Publicado por: Laboratório de Limnologia/UFRJ | 7 de abril de 2016

A culpa do jacaré

Captura de Tela 2016-04-07 às 19.03.42

Uma das atividades mais comuns no Pantanal é a pesca. Pantaneiros dependem dela para alimentação, e pessoas chegam de várias partes do país para o privilégio de pescar nas águas do grande Rio Paraguai. Imagine então que um belo dia esses pescadores saem com sua vara de pescar, sem conseguir quase nada. E isto se repete por mais um dia, uma semana, um mês… então rapidamente, dedos começam a ser apontados – de quem é a culpa do sumiço dos peixes?

“Ora”, os pescadores diriam, “É claro que é culpa dos jacarés! Vejam só como eles descansam à beira do rio, às centenas, se esquentando no sol. Quantas toneladas de peixe todos eles juntos podem comer?”.

A culpa é do jacaré, esse assassino em série de peixes, cheio de dentes. Fim da história.

Se você já viu algum filme de mistério, sabe que essa história está muito estranha. O jacaré é um vilão muito conveniente, pois parece culpado demais com aquele seu sorriso reptiliano. Talvez não devêssemos investigar mais a fundo?

Vamos começar pela vítima – os peixes. Imagine que você é um peixe, nadando em uma área alagada. Essa área verá algumas mudanças durante o ano, passando por basicamente quatro estações: enchente, cheia, vazante e seca.

Durante a seca, um peixe tem espaço um pouco limitado para nadar e ficará cansado de ver as mesmas caras de peixe por um tempo. Essa época dura até outubro, quando começa a época da enchente, com muita chuva. Toda essa água tem dificuldade de escoar no Pantanal, já que o solo é duro e a inclinação do terreno é pequena, além de ser cercado por áreas mais elevadas de planalto. Os rios sobem e, mais ou menos em dezembro, você está na estação das cheias, no meio de uma grande área alagada. Quando as chuvas param e essa água toda finalmente sai do Pantanal, ao escoar pelos rios, é a estação da vazante.

Essas mudanças podem fazer você pensar que o clima no Pantanal é muito instável, talvez graças à previsão do tempo no jornal que gosta de chamar dias com possibilidade de chuva de “tempo instável” – mas a grande diferença entre as estações não quer dizer que o clima mude o tempo todo. O que ocorre é um grande ciclo bem definido, onde as águas vêm e vão.

Captura de Tela 2016-04-07 às 19.03.47.png

Enfim, você, o peixe, irá cumprir seu destino e voltar para sua nascente de origem para colocar seus ovos, um período chamado piracema (em tupi-guarani, pirá é peixe e sema é saída) que acontece na época da cheia. Você se prepara para subir o rio, mas se depara com uma gigantesca parede.

Esta parede é a barragem de uma hidrelétrica.

Existem várias barragens pequenas e grandes localizadas em rios do Pantanal. Uma barragem já é ruim o suficiente porque bloqueia possíveis alimentos e também sedimentos que descem ao longo do rio – imagine várias delas no mesmo rio! Ao criar obstáculos para a desova, a população de peixes começa a diminuir. Isto mesmo com a proibição de pesca durante a piracema.

Os pescadores não são apenas os afetados pela diminuição do número de peixes. Muitas plantas também dependem deles para dispersar suas sementes, como a taiuiá, que também é chamada de “pepino-de-peixe”.

E o jacaré? Ele, antes visto como vilão, teria também seu papel?

Captura de Tela 2016-04-07 às 19.03.50.png

Os jacarés regulam a população de um peixe bem perigoso: as piranhas. Piranhas são bem agressivas e possuem dentes afiados, causando problemas para os pantaneiros e outros animais. Além disso, os jacarés colaboram com a disponibilidade de nutrientes para outros organismos, através da reciclagem de nutrientes. Isto é, a eliminação dos nutrientes que ele come, de forma concentrada, no ambiente (sim, isso mesmo que você está pensando!).

Só é preciso olhar um pouco mais a fundo para perceber como as relações entre os organismos do Pantanal são interligadas. Com uma grande área intocada – e, portanto menos conhecida que outros biomas do Brasil – existem uma quantidade de interações que não foram descobertas ainda. Quando se mexe uma peça, o impacto não necessariamente é visto de forma óbvia.

Uma barragem no meio do caminho atrapalha os peixes e diminui a área que é alagada. Estes fatores aliados à pesca predatória e ao aumento da temperatura média, graças ao nosso velho amigo aquecimento global, torna a situação ainda mais delicada e não é só para a população de peixes, mas também dos jacarés que ficam sem comida, das plantas que ficam sem transporte das suas sementes, das pessoas que dependem da água do rio e da pesca para se manterem… Dessa forma, é importante perceber que não adianta só proteger uma parte e deixar o resto de lado.

Por fim, após investigar mais a fundo, percebemos que nem tudo o que parece. O jacaré não é o vilão que se pensava, e a situação dos peixes possui vários culpados. O júri chega a uma conclusão: o jacaré está inocentado, livre para tomar sol onde bem entender e aproveitar as belezas de sua casa, no coração do Pantanal.

Autores: Bianca Ortolan, Gisele Lyra, Gustavo Menezes, Isabelle Pepe, Jaqueline Cruz, Luiza Melki e Rafael Lira.


Este texto de divulgação científica foi produzido por alunos da Disciplina Ecossistemologia (IBE485) do Curso de Ciências Biológicas da UFRJ, como parte dos requesitos para a conclusão da mesma. Todas as informações contidas no texto são de responsabilidade dos autores. O Laboratório de Limnologia da UFRJ não se responsabiliza pelas informações dispostas neste texto.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Categorias

%d blogueiros gostam disto: