Publicado por: Laboratório de Limnologia/UFRJ | 2 de março de 2017

Seria o jacaré um vilão?

Muitas pessoas se sentem assustadas pelo jacaré. Em diversas culturas, a imagem de jacaré está intimamente associada ao perigo e ao medo, no qual sua forma representa um dragão. O medo nada mais é do que um estado afetivo suscitado por uma consciência do perigo. De fato, ocorreram inúmeros casos de acidentes envolvendo este animal. E isso os torna “vilões”, mas será que os jacarés são os maiores vilões?

Os jacarés, ecologicamente falando, são predadores de topo. Os predadores de topo controlam a quantidade de indivíduos de outras espécies e exercem um papel chave na estrutura da comunidade local. Caso não haja a presença do predador de topo, a cadeia alimentar passa a estar instável, pois os animais que eram predados pelo os jacarés tem sua população aumentada e isso interfere no número de indivíduos de outras espécies que estão abaixo na cadeia alimentar deste predador. A superpopulação de todos os animais que o jacaré se alimenta, como peixes, aves, moluscos, crustáceos, insetos, morcegos e até outros répteis, altera a presença e quantidade de todos os organismos do lugar. Essa mudança torna a comunidade mais frágil e suscetível as variações climáticas e temporais dos ecossistemas.

Uma das regiões do Brasil onde o jacaré é encontrado é o Pantanal, um dos 6 biomas brasileiros. Este bioma, considerado o menor de todos eles, está localizado no centro-oeste, nos estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, além de se estender para o Paraguai e Bolívia (onde é chamado de Chaco Boliviano). Uma das características principais deste bioma é a sua periodicidade de inundação. Na região, existe o período chuvoso, que vai de novembro a abril (com as maiores chuvas caindo entre janeiro e fevereiro), e o período seco, ocorrendo entre maio e outubro. Com isso, por causa do período de intensas chuvas e pela baixa capacidade de drenagem do solo, este bioma fica alagado durante boa parte do ano, o que afeta diretamente no funcionamento dos seus ecossistemas.

Quando comparado à outras áreas alagadas, o ecossistema pantaneiro possui baixos teores de nutrientes. O ciclo de inundação leva uma sequência constante de concentração e diluição de nutrientes durante a seca e as enchentes. Deste modo, os seres vivos desta região apresentam estratégias para suprir a escassez de nutrientes – que acompanham a sazonalidade das inundações –  e a maneira na qual estes são assimilados.

Devido a esta situação, o jacaré tem um importantíssimo papel na comunidade da região em que vive. Esses animais liberam, através das fezes, nutrientes de grande relevância para a sobrevivência de toda a comunidade do pantanal. Tais nutrientes são importantes para estimular e sustentar a produtividade do local, provocando um aumento na produção de matéria orgânica – eutrofização – de forma temporária no sistema durante o período em que a região está seca.

Os jacarés de pequeno porte (jovem) se alimentam de insetos. Este hábito alimentar acompanha todo o tempo de vida deste animal. No entanto, quando ele se torna adulto, e portanto, há um aumento considerável de tamanho, apenas insetos não se torna mais suficiente para eles sobreviverem. Para suprir esta demanda nutricional, eles passam a se alimentar de peixes.

Os peixes, nesse sentido, possuem um importante papel: eles são acumuladores de nutrientes essenciais, como nitrogênio e fósforo. Portanto, durante a digestão destes peixes, as partes que não são absorvidas pelos jacarés, voltarão ao ambiente externo em forma de peletes (fezes). Estas fezes são liberadas nos locais onde os jacarés costumam ficar para pegar sol – já que o metabolismo do jacaré é dependente do calor externo para regular sua temperatura interna – e assim, se concentram nas bordas próximos aos rios.  A partir do momento em que ocorre as inundações, estes peletes são carregados aos rios, e são diluídos. Desta forma, há um aumento na concentração de nutrientes nestas parcelas aquáticas.

Estudos recentes indicam que locais onde há uma maior concentração de jacarés, e portanto, uma maior concentração de peletes, a safra pesqueira se torna maior. Isto ocorre pelo fato de que, o retorno dos nutrientes à agua, estimula uma maior produção primária. Este aumento de produção na base da cadeia alimentar impulsiona o crescimento de toda a comunidade, o que favorece uma maior abundância de espécies aquáticas. Dessa forma, além da importância ecológica, é perceptível a importância econômica que os jacarés trazem aos seres humanos da região.

Além da conservação dos habitats aquáticos onde estes animais vivem, também é de suma importância a preservação das árvores, principalmente em torno dos rios (mata ciliar). Os jacarés, como mencionado anteriormente, depende da temperatura externa para que sua temperatura interna seja regulada. O pantanal é um ecossistema bastante exposto ao sol, onde a temperatura se mantêm elevadas durante o ano todo, e principalmente entre agosto e novembro, onde podem exceder os 40°. No entanto, a temperatura ideal para o jacaré conseguir realizar seus processos metabólicos de forma adequada, se encontra em torno de 30°. A partir do momento que a temperatura externa se excede (variação de aproximadamente 5°), há alteração no ritmo cardíaco do indivíduo, prejudicando sua sobrevivência. Dessa forma, a preservação da vegetação é necessária para proporcionar ambientes favoráveis para a existência de toda a fauna pantaneira.

Como já dito anteriormente, os jacarés apesar de serem vistos pela sociedade como um animal perigoso e que podem trazer problemas à humanidade, na verdade, eles exercem um papel chave no funcionamento dos ecossistemas que estão inseridos. A partir do controle de topo da cadeia alimentar e pelo aumento da produtividade primária proporcionado por suas fezes, esses animais regulam diretamente e indiretamente todos os organismos da comunidade local. Ao respeitar e preservar os jacarés todos seres vivos são beneficiados, inclusive as pessoas. Portanto, a preservação do habitat desses animais é fundamental para sua existência, e vice-versa. Em consequência, existem inúmeros programas de conservação do Pantanal, responsáveis pela preservação deste ecossistema como um todo. Visando a manutenção ecológica dos biomas brasileiros, é importante que haja consciência individual e coletiva, pois pequenos fatores, como a presença do jacaré, podem fazer grande diferença nos ecossistemas.

Texto apresentado, com um dos métodos de avaliação na disciplina Ecossistemologia (UFRJ) no segundo semestre de 2016, ministrada pelo professor Dr. Vinicius Fortes Farjalla.

Autores:

Diana Monteiro

Isabel Ramalho Ortigão de Leoni

Lorena Monteiro dos Santos

Luisa Albuquerque Ferrer Pinheiro 

Luíza Gondim Fernandes

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