Publicado por: bethpasin | 8 de dezembro de 2016

O que nos contam os discursos de professores de uma licenciatura acerca da formação de professores de Biologia para a Educação Ambiental?

Minha tese de doutorado, que vem sendo desenvolvida sob a orientação do professor Dr. Reinaldo Luiz Bozelli, no Programa de Pós-Graduação em Ecologia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), tem a ver com questões que vivencio e enfrento como professora, por isso começo aqui contando um pouco da minha trajetória. Sou licenciada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e comecei a lecionar em escolas em 1998, dois meses após ter colado o grau.

Escolhi ser professora quando estava no 5o período do curso e reafirmo minha escolha todos os anos desde então… Já fui professora efetiva na rede estadual e municipal do Rio de Janeiro, trabalhei por um tempo numa escola particular e, em 2005, entrei para o quadro permanente do Colégio Pedro II. Fiz especialização em Ensino de Ciências e mestrado na área de Educação em Biociências ao mesmo tempo em que eu trabalhava, o que marcou as escolhas que fiz sobre o quê pesquisar. O mesmo se deu quando optei por desenvolver uma tese de doutorado que trata da formação inicial de professores de Ciências e Biologia para a Educação Ambiental (que doravante chamarei de EA). Vale destacar que a escolha dessa temática também foi influenciada pelo fato de eu ter sido bolsista de Iniciação Científica no Laboratório de Limnologia, onde participei de um projeto de recuperação e preservação de lagoas costeiras em Macaé. Meus percursos culminaram na sensação de que era necessário me aprofundar no estudo de uma das questões que considero mais relevantes atualmente: a crise ambiental, bem como as potencialidades da escola como espaço privilegiado para fomentar reflexões críticas sobre a mesma.

Como professora de Ciências e Biologia – com uma grande “queda” pela Ecologia – sempre busquei tratar das questões ambientais nas minhas aulas, ainda que elas não estivessem explicitamente incluídas no conteúdo curricular previsto. Também percebo que a minha visão de ensino faz com que eu frequentemente trate de temáticas que toquem o cotidiano dos alunos. Mas posso afirmar, com segurança, que muitos dos meus colegas de profissão também o fazem, pois os professores de Ciências e Biologia são os que mais frequentemente se envolvem nas discussões relacionadas a meio ambiente e, consequentemente, em EA no espaço escolar. Respaldo essa afirmação na minha experiência profissional e em pesquisas, tais como a intitulada “O que fazem as escolas que dizem que fazem Educação Ambiental?”, efetuada pelo MEC e com abrangência nacional  (MEC, 2006).

De fato, debates sobre as questões ambientais vêm progressivamente ganhando destaque nas agendas educacionais de diversos países desde a década de 1960, momento histórico em que o movimento ambientalista emergiu de fato, com a fundação do Clube de Roma. Tanto em termos de implementação de uma legislação específica para EA e para a formação de educadores ambientais, quanto em termos de criação de programas de pós-graduação com dimensão ambiental, o Brasil é considerado um país pioneiro no âmbito da América Latina. Porém, a despeito de a legislação educacional brasileira vir progressivamente dando mais destaque à Educação Ambiental (EA) – que é considerada como componente obrigatório em todos os níveis de ensino desde a Lei 9795/1999 – e do ambiente escolar se constituir em um espaço extremamente privilegiado para o desenvolvimento da mesma, os currículos escolares habitualmente trabalham essa temática de forma superficial, pontual e fragmentada, focando primordialmente nos aspectos ecológicos e biológicos da EA. Estudos recentes envolvendo cursos de licenciatura em Ciências Biológicas também têm diagnosticado entre os licenciandos sentidos de EA restritos à conservação e/ou até mesmo a EA interpretada como ensino de conceitos da ciência Ecologia. Porém, de acordo com a legislação educacional mais recente, a EA deve incluir aspectos sociais, políticos, históricos e culturais, além dos ecológicos.

Diante desse panorama, a pergunta que orientou minha tese de doutorado (com defesa prevista para fevereiro) foi: Como tem se configurado a formação inicial dos professores de Ciências e Biologia em relação à EA, dado que esses profissionais são considerados elementos-chave na execução da EA escolar? Essa pergunta se desdobrou em outras: Quais os fatores que atuam sobre a constituição de sentidos sobre EA pelos licenciandos? Que aspectos da cultura universitária, tais como documentos legislativos, espaços formativos, discursos de diferentes atores sociais influenciam os discursos dos futuros professores?

Os meus dados compreenderam a análise de documentos legislativos, a ementa e os conteúdos das disciplinas da matriz curricular da licenciatura em Ciências Biológicas da UFJF, além da análise das respostas de licenciandos e de professores das escolas nas quais os mesmos faziam estágio a um questionário semiestruturado. Adicionalmente, professores universitários do curso que foram apontados pelos licenciandos como trabalhando conceitos ou realizando práticas em EA foram entrevistados. Adotamos contribuições do referencial teórico-metodológico da Análise de Discurso francesa, entendendo que os discursos dos licenciandos não se originam simplesmente de cada um isoladamente, discursos relacionam-se com outros discursos.

Os resultados indicaram uma supremacia de discursos nos quais os sentidos de EA se restringem à conservação ou à preservação, incluindo alguns discursos que revelaram uma confusão entre os objetivos da EA e do ensino de ecologia. Nos três grupos de participantes, poucos associaram a EA a questões socioeconômicas e culturais.

Há muitos dados interessantes, que pretendo tratar em outras oportunidades. Nesse post, vou escrever um pouco mais detalhadamente sobre os resultados relacionados aos professores universitários. No trabalho que eu e meu orientador, o professor Dr. Reinaldo Bozelli, publicamos nos anais do IV Simpósio Internacional sobre Análise de Discurso (IV SIAD), nós procedemos a uma análise sobre as ementas e conteúdos das duas disciplinas mais indicadas pelos licenciandos como realizando ações e/ou discussões em EA e também analisamos os discursos dos professores universitários que as ministraram. As duas disciplinas foram: “Ecologia de Populações e Comunidades” (de responsabilidade do Instituto de Ciências Biológicas) e “Ensino de Ciências II com Prática Escolar” (de responsabilidade da Faculdade de Educação).

Nossa análise revelou diferenças marcadas nos sentidos de EA expressos nas ementas e conteúdos das duas disciplinas mais relacionadas pelos licenciandos à EA e também nos discursos elaborados pelos professores universitários que as ministravam. A heterogeneidade de sentidos é característica do campo da EA e se revelou nos discursos dos professores participantes, que apresentaram sentidos diversos e por vezes antagônicos entre si.

Através dessa investigação, inferimos que os sentidos elaborados sobre a EA se relacionam bastante à formação profissional e à atuação no curso por parte de cada professor. Somente os professores que indicaram contato na sua formação (principalmente na continuada) com discursos sobre EA não restritos à Conservação e apresentaram trajetória profissional na área de Ensino/Educação formularam discursos com sentidos de EA com referência sociocultural e/ou com sentidos filosóficos. Isso foi observado nos discursos dos professores da disciplina “Ensino de Ciências II com Prática Escolar”, ao contrário dos professores que lecionavam a disciplina de Ecologia, cujos sentidos se relacionaram predominantemente aos aspectos biológicos da EA. Nas ementas e conteúdos das disciplinas essa polarização também foi observada.

Não tivemos como propósito estabelecer juízo de valores ou negar que a pluralidade de perspectivas em EA pode ser construtiva. Porém, considerando que na matriz curricular dos cursos de Licenciatura em Ciências Biológicas há predominância de carga horária dedicada à formação específica em detrimento da formação pedagógica, acreditamos que é necessário refletir sobre o peso dos diferentes discursos na constituição das memórias discursivas dos licenciandos. Uma interação mais aprofundada e regular na sua formação inicial com discursos que não se restrinjam a aspectos biológicos e que tratem não apenas da conservação da natureza favoreceria a constituição de sentidos de EA mais abrangentes e socialmente referenciados, impactando a EA escolar.

Caso você se interesse em conhecer um pouco mais sobre esse trabalho, acesse a publicação nos anais do IV SIAD:

http://media.wix.com/ugd/0bea23_75289983bfc44fd89c1864ad28791c53.pdf

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