Publicado por: Joseph Ferro | 8 de setembro de 2016

Os monastérios acadêmicos

Certa vez ouvi uma comparação entre a academia e os monastérios budistas do Tibet. Grande parte dos monastérios, templos e igrejas residem em lugares altos e de difícil acesso. Isso remonta a alguns princípios religiosos como, por exemplo, o fato dos seguidores de certos dogmas acreditarem que o caminho para o crescimento e evolução espirituais se dá por caminhos não tão simples, que requer esforço para lidar com uma série de abdicações e autonegações. Tomando os monastérios budistas como exemplo, o fato de estarem sobre verdadeiras fortificações naturais mantém os monastérios a salvo de quaisquer tipos de invasão, gerando maior segurança aos seus cidadãos.

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Monastério Suspenso, Monte Hengshan (Província de Shanxi)

 

Um dos fatores mais importantes é o fato de que a distância entre o povo sacro e a população ajuda a manter intactos os ensinamentos mais secretos de determinada religião. Grande parte dos grupos religiosos acredita que o conhecimento recebido e adquirido sobre a vida, espiritualidade e suas divindades são muito preciosos e lutavam para com que não houvesse perda ou deturpação desse conhecimento. Acreditam, ainda, que a população leiga pode não conseguir entender os preceitos mais profundos e misteriosos da religião. O mesmo acontecia com o povo israelita, onde somente uma das doze tribo era designada para o serviço religioso (a tribo de Levi) e dentro desta tribo, somente uma família poderia se encarregar do serviço sacerdotal (A família de Arão). Tudo isso tinha apenas uma finalidade: Guardar e proteger o conhecimento.

Com o passar dos anos e o crescimento das populações, a distância entre o povo leigo e o povo sacro diminuiu, contudo sempre houve a preocupação de se guardar o conhecimento. Alguns mestres espirituais ensinavam à população leiga alguns princípios religiosos (conhecimento exotérico), mas era a um grupo seleto de discípulos que os verdadeiros ensinamentos eram passados (conhecimento esotérico). Por exemplo, certos ensinamentos eram velados em forma de parábolas, mas a explicação das palavras era reservada a poucas pessoas. Sendo assim, mesmo não havendo uma distância física entre o povo e odiscipulado, havia uma distância de acesso ao conhecimento.

Não quero nessa postagem levantar a dicotomia entre ciência e religião, mas quero destacar que sempre houve uma parcela da população que acredita possuir um conhecimento mais elevado e, por isso tendem a manter guardados somente para as poucas pessoas pertencentes a este mesmo ciclo aquilo que eles consideram importantes. Acredito que a academia herdou um pouco dessa característica, um dos fatores mais evidentes disto é que a linguagem que utilizamos está muito aquém da linguagem utilizada pela maior parte da população. Nossos textos não são de ampla divulgação. Poucas iniciativas existem para levar o conhecimento adquirido na academia para as comunidades que estão entorno da mesma. Muito se têm falado nos projetos de extensão, mas poucos cientistas realmente realizam trabalhos voltados para este âmbito.

Em minha opinião, uma das maneiras mais eficientes de diminuir a distância entre o conhecimento gerado na academia e a população não-acadêmica é promovendo a integração entre pesquisadores e professores do ensino básico e médio. Tive a oportunidade de participar de um projeto com esse objetivo e percebi que a troca de informações entre pesquisadores e professores pode ser muito enriquecedora para ambas as partes. Para os professores, porque podemos dar um feedback mais preciso e atualizado do estado da arte de nossos campos de pesquisa e para os pesquisadores, pois o contato com outras realidades pode auxiliar a enxergar outras problemáticas, ou até as mesmas observadas por outro prisma, gerando discussões enriquecedoras e mais aplicadas dos seus resultados.

Participando de um curso de formação continuada percebi que a maneira como eu enxergo a dinâmica e as limitações de uma sala de aula está muito defasada, comparando-se com as experiências e as vivências dos professores. Diversos detalhes que nem passam pela minha cabeça, são vistas e analisadas pelos docentes no momento de prepararem a sua sequência didática. O interesse do aluno, aplicação do tema no cotidiano do aluno, a disponibilidade de recursos da escola são pontos que os professores avaliam ao reunir um conteúdo para ser transmitido. Sendo assim, a aproximação entre pesquisadores e professores pode favorecer uma via mais interessante para que o conhecimento produzido na academia flua e alcance a todos.

É interessante salientar que essa aproximação entre pesquisadores e professores são vias de mão dupla. Pesquisadores podem e devem aprender com a realidade dos professores. É necessário adquirir uma conduta de humildade para entender que a academia não é a única fonte capaz de produzir conhecimento. O contato com os diferentes saberes e as diferentes realidades pode promover uma expansão da realidade do próprio pesquisador.

Sendo assim, acredito que a academia precisa, cada vez mais, se distanciar do modelo de academia monastério, tornando mais próximo da parte da população não acadêmica, promovendo um conhecimento, por ela gerado, disponível e acessível a todos.

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