Publicado por: Nicholas Marino | 20 de maio de 2016

Vamos falar sobre: Qual a sensibilidade das espécies às mudanças climáticas?

“Vamos falar sobre” é uma seção do blog do Laboratório de Limnologia/UFRJ onde vamos apresentar, de forma “traduzida”, os resultados de algum trabalho científico publicado recentemente.


Essa semana: García-Robledo et al, 2016, PNAS, Limited tolerance by insects to high temperatures across tropical elevational gradients and the implications of global warming for extinction


 

Que as mudanças climáticas estão afetando diversos aspectos do nosso cotidiano, isto já vimos ou ouvimos por aí. Para a ecologia, as mudanças climáticas também são um desafio para os ecossistemas, comunidades, populações e espécies. Nesse sentido,  temos buscado compreender quais os ecossistemas mais sensíveis à estas mudanças, e temos tentado identificar aquelas espécies que possivelmente estarão mais ameaçadas com a mudança clima.

Alguns ecólogos trabalham com a projeção das áreas em que as espécies devem ocupar sob as novas condições climáticas. Isto é feito com base na sensibilidade conhecida destas espécies ao clima. Mas você já se perguntou como medir a sensibilidade de uma espécie às mudanças climáticas? Ou então, como varia a sensibilidade das espécies ao clima? Perguntas como esta fazem parte de um ramo da ecologia conhecida como “Ecologia Termal”, que busca compreender o efeito da temperatura na fisiologia, ecologia e evolução das espécies.

Todos nós, quando subimos uma serra, notamos a diferença na temperatura: quanto mais alto estamos, menor tende a ser a temperatura. Neste contexto, em um estudo recente, García-Robledo et al buscaram compreender (1) como a sensibilidade de algumas espécies de besouro variam ao longo das encostas de montanhas, e (2) se podemos usar o conhecimento dessa sensibilidade para prever a faixa de altitude que estas espécies ocupam. Nesse caso, a ideia é que haja um alinhamento entre as temperaturas máxima que uma espécie pode suportar e o seu local de ocorrência, de forma que espécies que ocorram nas regiões mais altas (e, portanto, mais frias) tem menor tolerância à elevação de temperatura, enquanto as espécies que vivem na região mais baixa possuam maior tolerância à elevação de temperatura.

Para determinar esta tolerância à temperatura, estes autores (assim como muitos outros) expõem alguns indivíduos destas espécies à diferente temperaturas. Para cada indivíduo de cada espécie, eles registram a temperatura máxima na qual aquele indivíduo teve sua coordenação motora comprometida – esta temperatura é conhecida como temperatura crítica máxima (CTmax). Estes autores então determinam estes valores para diversos indivíduos de diferentes espécies, e também para populações de espécies que ocupavam diferentes faixas de altitude.

O que estes autores encontraram foi que, conforme esperado, a faixa de altitude em que uma espécie ocorre está diretamente relacionada com o seu CTmax: quanto maior o CTmax da espécie, mais abaixo da encosta esta sua área de ocorrência (variação interespecífica). E não para aí – eles também encontraram que (1) espécies que sejam filogeneticamente próximas não possuem semelhança em seus valores de CTmax e que (2) populações de mesma espécie que ocupam faixas de altitude distintas também possuíram faixas de CTmax distintas (variação intraespecífica).

Estes resultados ilustram que nem toda espécie vai ser sensível às mudanças climáticas e, mesmo dentro da mesma espécie, existe variabilidade em sua sensibilidade às mudanças climáticas. Embora algumas populações não possam persistir sob os novos climas, outras populações podem atuar como uma espécie de “seguro”, fornecendo a variabilidade necessária para a persistência da espécie.

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