o baixo nível de água nos reservatório de São Paulo, uma das soluções apontadas foram obras de engenharia para aproveitar o volume morto das represas, ou seja, a água que ficava abaixo do nível de captação. Em outros contextos, é comum apontar as obras como solução: basta criar mais uma barragem, transpor águas de um rio, mudar o seu curso. Isso pode passar a sensação que a engenharia é a grande solução para o problema da falta de água, mas não se enganem: as obras ajudam, mas para resolver o problema é necessário pensar ecologicamente. Um componente importante do ciclo da água é a evapotranspiração. As árvores atuam como verdadeiros “canos”, puxando água do solo e liberando a maior parte para a atmosfera, sob a forma de vapor d’água. Com isso a cobertura vegetal é essencial para o balanço hídrico. Em outras palavras, sem floresta não tem chuva. Por exemplo, na Amazônia a evapotranspiração das árvores forma verdadeiros “rios voadores”, e sem eles grande parte da América do Sul seria um deserto. E tem mais: a cobertura vegetal protege as nascentes e o curso dos rios. Sem floresta, as nascentes secam e os rios ficam mais assoreados, diminuindo o volume de água que levam. Agora pensem nos rios próximos às casas de vocês: quanta cobertura vegetal há no entorno? Quantos foram canalizados? Quantos tem alguma mata ciliar?

A situação não é nada boa. Além dos problemas em escala local, mudanças climáticas globais trarão aumento da temperatura e alterações nas chuvas. A falta de água é um tema espinhoso para aqueles que ainda tem acesso a ela, mas um tema urgente para aqueles que ainda não tem tanto acesso. É um tema amplo e difícil. Mas, para o nosso próprio bem, precisamos conversar sobre a crise hídrica.

Lagoa seca devido por falta de chuvas, em Março deste ano. Foto por Rayanne Setubal.

Lagoa seca devido por falta de chuvas, em Março deste ano. Foto por Rayanne Setubal.

¹Informação retirada de:

ESTEVES, F.A. 2011. Fundamentos de Limnologia. 3ª edição. Interciência, Rio de Janeiro, RJ. 826p.

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