Publicado por: luciasanches | 22 de março de 2016

Somos muitos Rios.

 

Somos um Rio (de Janeiro) que possui mais de 250 rios e canais em sua área de extensão. As águas que abastecem estes corpos hídricos descem pelos diversos maciços que compõem o relevo da cidade e podem ir em direção: à Baía de Guanabara, diretamente ao oceano Atlântico, à Lagoa Rodrigo de Freitas, às lagoas da Baixada de Jacarepaguá e para as Baixadas de Guaratiba e de Santa Cruz, em direção à Baía de Sepetiba. Ou seja, além dos diversos cursos de água existentes, também muitas são as possibilidades de seus escoamentos. Eu confesso que tenho certa dificuldade em visualizar um número tão expressivo destes ecossistemas aquáticos em território carioca, mas cada um deles estão representados abaixo.

Mapa da Secretaria Municipal de Saneamento e Recursos Hídricos.

Segundo o arquiteto Marat Troina, do Instituto de Arquitetos do Brasil do Rio de Janeiro (IAB-RJ), quando o rio é visto como lugar de vida e prazer, ele é preservado; quando é visto como mau elemento, a tendência é esconder. Assim quem mora na cidade do Rio de Janeiro, provavelmente passa por diversos destes rios todos os dias, mas talvez assim como eu, não se dê conta de que eles estão ali, ou mesmo não os enxergue como um rio. Muitos dos rios da cidade do Rio, tiveram trechos canalizados, aterrados e retificados, tendo seus cursos naturais alterados pelo homem. Além disso a, engenharia brasileira disseminou o tamponamento de córregos com avenidas asfaltadas em cima. Em grande parte os rios são nada mais do que canais de esgoto e áreas de descarte de lixo, uma vez que na cidade ocorre a falta de rede de esgotos sanitários e coleta de lixo doméstico que acabam indo direto para estes ecossistemas. Afinal, segue a “lógica” de que o curso d’água tem o papel de levar para longe o que não queremos por perto. Esse conjunto de ações diminui ainda mais as características naturais das águas dos rios, e por consequência das lagoas e baías da cidade. Muitos destes rios são hoje vistos e denominados como valões ou valas que apresentam geralmente um leito estreito e pouco profundo. Assim se antes embelezavam a cidade, a maioria destes cursos d’água tiveram um destino nada natural.

Mas existem momentos em que estes rios que ora correm despercebidos pela cidade se tornam protagonistas de acontecimentos nada agradáveis da vida urbana. E foi pelo que constantemente ocorre de ano em ano na cidade do Rio de Janeiro quando temos “as águas de março fechando o verão” que este post se propôs a falar sobre os rios do Rio. No penúltimo sábado dia 12 de março, uma forte e demorada chuva provocou a ocorrência de diversos pontos de alagamentos na cidade do Rio de Janeiro. Casas, escolas, hospitais e diversos estabelecimentos comerciais foram invadidos pela água com as pessoas perdendo seus pertences. O Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (Cefet), localizado ao lado do Rio Maracanã, um dos mais importantes colégios federais de formação técnica e superior do país, foi invadido pela água e teve suas aulas suspensas por alguns dias. O exemplo do Cefet, foi apenas para dar destaque ao Rio Maracanã, o qual seu transbordamento, em parte, foi responsável pelo alagamento do colégio.

As inundações são uma consequência natural quando devido a um elevado volume de chuvas um rio não comporta uma grande entrada de água e…transborda. Na verdade, este transbordamento é apenas o rio passando a correr em seu leito maior que representa a área limite de suas margens para as quais as águas extravasam durante períodos de fortes chuvas.

Fonte: Mundo educação.

Nos centros urbanos, e como é o caso do Rio Maracanã, a canalização e retificação dos rios permitiu que suas áreas de inundação fossem ocupadas. Além disso a elevação do leito do rio é intensificada pela impermeabilização do solo e retirada da mata ciliar. Claro que para o processo de inundação também contribuem os sistemas ineficientes de captação de água, uma vez que sabe-se que o curso d’água retificado perderia muito de sua capacidade de aporte de água. Assim como o cúmulo de lixo jogado tanto nos rios quanto nas ruas obstruindo os mesmos sistemas de captação de água.

Fonte: Água, sua linda.

Tanto o fato dos nossos rios estarem mal conservados e muitas vezes “escondidos” aos nossos olhos, quanto o fato de estes se tornarem um transtorno quando suas águas surgem com toda a força, demonstram que nós não viemos ao longo do tempo cuidando deles da forma mais adequada. Se o início da ocupação urbana desordenada trouxe retificações e canalizações pouco ou mal pensadas, ainda hoje, contribuímos e muito para contínua deterioração destes cursos d’água despejando nestes esgoto doméstico e industrial e grandes quantidades de lixo. Desfazer certas ações como canalizações e retificações em ecossistemas que correm dentro de grandes centros urbanos é impossível devido a ocupação humana em torno destes. No entanto despoluir estes ecossistemas é possível sim, e encontramos casos pelo mundo de rios famosos que já foram despoluídos ou estão em processo de despoluição, alguns exemplos encontram-se neste link aqui.

Agora com o fim de março e das enchentes de verão, provavelmente, até o próximo ano esqueceremos novamente a presença de muitos deste rios tão maltratados que fazem parte de nossa cidade. Porém é urgente e necessário que possamos refletir sobre os problemas dos nossos rios e do nosso Rio durante todo o ano e não apenas quando estes problemas batem a nossa porta. Como disse o professor Reinaldo Bozelli em seu último post neste blog intitulado “Choveu no carnaval? – “Repetidamente pensar na água e manter viva nossa capacidade de refletir sobre hábitos e decisões que tomamos é uma forma eficaz de construir alternativas para lidar com este problema.” O professor Reinaldo falou sobre a falta de água, mas muitas de suas reflexões podem se estender ao tópico do presente post. Assim como aqui o exemplo foi a cidade do Rio de Janeiro mas o que ocorre nesta pode se estender a outras diversas cidades do nosso país. Uma reforma urbana, que inclua a questão dos corpos hídricos que correm em nossas cidades, se faz tão urgente quanto a reforma política e tributária do país (estas duas últimas muito discutidas nos últimos tempos). Principalmente se ainda levarmos em consideração a crise de saúde pública na qual nos encontramos causada pela infestação do mosquito Aedes aegypti  vetor dos vírus causadores da dengue, do zika e da febre chikungunya. Mas isso já é outro problema…ou não, afinal a proliferação do mosquito está intimamente relacionada a problemas com abastecimento de água e saneamento básico…mas sem dúvida é um longo papo para outras conversas.

Fonte: Água, sua linda.

Aproveitando o momento, hoje dia 22 de março foi instituído pela ONU (Organização das Nações Unidas) desde 1992 “O Dia Mundial da Água”, dia destinado a discussão sobre diversos temas relacionados a este importante bem natural.

 

Fontes

Água, sua linda – https://www.facebook.com/aguasualinda/?fref=ts

Geologia e hidrografia da cidade do Rio de Janeiro – http://www.educacaopublica.rj.gov.br/oficinas/geologia/hidrografia_rj/13.html

Mundo educação – http://mundoeducacao.bol.uol.com.br/geografia/enchentes.htm

Rios cariocas: entre o esquecimento e o futuro – http://oglobo.globo.com/rio/bairros/rios-cariocas-entre-esquecimento-o-futuro-15652879

 

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Responses

  1. […] publicação Somos muitos rios, a Lúcia Sanches ressalta as alterações realizadas em grande parte dos corpos hídricos que […]

  2. Muito bom esse texto e é justamente o que estou trabalhando com os meus alunos do 3º ano… indicarei a leitura a eles.


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