Publicado por: Nicholas Marino | 17 de novembro de 2016

COMO AS PRESAS DETECTAM SEUS PREDADORES?

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Assim como para nós, seres humanos, o medo pode ser uma força muito importante governando a dinâmica dos sistemas naturais. Por algum tempo, vários estudos têm tentando compreender o efeito do medo na dinâmica entre predadores e suas presas, de forma que é muito claro que o risco de ser morto por um predador é tão ou mais importante do que ser morto em si.

Em vários estudos, os cientistas tentam determinar como as presas detectam este risco. Existem múltiplas pistas que fornecem a informação de algo perigoso, como um predador, pode estar por perto, como sinais visuais e químicos – como o próprio cheiro do predador. Assim, vários e vários estudos usam estes sinais para tentar entender as consequências do risco de predação na dinâmica dos sistemas naturais. No entanto, parece haver um forte viés em utilizar os sinais químicos, seja na forma do cheiro do predador ou ainda no odor de presas mortas. Apesar de ser uma abordagem super válida, eu particularmente acredito que isso subestima o efeito de um predador, e que o ‘cheiro’ não deve ser o principal agente para comunicar este risco. Afinal, se você der de cara com um bicho perigoso eu não acredito que você vai querer cheirar ele antes de saber se ele pode te fazer mal!

Foi pensando um pouco nisso que eu fiz um dos trabalhos do meu doutorado, cujo objetivo maior era tentar entender como a predação propriamente dita e o risco de predação podem afetar a estrutura e o funcionamento de cadeias tróficas. Neste trabalho, especificamente, eu tentei determinar se o risco de predação era importante na cadeia trófica que eu estudaria e, sendo importante, quais eram os seus efeitos. Esta abordagem em duas etapas é algo que eu particularmente gosto e acredito que deveria ser feita com mais frequência. Não se trata de repetir algo que já foi feito em outro lugar, mas saber se o seu sistema-modelo pode ser usado para responder a uma pergunta ou se essa pergunta deve ser respondida com outro modelo. Muitas vezes, acredito que tomamos certos pressupostos sem testa-los, o que pode acabar sendo perigoso para o progresso de um tópico.

No meu caso, eu sabia que o risco de predação poderia ser importante para a cadeia trófica encontrada no ecossistema aquático das bromélias-tanque, conforme demonstrado por alguns trabalhos na Costa Rica, mas não sabia o quanto isto poderia ser importante no meu local de estudo. Além disso, eu precisava saber como as presas nesta cadeia trófica detectavam a presença do predador. Isto é, será que o predador precisava mesmo estar se alimentando para comunicar as presas que ele estava ali, ativo e perigoso? Era importante determinar a resposta para esta última pergunta, pois eu faria um outro experimento no qual alimentar ou não o predador (e com que frequência ao longo do tempo) poderia ser importante para induzir as respostas ao risco de predação.

Antes de avançar, deixa eu te contar um pouco dessa cadeia trófica bromelícola. Normalmente, ela tem um predador de topo, uma ninfa de Odonata. Ela é bem voraz e come quase todos os outros macroinvertebrados aquáticos que estão dentro da bromélia (principalmente as larvas de mosquito). Esta cadeia trófica é baseada também na decomposição do detrito, onde tanto esses macroorganismos quanto microorganismos, como bactérias, atuam. A ideia é que o consumo do detrito pelos macroorganismos acaba afetando negativamente as bactérias, tanto por reduzir a quantidade de recurso disponível quanto pelo consumo passivo destes microorganismos junto do detrito. Portanto, poderia haver um tipo de cascata trófica da ninfa de Odonata para as bactérias, através dos macroinvertebrados.

Assim, para testar se e como o risco de predação afeta esta cadeia trófica, eu coloquei uma ninfa de Odonata dentro de algumas pequenas jaulas e incubei essa jaula dentro de algumas bromélias. Parte dessas ninfas foram alimentadas durante o experimento, outra parte não comeu nada. Além disso, eu coloquei algumas jaulas vazias em outras bromélias, para considerar o efeito da jaula no que quer que eu fosse observar.

Depois de um tempo, eu esvaziei as plantas, coletei os macroinvertebrados, medi a biomassa bacteriana e avaliei quanto nitrogênio que estava armazenado no detrito a planta havia conseguido absorver. Esse nitrogênio estava inerte no detrito, e só conseguiria ser liberado para a planta através do consumo pelas bactérias e pelos macroinvertebrados. Entre estes dois grupos de organismos, os macroinvertebrados tem a tendência de captar este nitrogênio e não torná-lo disponível para a planta. Por outro lado, as bactérias atuariam reciclando e disponibilizando este elemento para as plantas.

O que eu observei foi que a presença da ninfa de Odonata é, de fato, capaz de induzir uma cascata trófica: apesar de estar enjaula e sem contato com nenhuma presa, ela reduziu a biomassa dos macroinvertebrados aquáticos, aumentou a biomassa bacteriana e também a captação de nitrogênio pela planta. O mais importante (e legal) é que tudo isso aconteceu mesmo na condição em que a ninfa de Odonata não se alimentou durante o experimento.

Com este trabalho, eu aprendi que eu poderia fazer perguntas sobre o risco de predação no meu local de estudo, e que eu não precisava fazer nada para que a própria ninfa de Odonata já passasse a mensagem do quão perigosa ela era para as suas presas. Isto me ajudou bastante a entender os resultados de um outro experimento que fiz, mas o qual falarei em outro post.

O trabalho completo está em:

Marino, N. A. C., Srivastava, D. S. and Farjalla, V. F. (2016), Predator kairomones change food web structure and function, regardless of cues from consumed prey. Oikos, 125: 1017–1026. doi: 10.1111/oik.02664

E pode ser acessado em:

http://onlinelibrary.wiley.com/wol1/doi/10.1111/oik.02664/full

Se você quiser saber mais, é só deixar uma mensagem aqui no blog ou me escrever.

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