Publicado por: Sama de Freitas Juliani | 3 de março de 2016

A educação ambiental na sociedade contemporânea.

     Em nossos trabalhos no Grupo de Pesquisa em Educação Ambiental e Educação em Ciências GPEAEC, coordenado pela professora Laísa Maria Freire dos Santos, nós buscamos investigar as relações entre a Educação Ambiental (EA) e a Educação em Ciências. Um dos temas mais recorrentes em nossos estudos e em nossas reuniões é a presença da EA na formação inicial de professores de ciências.  De forma mais específica nos interessa analisar como a EA vem sendo trabalhada e quais perspectivas, sentidos, vertentes ou correntes de EA contribuem na constituição dos discursos sobre EA desses futuros professores.

     E porque estudamos esse tema? Para entendermos isso, precisamos falar sobre a EA e sobre o atual momento de nossa sociedade.

     A EA é aqui entendida como um processo educativo emancipatório interessado em investigar a relação ser humano-natureza. Segundo Harvey (2011), nós temos uma longa história de destruição criativa sobre a Terra – as modificações no chamado “ambiente natural” decorrentes da atividade humana desde que começamos a povoar a Terra. De forma geral, não só os seres humanos, como a maior parte das espécies de seres vivos do planeta, modificam o meio em que vivem de alguma forma.

     Apesar de entendermos que essa destruição criativa é algo inerente da nossa espécie, nos últimos três séculos de ascensão do capitalismo nós temos presenciado um agravamento desse processo, onde as formas e demandas de transformação do meio ambiente tem se intensificado drasticamente gerando diversos problemas ambientais, sociais, políticos e econômicos.

     Assim, na fase atual da sociedade, que pode ser entendida como a radicalização ou aprofundamento de alguns preceitos da modernidade, como o progresso infinito e a expansão econômica associadas ao desenvolvimento científico/tecnológico, circula no imaginário social, a ideia de que ciência e tecnologia tem o poder de extinguir os riscos naturais, sociais e econômicos. Porém, o avanço do desenvolvimentismo e da modernização social criam sistemicamente problemas que tornam visíveis os riscos gerados pela própria vida moderna. Uma das causas para a continuação e o agravamento dos problemas socioambientais da atualidade é que as modificações que promovemos no meio ambiente não seguem as necessidades das pessoas, mas sim às imposições do mercado, de forma que a natureza passa a ser vista como empreendimento especulativo, como um produto a ser explorado economicamente.

      Diante disso, Leff (2010) afirma que as crises ambientais anunciam os limites do projeto de modernidade e, por isso, a solução deve partir do questionamento desse modelo de desenvolvimento e não da “gestão racional da natureza” (LEFF, 2010, p. 20).

   Assim, a EA tem sido considerada um importante instrumento para promoção de mudanças nos modos dominantes do pensamento moderno e no modelo de desenvolvimento econômico (CASTRO; SPAZZIANI; SANTOS, 2012), ao trazer uma compreensão das questões ambientais de forma mais complexa, incorporando os atores sociais participantes, explicitando os problemas estruturais de nossa sociedade e as causas das injustiças socioambientais.

      Porém, a EA é um campo heterogêneo, de forma que dependendo de como é entendida e trabalhada, a EA pode atuar tanto na reprodução do “cenário no qual nos movemos, de coisificação de tudo e de todos, de banalização da vida, de individualismo exacerbado e de dicotomização na compreensão do humano como natureza”(LOUREIRO, 2003, p. 40), como na transformação desse cenário buscando a “justiça social, o equilíbrio ecossistêmico e a indissociabilidade entre humanidade-natureza” (LOUREIRO, 2003, p. 40).

     Como forma de entender esses processos, alguns autores vêm buscando identificar quais são esses projetos educativos.  Como por exemplo, Lima e Layrargues (2014) que identificam três macrotendências político-pedagógicas disputando a hegemonia do campo da EA no Brasil: a conservacionista, a pragmática e a crítica. A vertente conservadora entende os problemas ambientais principalmente através do olhar da ciência ecologia, desprezando os aspectos sóciohistórico culturais. As práticas relacionadas a essa vertente são direcionadas a mudanças de comportamentos individuais em relação ao meio ambiente. Tal proposta de EA é considerada conservadora, portanto, porque não questiona a estrutura social vigente, apenas aponta mudanças pontuais de partes de um sistema extremamente complexo. A vertente pragmática é oriunda das correntes de educação para o desenvolvimento sustentável. Essa vertente preconiza uma melhor utilização dos recursos naturais de acordo com a lógica neoliberal de produção e consumo, sem considerar as consequências sociais da apropriação e exploração de determinados bens ambientais. Na prática essa EA sugere que os indivíduos sacrifiquem um pouco do seu padrão de conforto, exige uma maior responsabilidade das empresas em relação aos problemas ambientais, mas de forma similar à vertente conservadora não questiona a estrutura social vigente. A terceira vertente, a crítica busca “o enfrentamento político das desigualdades e da injustiça socioambiental” (LAYARARGUES & LIMA, 2011), apoiada em teorias do campo da sociologia, da política, da economia. Essa perspectiva entende que os problemas ambientais são oriundos da estrutura social e questiona a estrutura de acumulação do capital como forma de solucionar esses problemas.

    Assim, respondendo a pergunta que fizemos incialmente, torna-se importante investigar a presença da EA na formação inicial de professores de ciências e quais aspectos da EA são trabalhados, pois, no quadro atual de injustiças sociais e ambientais resultantes do processo histórico descrito acima, a EA em sua vertente crítica desponta como uma opção a esse discurso determinista, pois tem como objetivo questionar esse modelo de desenvolvimento em busca de sua transformação para formas mais justas de produção da vida social. 

 Esse texto é um resumo adaptado da análise da conjuntura da dissertação da autora

 
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