Publicado por: Laboratório de Limnologia/UFRJ | 1 de abril de 2016

A Caatinga, o aquecimento global e os satélites da Nasa

A Caatinga? Por que falar dela? Bem, apesar de ser constantemente ignorado, neste fevereiro de 2016, o bioma ganhou visibilidade internacional na revista Nature (Seddon, 2016). Isso porque entrou na lista dos ecossistemas mais sensíveis às mudanças climáticas no mundo, junto somente com outro bioma Brasileiro – a Amazônia.

Mas afinal, por que sabemos tão pouco desse pedaço tão grande do nosso país? Bom, muito do imaginário coletivo sobre este bioma é construído por referências escassas e negativas. São predominantes as imagens de deserto, seca, sol escaldante, da asa branca que fugiu do sertão, das balas de Lampião e do lamento sertanejo… mas será que num lugar tão grande, que é 11% do Brasil, onde há 27 milhões de pessoas, só esse cenário predomina de fato?

Não é bem assim. A Caatinga possui grande biodiversidade, com milhares de espécies de fauna e flora, muitos dos quais são endêmicos, ou seja: só existem lá! Apesar de ser um lugar com pouca chuva e muito sol (aliás, justamente por isso), é preenchida por ecossistemas e seres que estão adaptados a essas condições. Assim, ela tem uma enorme relevância ecológica, para conservação e para seu uso sustentável.

O tal trabalho publicado na Nature vem trazer à tona a importância ecológica desse bioma. No artigo, é proposto um novo método para avaliar a sensibilidade relativa dos ecossistemas à variação do clima – isto é, como cada região responde às mudanças climáticas que já vem ocorrendo. Com o satélite MODIS, da NASA, os cientistas foram capazes de comparar imagens do mundo inteiro nos últimos 14 anos, e analisar os índices de vegetação e três variáveis climáticas diferentes:

  • Temperatura do ar
  • Disponibilidade de água
  • Cobertura de nuvens

Essas três medidas climáticas foram utilizadas porque afetam diretamente a produtividade primária, ou seja, a fotossíntese e o crescimento vegetal.

O trabalho é inovador porque, ao invés de criar modelos teóricos das áreas que poderiam ser mais afetadas, ele utiliza dados de mudanças que já vem ocorrendo pelo menos desde o ano 2000. Analisando as imagens, foi desenvolvido o Índice de Sensibilidade da Vegetação, através do qual foi possível encontrar regiões ao redor do mundo que têm maior sensibilidade à variabilidade ambiental – lugares como a Tundra Ártica, florestas boreais, a Caatinga – dentre outros.

Mas o que esses lugares têm em comum? Por que eles são mais sensíveis do que outros? Cada ecossistema possui uma determinada resiliência, ou seja, uma capacidade de, após uma perturbação, voltar a ser como sempre foi. Quando esta perturbação é intensa e/ou muito longa, essa capacidade de retorno pode ser tão reduzida que o sistema ultrapassa um limite e entra em um estado alternativo. Isso se aplica, por exemplo, àquelas regiões que foram classificadas como mais sensíveis. A tundra Ártica e a Caatinga são dois extremos tão diferentes, mas ambas vivem muito próximas dos seus limites ambientais críticos, e são cada vez mais sensíveis à pressão externa. Em outras palavras, estes sistemas têm respostas amplificadas ao distúrbio e são mais sensíveis à variabilidade ambiental. As mudanças climáticas, portanto, terão grandes efeitos nesses lugares.

No caso da Caatinga, a (ainda mais) baixa disponibilidade de água seria a variável climática de maior impacto em cenários futuros. Em estudos sobre o efeito das mudanças climáticas no bioma, é sugerido que os períodos de seca serão mais longos, e a chuva, quando vier, será mais curta e intensa. Isto agrava a situação da Caatinga, já que a região tem solo raso, de baixa retenção de umidade, e árvores que passam meses sem folhas – que também tem um papel fundamental de reter água do sistema. Assim, a entrada de água de forma ainda mais rara e fugaz provocará fortes impactos nesse ecossistema, que já vive nos seus limites críticos de sol e seca.

Para não ficarmos pessimistas, podemos dizer que é sim possível desenhar algumas formas de lidar com tantas questões para este bioma que é, afinal, tão importante. Podem ser feitos estudos mais aprofundados da ecologia das Caatingas – medir as respostas ecológicas, fazer levantamento de dados. É importante entender os processos e dinâmicas que causam certos padrões do bioma, e com isso podermos desenvolver ferramentas de manejo ambiental, ações socioambientais e políticas públicas para que esse nosso precioso bioma continue sendo exuberante na sua forma tão particular.

Autores: Adriana Allek, Amanda Santos, Iamê de Sá, Luísa Genes, Luiza Saturnino, Rafael Ferreira, Raquel de Moura e Tomaz Cezimbra.


 

Este texto de divulgação científica foi produzido por alunos da Disciplina Ecossistemologia (IBE485) do Curso de Ciências Biológicas da UFRJ, como parte dos requesitos para a conclusão da mesma. Todas as informações contidas no texto são de responsabilidade dos autores. O Laboratório de Limnologia da UFRJ não se responsabiliza pelas informações dispostas neste texto.

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