Publicado por: Laboratório de Limnologia/UFRJ | 10 de dezembro de 2015

Metilação de mercúrio em sedimentos de um manguezal brasileiro sob diferentes coberturas de vegetação e valores de salinidade

Publicações do laboratório

* A partir de hoje, o blog Limnonews conta com uma seção chamada “Publicações do Laboratório”. Aqui traremos um resumo de artigos publicados por membros do laboratório de Limnologia/UFRJ, escrito em uma linguagem acessível. Assim você fica por dentro de nossas pesquisas!

 

Mercury methylation in sediments of a Brazilian mangrove under
different vegetation covers and salinities

Metilação de mercúrio em sedimentos de um manguezal brasileiro sob diferentes coberturas de vegetação e valores de salinidade

 

Diana Ciannella Martins de Oliveira; Raquel Rose Silva Correia; Claudio Cardoso Marinho; Jean Remy Davée Guimarães

 

Você já deve ter ouvido falar no mercúrio (Hg), o único metal que pode ocorrer em estado líquido à temperatura ambiente. Mas você sabe que esse elemento também pode estar presente no ar, no solo, na água e pode representar um risco à saúde do homem?

Os solos são o principal reservatório natural de Hg, onde ele pode ser encontrado associado ao elemento enxofre, formando o minério cinábrio (HgS) e erupções vulcânicas também podem contribuir para a liberação natural deste elemento ao ambiente. Já o homem contribui para a dispersão do Hg por meio da queima de combustíveis fósseis (carvão em particular), indústria de cloro-soda, incineradores de lixo, lâmpadas fluorescentes, baterias, amalgamação do Hg no processo de mineração de ouro, dentre outros.

O Hg pode assumir diferentes formas químicas, orgânicas ou inorgânicas, sendo as primeiras as mais tóxicas. Na forma orgânica, o Hg encontra-se ligado a um radical de carbono, comumente um metil ou etil (CH3 ou CH2-CH3) e com esta associação torna-se capaz de penetrar os tecidos animais e neles permanecer ligado a proteínas. Esse processo de metilação do Hg (formação do metilmercúrio ou CH3-Hg+) ocorre naturalmente nas águas e sedimentos de rios, lagos e oceanos promovido por microorganismos presentes nesses ambientes, especialmente pelo grupo das bactérias sulfato redutoras, mas também pode ocorrer por processos químicos ou abióticos, em menor proporção. Uma vez formado, esse metilmercúrio contamina a biota, entrando na cadeia alimentar e atingindo sua concentração máxima em tecidos de peixes que ocupam o topo da cadeia alimentar aquática devido ao processo de biomagnificação trófica (processo de acúmulo progressivo de uma substância de um nível trófico para outro ao longo da cadeia alimentar pela incapacidade de os organismos metabolizarem tal substância). É justamente com a contaminação de peixes e outros organismos aquáticos pelo metilmercúrio que o homem pode se contaminar com esse composto, ao consumir esses alimentos. A exposição ao metilmercúrio pode provocar alterações neurológicas, com sintomas como distúrbios visuais, prejuízo da coordenação motora, insensibilidade na pele, perda de audição, tremor muscular, dificuldade na articulação de palavras e em casos de exposição grave, pode levar à paralisia e até à morte. Portanto, estudar a ocorrência de mercúrio e metilmercúrio no ambiente é de extrema importância para que possamos prevenir a contaminação tanto de animais quanto do homem.

Considerando essa importante questão, este trabalho teve como objetivo avaliar o potencial de metilação de Hg no ambiente de manguezal de Coroa Grande, na Baía de Sepetiba, Rio de Janeiro. O manguezal foi escolhido por ser um ecossistema costeiro de grande importância ecológica, sendo um local de refúgio e abrigo de diversas espécies marinhas que podem passar parte de seu ciclo de vida nele e ainda pode ter importância econômica pela extração de caranguejos e ostras para consumo humano. Entretanto, pouco se sabe sobre a presença de Hg e formação de metilmercúrio nesse ecossistema.

Nesta pesquisa, foram coletadas amostras de sedimento, raízes e folhiço de diferentes pontos deste manguezal, desde a região do infralitoral (na linha d’água) até a região mais seca, passando por diferentes coberturas vegetais, típicas deste ecossistema. Variáveis como profundidade da fração de sedimento, tipo de cobertura vegetal (Avicennia shaueriana, Laguncularia racemosa, Rhizophora mangle, Spartina alterniflora) no ponto coletado, salinidade e tempo de incubação foram avaliadas no estudo, por considerar que todas podem influenciar na atividade microbiana e consequentemente na formação de metilmercúrio.

Manguezal

Esquema com os pontos de coleta no manguezal (Baía de Sepetiba, Rio de Janeiro)

Mas como é possível analisar a formação de metilmercúrio nessas amostras coletadas? No laboratório, os pesquisadores introduzem Hg inorgânico radioativo (203Hg) às amostras. Após um período chamado de incubação, durante o qual espera-se que ocorra o processo de metilação desse 203Hg pelos microorganismos presentes na amostra, os pesquisadores submetem as mesmas a um processo de extração do metil203Hg que tenha sido formado. Após a extração, o material obtido é levado a um aparelho capaz de detectar a presença do metil203Hg e quantifica-lo.

E então, qual foi o resultado? Bom, os principais resultados foram que em todas as amostras coletadas houve metilação de 203Hg, inclusive nas raízes das plantas e no folhiço, sendo que houve diferença na metilação do sedimento coletado sob diferentes tipos de vegetação: nas regiões cobertas pelas plantas A. shaueriana e L. racemosa a metilação foi maior do que no ponto coletado sob a R. mangle. Este dado é importante, pois nos indica que existe uma influência dessas plantas na formação do metilmercúrio, provavelmente relacionada com as substâncias orgânicas que elas secretam pelas raízes e que podem favorecer a atividade das bactérias que formam esse metilmercúrio no sedimento.  Além disso, as análises sugeriram que a fração superficial do sedimento, em todos os pontos do mangue, é a mais eficiente para a metilação do 203Hg (onde foi detectada a maior quantidade de metilmercúrio). Portanto, concluiu-se que, na presença de Hg, o manguezal é capaz de produzir metilmercúrio em diferentes pontos, o que pode representar um grande risco para toda a biota que o habita e consequentemente para o homem que consome esses animais. Dessa forma, alertamos para a gravidade da poluição ambiental por Hg e ressaltamos que os estudos sobre a relação do manguezal, especificamente, com o Hg e sua forma orgânica altamente tóxica, metilmercúrio, precisam ser aprofundados.

Se interessou em ler o texto inteiro? Clique aqui para baixá-lo (apenas se você tiver acesso aos periódicos CAPES).

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