Publicado por: rayannesetubal | 4 de fevereiro de 2016

Uma Poça de Diversidade!

Publicações do laboratório

 

Sem dúvidas a maior vocação de um pesquisador é a produção de conhecimento. Entretanto, precisamos transpor os muros da universidade e dos centros de pesquisa de forma a levar esse conhecimento ao público em geral, de forma acessível propiciando não só um melhor entendimento daquilo que é produzido mas também, no nosso caso em específico, promover conscientização acerca da importância de preservação dos ambientes aquáticos.

Nesse sentido, com o objetivo de divulgar algumas das pesquisas e informações sobre ambientes temporários, comumente chamados de poças, localizados no Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba e na Floresta Nacional de Carajás, o Laboratório de Limnologia teve o artigo “Uma Poça de Diversidade” aceito para publicação em uma das maiores revistas de divulgação científica do Brasil, a Ciência Hoje. O artigo compõe a edição de número 333 referente aos meses de Janeiro e Fevereiro de 2016.

artigo

Este trabalho foi resultado de uma cooperação entre pesquisadores de diferentes áreas e universidades que contribuíram com informações sobre diferentes grupos de organismos: fitoplâncton, zooplâncton, macrófitas e peixes.

As poças ocorrem em áreas mais baixas da paisagem e têm uma infinidade de formas e a particularidade de secar por completo de tempos em tempos. O intervalo entre a formação e o dessecamento de uma poça pode ser mensurado em dias, meses ou anos. A enorme variedade de formas, características e origens e a dinâmica ecológica peculiar tornam esse tipo de ambiente extremamente importante. Poças são altamente suscetíveis ao que ocorre em seu entorno e são consideradas ambientes muito resilientes, pois conseguem se restabelecer mesmo após eventos de seca extrema. Além disso, são cruciais para diversas espécies que precisam viver na água pelo menos em uma fase de seu ciclo de vida.

Estudos indicam que, em relação às microalgas, essas poças são mais diversas do que lagoas perenes vizinhas, o que evidencia a relevância desses ambientes para a conservação da biodiversidade regional. Os invertebrados presentes nesses ambientes seguem o mesmo alto padrão de diversidade. Muitas espécies também têm sua presença restrita a determinado período do ano, devido aos eventos de dessecação das poças. Quando os ambientes começam a encher com as chuvas, ovos resistentes depositados no sedimento eclodem, e os organismos voltam a se estabelecer na água. Isso acontece, por exemplo, com o crustáceo Dendrocephalus carajaensis, espécie recentemente descoberta nessa região. A riqueza de espécies de invertebrados que habitam poças também é superior à de lagoas permanentes no Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba, no norte fluminense. Essas restingas foram formadas por eventos sucessivos de deposição de areia (em função do recuo e avanço do mar), dando origem a uma planície arenosa. Nas áreas mais baixas do terreno, há inúmeros ambientes aquáticos, formados pelo represamento de rios, afloramento do lençol freático ou acúmulo de água da chuva.

É grande a vulnerabilidade de ambientes aquáticos temporários. A prática de aterrar brejos e poças é bastante antiga no Brasil e remonta aos tempos coloniais. A partir da metade do século 19, epidemias de cólera, febre amarela e malária assolaram a população brasileira, e os ambientes de água parada, rasos e temporários passaram a ser encarados por médicos e sanitaristas como a fonte dessas doenças e algo a ser eliminado das cidades. Surgiram, naquela época, diversas propostas de drenagem e aterramento de lagoas, brejos e poças, colocadas em prática nas primeiras décadas do século 20. Essas obras se estenderam por boa parte do século passado, em especial no Rio de Janeiro e no Nordeste do Brasil. Grandes extensões de áreas que abrigavam tais ambientes foram convertidas para diversos usos, como o agrícola, já que o solo rico em nutrientes que antes era o fundo das pequenas lagoas, brejos e poças propiciava alguns anos de boa produtividade. Não se sabe qual parcela da diversidade biológica foi perdida nesses ambientes, mas presume-se que ela seja grande. Além do impacto direto relacionado ao aterramento, a criação de canais entre corpos d’água distintos conectou poças, brejos e lagoas com diferentes características e composições de espécies, o que certamente gerou outro tipo de consequências graves. Juntam-se a esses efeitos os problemas decorrentes do lançamento de resíduos sólidos e esgotos sanitários sem qualquer tratamento, que modificam completamente as características desses ambientes.

A especulação imobiliária em regiões costeiras, o crescimento desordenado das cidades e a exploração de recursos minerais também têm promovido a destruição de poças e brejos, que infelizmente ainda são considerados ‘empecilhos ao desenvolvimento’ por parte da população. De forma geral, a sociedade não enxerga a importância biológica e ecológica desses pequenos ambientes para o conjunto de ecossistemas que suportam todo tipo de vida, inclusive a nossa, por meio de seus produtos e serviços. Podemos dizer que poças se assemelham a corações dispersos na paisagem, bombeando vida e, ao mesmo tempo, refletindo a força e as carências de grandes unidades ambientais, como a serra de Carajás ou a restinga de Jurubatiba.

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