Publicado por: Laboratório de Limnologia/UFRJ | 14 de janeiro de 2017

Importância da conservação do Cerrado na matriz energética do Brasil

Quanta água você precisa para iluminar sua casa? A pergunta é essa mesmo: quanta água você precisa para iluminar a sua casa?

      Mas o que isso tem a ver com a água se não tem água na lâmpada? Garanto que tem relação, siga na história. É no caminho que a gente aprende, e não no fim (Na verdade, a resposta está no fim. Porém, sem ler o texto, não fará tanto sentido). Uma lâmpada acesa tem um fio que nela toca, trazendo a eletricidade. É muito provável que, se você seguir o caminho de qualquer cabo de eletricidade, acabe chegando a uma Usina Hidrelétrica. O Brasil é o país com maior potencial hídrico do mundo e é das hidrelétricas que vem a maior parte de nossa energia elétrica.

      Hidrelétrica. Uma palavra chata, filha de duas mais simples: Hidro e Elétrica. Já está vendo uma relação? Água, Hidro. Iluminar, Elétrica. Então. Uma Usina Hidrelétrica produz eletricidade a partir de água. Nela, a água que vem pelo rio empurra uma turbina fazendo-a girar, produzindo uma força que vai ser recebida pelo gerador e por ele será transformada em eletricidade.

     “Quanta água você precisa para iluminar sua casa?” Talvez essa pergunta faça mais sentido agora. Com essa noção de como funciona uma hidrelétrica, torna-se intuitivo que, se não tiver água para rodar as turbinas, não será produzida eletricidade. Talvez menos intuitivo seja que, se houver água, mas não for tanta quanto era no passado, haverá menos eletricidade sendo produzida no presente.

      Impostos à parte, o preço da conta de luz depende da quantidade de água no rio. Quando há pouca água fica mais difícil produzir eletricidade. Para evitar que as pessoas usem mais eletricidade do que é possível produzir, as concessionárias de energia aumentam o preço da energia. Ou seja, se tiver pouca água na hidrelétrica, você irá pagar mais para consumir a mesma quantidade de energia do que quando há muita água.

      As principais Usinas Hidrelétricas do Brasil estão em rios que têm nascentes no Cerrado. Se a quantidade de água nestes rios é tão importante para o preço da conta, então o que fazem eles terem menos ou mais água? A resposta mais óbvia é a chuva, e está correta para a maioria dos rios (O Rio Amazonas, por exemplo, também recebe água de gelo que derrete lá nas Cordilheiras dos Andes), mas também não é tão simples.

    Quando a chuva cai em morros e montanhas, a água irá escorrer até a parte mais baixa, se juntando para formar rios e lagos nestas áreas. Se, a cada chuva, toda água escorresse de uma vez só, os rios deveriam ficar sumindo e voltando conforme as chuvas vão e vem. Felizmente, a realidade é outra.

     Você já notou o que acontece com a água quando ela cai na terra ou na areia? Ela entra. A terra age como se fosse uma esponja, puxando a água pra ela! Por causa disso, a água da chuva não escorre toda de uma vez. O que é absorvido escorre mais devagar, por debaixo da terra, e vai sendo liberado aos poucos, fazendo com que os rios durem mais. Quanto mais o chão absorve, mais tempo um rio irá durar, e mais estável será a quantidade de água dele.

      Quanto mais inclinado um terreno, menos água irá absorver, porque a água escorrerá mais rápido. O inverso acontece num terreno pouco inclinado: a água escorrerá mais lentamente e será mais absorvida. Contudo, o quanto um terreno é inclinado não é a única coisa responsável pela velocidade que a água escoa.Imagine um terreno inclinado qualquer. Onde a água vai escorrer mais rápido: onde o chão for “careca”, ou seja, não tiver nenhum obstáculo, ou onde tiver todo tipo de plantas no caminho?

      Toda vez que a água da chuva encontra uma planta no seu caminho, ela bate e freia, perdendo velocidade. Ou seja, em uma área com vegetação, mais água é absorvida pelo solo do que em uma área igual sem vegetação porque há menos escoamento! A vegetação também desacelera a água de outra maneira muito importante: quando a chuva que cai bate nas folhas, a água perde velocidade e já chega mais devagar ao solo. As folhas das plantas tornam a mata um imenso guarda-chuva.

   Assim, quando há vegetação onde a chuva cai, o escoamento de água será mais lento, tanto em lugares inclinados quanto planos. Desse modo, há mais absorção de água pelo solo. A mata, então, é uma coisa que, quando presente, ajuda a manter a quantidade de água dos rios estável. Neste caso, havendo mais vegetação, haverá também mais água para a produção de energia, o que barateia a conta de luz.

    Hoje, no entanto, há muito desmatamento ocorrendo no Cerrado pela mudança no uso do solo; diversas atividades como: extração de madeira, monoculturas de soja, de cana-de-açúcar e a pecuária têm contribuído para remoção da cobertura vegetal e diminuição do potencial hídrico do Cerrado. Quando tiram a mata, o solo fica “careca” e a água será menos absorvida pelo solo. O desmatamento afeta a quantidade e qualidade de água em algumas das principais hidrelétricas do Brasil, como a de Itaipu (Rio Paraná), de Tucuruí (Rio Tocantins), de Ilha Solteira (Rio Paraná), de Xingó (Rio São Francisco), de Itambiara (Rio Paranaíba) e Paulo Afonso IV (Rio São Francisco). A diminuição no volume de água dessas hidrelétricas pode aumentar o preço da eletricidade em todo o país.

   Sabendo de tudo isso, posso dar a resposta para a primeira pergunta: para manter uma lâmpada incandescente acesa 5 horas por dia durante um mês, são usados 60.000 litros de água. Ou seja, o desmatamento pode diminuir a quantidade de água disponível para as hidrelétricas, e o preço da energia gerada pelos 60.000 litros de água irá pesar mais no bolso no final do mês. É fundamental a importância dos estudos ecológicos em fornecer informações que possibilitem estruturar sistemas eficientes de gestão dos recursos hídricos e manejo ambiental no Cerrado.

Texto apresentado, com um dos métodos de avaliação na disciplina Ecossistemologia (UFRJ) no segundo semestre de 2016, ministrada pelo professor Dr. Vinicius Fortes Farjalla.

Autores: Carolina Mandarino, Gabriela Tabet, Hiago Lima e Igor Eich, Jéssica Felizi

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