Publicado por: rodrigowfelix | 13 de julho de 2017

LIMNOLOGIA DA UFRJ MARCA PRESENÇA NO XI SIMPÓSIO NACIONAL DE RECUPERAÇÃO DE ÁREAS DEGRADADAS

    Olá caros leitores, gostaria de compartilhar com vocês minha experiência em vivenciar um evento científico sobre recuperação de áreas degradadas (RAD). Ao meu ver essa área está intimamente relacionada com o mundo da limnologia e diversas outras áreas de ecologia aplicada. Especialmente nos últimos 30 anos para cá em escala nacional, um dos maiores desafios dos profissionais ligados à área de ciências ambientais, tem sido identificar e solucionar problemas ambientais devido as fortes alterações ecossistêmicas provocadas pelas atividades antrópicas. Tudo isso diante do amadurecimento mundial frente às modificações da qualidade dos recursos naturais e da alarmante perda de biodiversidade. Afinal, fora a importância ecológica, onde nem todos os setores têm interesse, o estado do planeta e a disponibilidade de recursos naturais são fundamentais para a manutenção da vida humana e o andamento dos processos econômicos em um cenário ambiental semelhante ou melhor que o de hoje para as gerações atuais e futuras.

    No entanto, como vivenciei o congresso junto com a Maria Silvina, também doutoranda do laboratório onde realizo meu doutorado, gostaria de convidá-la para, através de um formato de diálogo escrito e descontraído, expressarmos nossos diferentes olhares sobre a participação no simpósio.

MOTIVOS QUE NOS LEVARAM AO SIMPÓSIO

       RODRIGO: Diante da necessidade de mudar meu enfoque no doutorado, devido a dificuldades orçamentárias para realizar o plano anterior, encontrei um novo desafio junto com meu orientador Prof. Marcos Paulo e o pequeno e recente grupo de estudo de RAD do qual fazemos parte em Macaé. O novo desafio girava em torno das possíveis soluções, inicialmente em escala experimental, para um acidente ambiental ocorrido em um empreendimento próximo a uma área de monitoramento e consultoria ambiental dos laboratórios de limnologia e ictiologia da UFRJ. O novo desafio proposto pelo Prof. Reinaldo, diante de seu olhar experiente a respeito de ações que podíamos desempenhar em parceria com outros colegas acadêmicos e com a empresa responsável pelo empreendimento, caracteriza-se como um trabalho onde devemos unir diferentes saberes e métodos eficazes para desenvolver um trabalho de recuperação de um pequeno riacho degradado devido a atividades de mineração. Sendo assim, achei a proposta do simpósio de RAD ótima para tirar dúvidas sobre modelos matemáticos, que inicialmente pensamos em aplicar, aguçar meu pensamento crítico sobre o tema, e trazer novas ideias eco-amigáveis para enriquecer nossas discussões internas. Acho que foi mais ou menos isso, e você Silvina, o que te motivou?

       SILVINA: Inicialmente, gostaria de comentar que meu projeto de doutorado se baseia no desenvolvimento de um índice multimétrico como instrumento para subsidiar programas de biomonitoramento de riachos (igarapés) amazônicos, utilizando a comunidade de macroinvertebrados bentônicos para tal fim. Dentro deste contexto, vejo o meu trabalho mais orientado para a ecologia aplicada que para a ecologia teórica devido a proposta do mesmo, gerar como resultado, uma ferramenta importante para fazer uma avaliação rápida e eficaz destes ambientes. Porém, esta mesma ferramenta poderia ser útil como indicadora de acompanhamento das possíveis mudanças atingidas por técnicas usadas em RAD nestes ambientes. Assim, os temas relacionam-se, onde técnicas de recuperação de ambientes aquáticos podem ser muito beneficiadas por indicadores de acompanhamento que facilitem avaliar estas mudanças. Neste sentido, é essencial poder entender o que são os trabalhos de RAD e como podemos inserir estas ferramentas nos mesmos. Sendo assim, concluo que foi importante comparecer no simpósio sobre esta temática, com proposta bem distinta dos eventos científicos que participei até o dia de hoje. Após três Congressos Brasileiros de Limnologia (CBL), entre outros, nos permitimos explorar uma nova área, mais aplicada, mais voltada para a resolução de problemas que a entender o problema. É uma área à qual não podemos fugir, porque é aí que hoje podemos encontrar a maioria dos olhares desejosos por soluções que consigam dar uma resposta a muitos os erros cometidos no passado, sendo que alguns continuam no presente e se estenderão para o futuro. Os programas de RAD, na minha perspectiva, estão sendo algo como a máquina do tempo de “De Volta para o Futuro”, numa tentativa incansável de atingir o que uma vez já foi, ou uma condição semelhante.

FORMATO E PARTICIPANTES DO SIMPÓSIO

       RODRIGO: O formato do simpósio no âmbito de sessões de pôster, apresentações orais de palestrantes convidados, mini palestras de estudantes e cursos de curta duração com ementas relacionadas ao tema do evento, foi semelhante ao que já vi em outros eventos científicos. A qualidade do material apresentado e o conhecimento técnico dos palestrantes foram excelentes. O que ficou um pouco a desejar foi a organização do tempo para tudo fluir de forma harmoniosa, mas mesmo assim, insuficiente para estragar os pontos positivos do evento.

         Tenho que destacar uma característica que me chamou muito a atenção, e eu diria que talvez tenha sido o maior diferencial deste evento em relação aos outros eventos científicos que já participei. Foi a respeito da distribuição de palestrantes para o setor da academia, de empresas de consultoria ambiental, empresas de setores variados em busca de soluções para seus problemas ligados ao meio ambiente e de órgãos públicos ambientais. Os acadêmicos com diversas linhas de pesquisa interessantes voltadas à problemas que demandam atenção ambiental a nível nacional, como aqueles originados das áreas de agropecuária, mineração, óleo e gás, e urbanização. As empresas de consultoria apresentaram técnicas eficazes e experiências em situações diversas frente a ecossistemas degradados. As grandes empresas e grupos exploradores de recursos naturais mostraram suas inovações nos campos de pesquisa e aplicação de medidas de prevenção, recuperação e suas demandas por mais conhecimento frente a seus constantes desafios ambientais. Já os órgãos públicos, destacaram seus desafios com acidentes ambientais em relação a redução na qualidade dos solos, do ar e principalmente da água e a manutenção destes recursos para o uso humano e para a preservação da biodiversidade. Estas características de diferentes partes interessadas, tornou as discussões extremamente ricas e complementares a respeito da conservação de ecossistemas e a respeito da identificação, diagnóstico e solução de acidentes ambientais.

NOSSOS INTERESSES ESPECÍFICOS

       RODRIGO: Meus principais interesses neste evento científico foram: i) procurar subsídios para realizar a modelagem de escoamento superficial e assoreamento na minha área de estudo do doutorado; e ii) ter um contato orientado e mais profundo com as técnicas de engenharia natural. Meu primeiro interesse foi sanado através de uma palestra e uma importante conversa com pesquisadores da UNB, o que me levou a repensar sobre este capítulo na tese. Acho que o maior esclarecimento para mim, foi ter a sensibilidade de entender que com nossa escassez de dados históricos no desafio de propor formas de avaliação de impacto na minha área de estudo, eu não poderia prosseguir com a elaboração do modelo. E sim…, um evento científico serve para nos dar asas e também para colocar nossos pés no chão. O que é excelente em relação ao amadurecimento científico.

         No entanto, em relação ao segundo interesse, minha recompensa me deixou muito entusiasmado através de um minicurso sobre bioengenharia, ministrado pela pesquisadora e doutoranda Rita Sousa, do grupo de pesquisas em engenharia natural da UFSM. Percebi que é possível fazer um projeto de RAD através da manipulação de elementos naturais (pedras e vegetais) como material de construção e estabilização geotécnica e hidráulica de riachos e taludes degradados. Entendi que estes elementos podem ser utilizados ainda como enriquecedores de habitats, tornando-os mais heterogêneos ou possibilitando recuperar a heterogeneidade de habitats em ecossistemas que a perderam. E finalmente descobri que, apesar da escassez de trabalhos sobre isso no Brasil, no nosso país existem alguns grupos que trabalham com isso há anos e que podem ser potenciais colaboradores numa pesquisa desta natureza. Sem dúvida, acho que foi o divisor de águas para elaborar o projeto de doutorado de forma mais ajustada ao ambiente que vou lidar junto ao meu grupo de pesquisa, com o problema ambiental que estamos enfrentando e com o que podemos fazer em colaboração com outros pesquisadores. O networking com a palestrante e com outros alunos foi muito interessante e sugiro a leitura do livro dos professores Miguel Durlo e Fabricio Sutilli (2012) intitulado Bioengenharia – Manejo Biotécnico de Cursos de Água. E você Silvina, o que extraiu daquele curso bacana voltado para área de legislação e áreas contaminadas?

          SILVINA: O meu interesse no congresso foi, principalmente, entender os projetos de RAD desde sua base. Por isso, além de participar da maioria das palestras, apresentação de pôster e trabalhos orais, decidi também participar de um dos minicursos, o qual estava baseado na temática “Gerenciamento de Áreas Contaminadas em Áreas de Mineração”. Partindo do princípio que os riachos amazônicos nos quais baseio o meu estudo de doutorado recebem o impacto direto e/ou indireto de atividades de mineração, no escopo de dois projetos de biomonitoramento para avaliar a influência das minerações sobre estes ambientes, achei muito pertinente a realização deste minicurso. É essencial conhecer o marco da legislação brasileira em relação à exploração dos recursos minerais no país. Saber quais são as normativas e leis federais que regulamentam esta atividade, quais são as medidas a serem tomadas em casos de degradação ambiental decorrente da própria atividade ou de acidentes que possam vir a acontecer, e quais são as grandes lacunas em relação a estes temas dentro da legislação. Tudo isso é de grande importância para quem trabalha e desempenha atividades em ambientes sob atividades de mineração. Outro detalhe é que o curso foi ministrado pelo membro de uma empresa de consultoria ambiental especializada na área de planejamento territorial, licenciamento e gestão ambiental de empreendimentos e gerenciamento de áreas contaminadas, o que me passou uma visão bem completa e estratégica do nosso papel como biólogos na área voltada ao mercado privado.

CIDADE DO EVENTO: CURITIBA

         SILVINA: O congresso foi realizado na cidade de Curitiba (PR), mais especificamente na Universidade Federal do Paraná. Mas nem tudo quando vamos para um congresso é participar do congresso, né? É importante aproveitar estes encontros para conhecer o local onde estamos, a história e a cultura do mesmo. Conhecer e aprender de tudo aquilo que possa nos enriquecer, não só em nível de conhecimento, senão também de espírito. Então além de irmos todo dia para o congresso e assistirmos as melhores palestras e mesas redondas, também fizemos um pequeno tour pela linda Curitiba.

      Para quem não conhece Curitiba, esta é a capital do Estado de Paraná, e a mesma possui grandes belezas naturais e arquitetônicas para serem visitadas e admiradas. Na cidade podemos encontrar o seu famoso cartão postal, o Jardim Botânico com seu jardim europeu e a estufa de vidro, cheio de plantas no seu interior. Além disso, visitamos a Ópera de Arame, um teatro de três andares feito só de canos e arames (por isso de “arame”), que se encontra rodeada por um lago artificial, sobre o qual passa uma ponte para poder ingressar na Ópera. Também visitamos o famoso e interessante museu do “olho”, desenhado pelo famoso arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer, e tentamos entender várias das exposições que estavam acontecendo. Outro ponto visitado na cidade, já menos turístico, mas de grande interesse para um sulino, foi o Museu Paranaense ou também conhecido como “Museu do Mate”, que no seu interior não tem só mate, senão a vasta história de uma das famílias mais importantes de Curitiba. E como não podia faltar para dois biólogos, visitamos o Zoológico de Curitiba, e debatemos a necessidade (ou não) dos mesmos para a educação ambiental da sociedade. Mas isso não foi tudo, também visitamos outras áreas da UFPR, fora as salas do simpósio, e descobrimos e apreciamos essa linda universidade, com uma história única e muito reconhecida em muitas das suas áreas, principalmente por alguns cursos como Engenharia Florestal, também envolvida fortemente com os projetos RAD.

        RODRIGO: Adorei o clima e organização de Curitiba. O transporte público funciona de forma muito eficiente, sem atrasos, sem superlotação, um exemplo de governança neste sentido. As vias muito bem preservadas e sinalizadas, pelo menos no centro histórico, nos arredores do Jardim Botânico e do Zoológico, e no caminho para o aeroporto. O tratamento do curitibano em vários serviços da cidade é fantástico, me pareceu um povo muito cortês e solícito. Sobre o tour na cidade, além de ter adorado os passeios que a Silvina já mencionou, também achei excelente a oportunidade de visitar o Museu Paranaense com uma história riquíssima e com um destaque muito interessante para tribos indígenas da região. Foi uma viagem excelente do ponto de vista profissional e cultural.

       Aproveito para agradecer todo o apoio do laboratório e estímulo dos professores para participarmos do evento. Agradeço a você leitor pela sua atenção e estamos aguardando ansiosamente seu comentário. Um abraço e até logo.

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Responses

  1. Parabéns dupla, pelo conteúdo e forma do texto. Muito interessante e enriquecedor.


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