A terceira escola que visitamos foi a Escola Municipal Conjunto Praia da Bandeira, localizada na Praia da Bandeira – Ilha do Governador, administrada pela Prefeitura do Rio de Janeiro. Essa foi I Feira de Ciência, Cultura e Tecnologia da escola, que aconteceu em dois turnos: na parte da manhã e na parte da tarde.

 

Nosso dia na Feira de Ciências

A nossa terceira feira de ciências, em parceria com o Projeto Fundão, foi um pouco diferente das outras. As nossas 3 atividades (atividade da molécula da água, atividade da caixa: o valor real das coisas e a atividade da bacia hidrográfica) ficaram na mesma sala que a oficina (lagoinha e observação no microscópio).

Nesse dia, tentamos fazer um circuito, onde as crianças passavam por todas as atividades e a oficina. No total tínhamos 5 bancadas para as crianças visitarem.

 

Inicialmente, as atividades e a oficina foram divididas da seguinte forma: Carla responsável pela atividade da molécula da água, Lohana na atividade da bacia hidrográfica, Clarice na atividade do microscópio, Laísa na atividade da caixa: o valor real das coisas, eu (Carolina) e o Anderson ficamos no desenvolvimento da lagoinha. A Alexia ajudou na realização das atividades na parte da tarde.

Nesse dia também contamos com a participação de dois alunos do programa de pós-graduação do NUTES/ UFRJ, Renato e Willian, que também ajudaram na organização e execução das atividades.

 

A dinâmica dessa feira foi um pouco diferente, pois as crianças não tinham um tempo determinado para participar das nossas atividades. Elas entravam na sala e podiam ficar pelo tempo que quisessem. Na medida em que iam terminando, faziam a avaliação das nossas atividades e iam embora.  Essa dinâmica por um lado foi boa, pois podíamos desenvolver as atividades dependo do interesse dos alunos sem se preocupar em passar do tempo.

Na parte da manhã recebemos os alunos do Ensino Fundamental II e na parte da tarde recebemos o Ensino Fundamental I. Na troca de turno, foi importante modificar um pouco a nossa dinâmica, pois as crianças do ensino fundamental I eram menores. Então, priorizamos a atividade da molécula da água com jujubas e a atividade do microscópio.

Na atividade do microscópio, depois da observação, as crianças podiam representar o que tinham visto em massinhas de diferentes cores. As crianças menores adoraram essa atividade. Fizeram várias representações dos microrganismos.

 

Essa foi a nossa última participação nas feiras de ciências nesse ano. Esperamos voltar em 2018 empenhados na organização, participação e no desenvolvimento das atividades em conjunto com os docentes, buscando as particularidades de cada escola, fortalecendo o projeto de extensão do Laboratório de Limnologia.

Equipe da Feira de Ciências no dia 10 de novembro:

Feira de ciências

Alexia Freitas, Anderson Germano, Carla Candido, Carolina Andrade, Clarice Casa Nova, Laísa Freire, Lohana Mello, Renato Vieira e Willian Pereira.

Créditos das fotos: Arquivos do Laboratório de Limnologia/UFRJ.

 

Anúncios
Publicado por: Carolina Andrade | 16 de novembro de 2017

Segundo dia na escola com o projeto de extensão do Laboratório de Limnologia

A segunda escola que visitamos foi a Escola Municipal Chile, localizada no bairro de Olaria, administrada pela Prefeitura do Rio de Janeiro. A escola é voltada para as artes, sua principal forma de incentivo é por meio da música. Todos os alunos fazem aulas de diversos instrumentos toda semana. No dia da feira, tivemos a oportunidade de ficar na sala de música do colégio, ela era rodeada de violões e guitarras penduradas nas paredes.

 

 

Nosso dia na Feira de Ciências

Na nossa segunda feira de ciências, em parceria com o Projeto Fundão, levamos as mesmas atividades: 1- A atividade da molécula da água, que consiste na montagem da estrutura da molécula da água com jujubas. 2- Atividade da caixa: o valor real das coisas, onde discutimos a quantidade de água gasta na produção, no consumo e no descarte de materiais. 3- Atividade da Bacia Hidrográfica, onde estimulamos os alunos a visualizarem e compreenderem os componentes de uma bacia hidrográfica através de um desenho esquemático de uma folha de árvore.

A atividade da molécula da água foi coordenada pelo aluno do Laboratório de Limnologia Marcos Paulo, enquanto o Rafael ficou na atividade da Bacia hidrográfica. Eu, Carolina, fiquei responsável pela atividade da caixa. Discuti os termos de água virtual e pegada hidrológica.  Notei que as crianças ficaram surpresas quando descobriam a quantidade de água gasta na produção de diversos materiais (jeans, café, garrafa pet, algodão), principalmente na fabricação do celular. Também contamos com a ajuda do estudante de Doutorado, Over Rozo, da Colômbia para realizar a quarta atividade, nosso lugar “Mandala”.

O desafio desse dia foi que ao invés de 1 hora teríamos 30 minutos com cada turma para realizar as 4 atividades da sala. Essa dinâmica foi corrida, pois teríamos menos de 15 minutos com cada grupo. Por isso, tínhamos que dosar o tempo de cada atividade para os alunos conseguirem passar em todas. Dessa forma, fiquei responsável por avisar a todos sobre o tempo, para não passar do horário programado.

A oficina também foi a mesma, na primeira etapa foi apresentado o jogo da Lagoinha, que possui o objetivo de discutir impactos antrópicos na lagoa a partir da estrutura e dinâmica deste ecossistema. A segunda etapa era a observação no microscópio, onde os visitantes observavam microrganismos presentes nos microscópios e lupas, como: copépodes; cladóceros; odonatas; quironomídeos e fitoplâncton. Nessa sala os alunos responsáveis foram: Sorana Lima, Carlos Vitor e Lohana Mello. A professora Laísa Freire ajudou na organização e supervisão tanto da oficina quanto das atividades.

Nesse dia, tínhamos um intervalo entre as turmas tanto na sala das atividades quanto na sala da oficina. Isso fez com que nosso grupo conseguisse observar os trabalhos dos alunos que estavam sendo apresentados na quadra da escola. Os alunos estavam empolgados e alegres com a exposição, chamando o nosso grupo do laboratório para apresentarem seus trabalhos. Sempre que íamos a uma mesa fazíamos perguntas sobre o tema falado. Um grupo de alunos nos chamou até sua mesa porque estávamos fazendo perguntas “difíceis de serem respondidas”, achamos interessante eles buscarem esse desafio. A exposição de trabalhos dos alunos estava linda, foi ótimo ter a oportunidade de circular pela escola.

Feira de ciências

Feira de Ciências

Essa foi a 4° feira de ciências da Escola Municipal Chile. Os professores e os coordenadores foram bastante atenciosos e eficientes. No final da feira distribuíram uma lembrança para os monitores das atividades e oficinas. Esse pequeno gesto fez o nosso grupo perceber o quanto é importante perpetuar essa relação da universidade com a escola.

Equipe da Feira de Ciências no dia 27 de outubro:

Feira de Ciências

Carlos Victor, Carolina Andrade, Laísa Freire, Lohana Mello, Marcos Paulo, Over Rozo, Rafael Lira e Sorana Lima.

 

Créditos das fotos: Arquivos do Laboratório de Limnologia/UFRJ.

Teniendo en cuenta que el objetivo de la investigación está orientado a indagar sobre la incidencia de las acciones sociopolíticas de los profesores en la escuela, en su formación como investigador y como la cuestión está en la práxis del profesor y se involucran procesos de mejoramiento, reflexión y transformación, resulta ser la investigación acción colectiva (IAC) la perspectiva más pertinente. Se asume la investigación cualitativa, debido a la conciencia del investigador cualitativo sobre cada práctica, material o método, visibilizando el mundo de una forma diferente, así se mantiene un compromiso por usar mas de una práctica en un estudio (Lincoln & Guba, 1999). Para Kemmis (1981), investigación acción (IA) es una ciencia práctica, moral y crítica, una forma de indagación autorreflexiva realizada por quienes participan, en este caso profesores de distintas especialidades, en situaciones como las cuestiones sociocientíficas (CSC) para mejorar: a) sus propias prácticas educativas al investigarlas; b) su comprensión sobre las mismas; y c) las situaciones e instituciones en que estas prácticas se realizan.

La escogencia como opción metodológica de la IAC se justifica desde los aportes expuestos por Botero (2012) y Prada (2008), donde con experiencias investigativas a partir de la IAC la vida puede debatirse en su propia existencia como persona y colectivo en el cuestionamiento de la modernidad occidental, con sus modelos de colonialismo, progreso y desarrollo, para el alcance de objetivos claros como la cooperación transdisciplinar a través del diálogo de saberes y la transformación de las prácticas educativas, desde la promoción de ASPyA para la formación en investigación del profesor en la escuela. En el escenario de la IAC aparecen los conocimientos colectivos, no solo los disciplinares, que confrontan el poder subordinante existente y aportan críticamente experiencias, sabiéndose en el límite entre lo ideológico del conocimiento político, social y ambiental para develar incoherencias, comenzando por las propias para llevarlos a la práctica social.

La IAC atribuye al profesor que orienta la investigación funciones para que los datos y el pensamiento sea continuamente formado, construido, sitematizado, concensuado, analizado, reconstruido y transformado, vislumbrando las orientaciones para que el colectivo transforme el problema de investigación, le compete la capacidad de devolución de los datos construidos al colectivo para ser reconstruidos y la de ser constructor de redes entre los participantes de la investigación, comprendiendo su complejidad y priorizando intereses con rigurosidad (Prada, 2008). La observación y la construcción de los datos está orientada hacia el entendimiento del pensamiento, del contexto y de las múltiples manifestaciones cotidianas del profesor en la escuela, luego, el objetivo es hacer inmersión en la realidad para luego comprenderla y transformarla. El pensamiento cuando la diversidad es su base se convierte en acción, en acción colectiva transformadora.

Se buscará a partir de las ASPyA manifiestar las alteraciones desequilibrantes que ha desarrollado la tecnociencia con su visión instrumentalista, hegemónica y doctrinal, a través del estudio de CSC, y así implicar a los participantes en una transformación, para alcanzar objetivos sociales, educativos, ambientales y políticos claros como la cooperación transdisciplinar, la horizontalidad, el diálogo de saberes, la organificación de la realidad para la transformación de las prácticas educativas, la formación en investigación del profesor en la escuela, la autonomía y la emancipación (Prada, 2008).

Los miembros del colectivo de investigación (CI) son 9 profesores de distintas disciplinas de la Escuela Campestre Monteverde en Bogotá (Colombia) de carácter oficial, 1 indígena de la comunidad Arhuaca de la Sierra Nevada de Santamarta y dos taitas de la comunidad Siona del Putumayo, con características diversas, dentro de un contexto espacio-temporal mediado por propósitos y acciones que desarrollan una red de relaciones inconmensurables que le confieren identidad.

Cada uno de los momentos de nuestra investigación implican una mirada retrospectiva, y una intención prospectiva, formando conjuntamente un mandala de conocimiento desde las CSC y las ASPyA derivadas (Figura 1), con el propósito claro de formar como investigador al profesor desde la propia escuela. Cada una de las T es un telar, a modo de cadenas de ADN, cada telar es uno de los miembros del CI, en el centro encontramos el tejido de ASPyA en la escuela creado a través del diálogo de saberes, la cooperación transdisciplinar, la horizontalidad, la solidaridad, la participación expandida. El tejido activa y transforma el profesor y la escuela, posicionándolo como un buscador de conocimiento, un investigador, para el buen vivir suyo y de lo que le rodea. Los cuatro momentos de la IA, aparecen así: planeación, en el esqueleto de nuestro ADN contiene los elementos necesarios para que el dialogo de saberes se pueda dar; acción, como una del par de bases nitrogenadas, implica cada uno de los elementos para fortalecer la argumentación y movilización desde las CSC hacia un discurso deontológico (Martinez y Parga, 2013); observación, la otra del par de bases nitrogenadas, busca registrar la acción; la reflexión, en los puentes de hidrógeno, la encontramos en todos los momentos y nos permitirá retomar, cambiar, evaluar, continuar o reconocer nuevos caminos en la investigación.

Captura de pantalla 2017-11-07 16.31.51

Figura 1. Mandala de IAC, una adaptación propia desde el modelo de Carr y Kemmis. Encontramos varios espacios vacíos que serán completados por el CI durante la investigación. Link mandala

Así la escuela se reconfigura como un escenario de emancipación decolonizador de estructuras, tales como las de desarrollo y modernidad. Para esto se requiere de una resistencia que como lo plantea el buen vivir o Sumak Kawsay en Quechua, precisa de una visión en que sin la felicidad de todos los seres no es posible la propia. La visión capitalista y de desarrollo es contraria a éste principio, como lo plantea Leff, 2004, no es posible encontrar una armonía cuando ganan muy pocos y pierde la inmensa mayoría, más aún cuando empezamos a ver que en esa inmensa mayoría no solo encontramos personas de todas las comunidades existentes en el planeta, sino también seres de todas las especies, agua, aire, suelos, recursos que son de todos desde una visión no antropocéntrica. Se busca sustentabilidad, desde lo político, ético- natural y cultural, con crítica, una lucha sin violencia, donde se esté atento a los distintos poderes viciosos que buscan usar para sus intereses egoístas conceptos relativos a palabras que involucran verde o ecología, hasta formas de pensamiento tan preciosas relativas al Sumak Kawsay o a la Madre Tierra.

 

Bibliografía

Botero, P. (2012). Investigación y acción colectiva –IAC– Una experiencia de investigación militante. Utopía y Praxis Latinoamericana. 17 (57), 31-47.

Kemmis, S. (1981). Action research in prospect and retrospect. En S. Kemmis, C. Henry, C. Hook, & R. McTaggart (Eds.), The action research reader (p. 11–31). Geelong: Deakin University Press.

Leff, E., (2004 ). Racionalidad ambiental. La reapropiación social de la naturaleza. México: Siglo XXI editores.

Lincoln, Y. S. & Guba, E. G. (1999). Establishing trustworthiness. En A. Bryman & R. G. Burgués (Eds.), Qualitative research (p. 397-344). London: Sage Publications.

Martínez, L. F. & Parga, D. L.  (2013). Discurso  ético  y  ambiental  sobre  cuestiones  sociocientíficas: aportes para la formación del profesorado. Bogotá: CIUP.

Prada, L.E. (2008). Investigación colectiva: aproximaciones teórico-metodológicas. Estudios Pedagógicos. XXXIV-1, 157-172.

 

Publicado por: Carolina Andrade | 2 de novembro de 2017

Primeiro contato com a escola no projeto de extensão do Laboratório da Limnologia

O Laboratório de Limnologia, em parceira com o Projeto Fundão, está promovendo atividades e oficinas em feiras de ciências em colégios do Rio de Janeiro. O primeiro colégio que visitamos foi o Ginásio Experimental Olímpico Féliz Mieli Venerando – Unidade Caju, administrado pela Prefeitura do Rio de Janeiro. Essa escola está localizada em uma comunidade recém-pacificada. A equipe da escola faz a diferença na vida dos alunos através do esporte. A instituição fica em anexo à Vila Olímpica Manoel Francisco dos Santos – Mané Garrincha e possui um centro esportivo com  ginásio multiuso, teatro, pista de atletismo, quadra e campo de futebol. Assim, ela é uma escola capaz de prover em tempo integral e todos os professores tem dedicação exclusiva.

 

Feira de Ciências

A feira de ciências é um meio importante de divulgação científica. Além de estimular os alunos para a área científica, faz com que as crianças tenham a percepção que essas atividades e conteúdos estão próximos de suas realidades, acarretando em um processo de ensino e aprendizagem mais participativo, dando um novo significado ao aprendizado dentro de sala de aula.

Minha experiência no projeto de extensão

Fiquei responsável pela coordenação das atividades a serem levadas para a feira de ciências na escola que foram definidas a partir de uma reunião com membros do laboratório. Escolhemos 3 atividades voltadas para o tema água para serem desenvolvidas: 1- A atividade da molécula da água, que consiste na montagem da estrutura da molécula da água com jujubas. 2- Atividade da caixa: o valor real das coisas, onde discutimos a quantidade de água gasta na produção, no consumo e no descarte de materiais (celular, garrafa pet, “geleca”, algodão, café, tecido) e conceitos como, água virtual e pegada hídrica. 3- Atividades da Bacia Hidrográfica. Nessa atividade estimulamos os alunos a visualizarem e compreenderem os componentes de uma bacia hidrográfica através de um desenho esquemático de uma folha de árvore onde suas nervuras irão representar alguns desse componente principais (foz, nascente, afluente).

Também planejamos uma oficina com duração de uma hora para ser trabalhada com os alunos. A dividimos em duas etapas: Na primeira etapa apresentamos o jogo da Lagoinha, que é uma atividade antiga do Laboratório de Limnologia. Ele possui o objetivo de discutir impactos antrópicos na lagoa a partir da estrutura e dinâmica deste ecossistema. Na segunda etapa era a observação no microscópio, onde os visitantes observavam microrganismos presentes nos microscópios e lupas, como: copépodes; cladóceros; odonatas; quironomídeos e fitoplâncton. Durante a observação os monitores da atividade discutiam características e curiosidades sobre tais organismos (cadeia trófica, relação desses organismos, morfologia e taxonomia).

No dia da realização da feira, a escola tinha os grupos de alunos definidos que iam participar das atividades. Dessa forma, nem todos os alunos do colégio conseguiram ver nossas atividades e, como as atividades e as oficinas ficaram em lugares separados, os alunos que foram em uma não conseguiram ir à outra.

Sendo assim, as 3 atividades (molécula da água, caixa e bacia hidrográfica) ficaram em uma sala compartilhando o mesmo espaço. Para não ficar tumultuado, dividimos a sala em 3 partes.  Com cada turma que entrava, fazíamos uma apresentação do nosso grupo e depois dividíamos os alunos para cada atividade. As atividades duravam em torno de 15 minutos cada, quando uma terminava trocávamos o grupo de alunos. Dessa forma, todos passaram por todas as atividades.

    2

Na sala de atividades, o estudante de Doutorado da Universidad Pedagógica Nacional de Bogotá na Colômbia – Over Rozo – também fez uma ação com os alunos. Era uma atividade de reflexão, nosso lugar “Mandala”. Consistia em entender a relação  dos indivíduos com o ambiente e nosso lugar e papel dentro dele.

 

Já na sala das oficinas, a primeira parte a ser feita era o jogo da lagoinha e depois de meia hora, aproximadamente, dependia de como era o envolvimento da turma, trocava para a atividade de observação no microscópio.

No meu primeiro dia de feira fiquei responsável pela atividade da molécula da água com jujubas. Trabalhei a identificação dos elementos químicos que compõem a água  (oxigênio e hidrogênio) e outros aspectos da identidade físico-química da água. Além disso, também falei sobre o desperdício, consumo e poluição da mesma. Os alunos adoraram essa atividade, pois sempre esperavam para comer as jujubas no final. Antes de comerem, eu fazia uma brincadeira com eles. Disse que só comeriam jujubas aqueles que me falassem que elementos da água estavam comendo. WhatsApp Image 2017-10-30 at 15.25.23

No final de todas as atividades, pedimos aos alunos para escreverem no papel qual foi a atividade que eles mais gostaram. Eles colavam suas respostas no nosso cartaz e iam para as outras atividades do colégio.

Essa também foi primeira feira de ciências do Ginásio Experimental Olímpico Féliz Mieli Venerando – Unidade Caju. A escola foi bem receptiva com todos, foi um dia produtivo e contagiante.  A alegria dos alunos participando das nossas atividades é a resposta de todo nosso trabalho e esforço. Atividades como essas podem mudar o panorama do dia a dia das crianças e contribuir para articulação dos conteúdos apresentados com o currículo escolar.

Equipe da Feira de Ciências no dia 11 de outubro

Equipe

Anderson Vargas, Carolina Andrade, Laísa Freire, Lohana Mello, Over Rozo, Samara Kister, Tamara Braga e Tauany Rodrigues. 

Créditos das fotos: Arquivos do Laboratório de Limnologia/UFRJ.

Publicado por: Lohana Mello | 26 de outubro de 2017

Minhas escolhas profissionais até a Educação Ambiental

Comecei licenciatura em biologia, mas nunca soube de verdade o que queria. Sempre gostei de muitas coisas, onde na adolescência, costumei confundir e mesclar hobbies como uma possibilidade de carreira, e não sabia exatamente como definir isso, ou ao menos, separar. Na verdade, se cheguei até aqui agora, foi em parte escolhas que fiz para não me manter estagnada, enquanto fazia a investigação constante sobre minhas paixões e como isso poderia me levar a realizar um trabalho que me desse satisfação pessoal, que me fizesse sentir orgulho de mim mesma, ao comparar e lembrar de meus pensamentos e meus sonhos quando criança. Sempre penso no meu próximo passo com a seguinte pergunta: meu eu, quando criança, se orgulharia disso?

E sempre quando me comparo com as expectativas sobre a minha vida adulta que tive quando criança, eu me orgulho de cada pequena mudança que pude realizar dentro de mim. Realizações aquém do plano material, e sim enquanto ao longo do meu caminho, pude me tornar mais independente, o quanto aprendi, o quanto me superei, sempre buscando a superação de meus limites, de meus medos, de minhas fraquezas.

Experimentei caminhos durante minha graduação que me fizeram ter a convicção de que eu estava no caminho errado. Conciliar as expectativas, os sonhos, com possibilidades realistas, foi sempre um fator muito importante na escolha de qual caminho seguir. E ao longo do tempo, meus sonhos e expectativas foram se adaptando aos meus limites pessoais, até onde eu poderia ir, o que eu seria capaz de realizar, e ser capaz de achar o ponto de partida para começar o meu caminho verdadeiro, do meu jeito, colocando em primeiro lugar minhas paixões e minhas convicções.

blog2

Imagem retirada do site: <http://mundodasimagens.com/imagem-693&gt;

Foi um caminho demorado, poderia dizer até turbulento, mas necessário para minha aprendizagem. E eu viajei longe, para achar meu caminho bem aqui, na minha própria cidade, onde eu nasci, onde eu cresci, e vivi durante toda a minha vida. O meu caminho a ser seguido nunca esteve tão claro: ir em busca de minhas origens foi minha maior descoberta.

E então, conheci Paulo Freire, conheci Rubem Alves, Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira, Maria Montessori, Piaget, Durkheim, Vygotsky…

natureza

Natureza – Por Lohana Mello – Caminhada ecológica Forte Duque de Caxias –  Alto do morro do Leme

Me apaixonando pela educação, acabei unindo esta a mais fundamental das minhas paixões: a natureza. Minhas maiores paixões na vida se tornaram, de repente, inevitavelmente, e até, nem surpreendentemente, a educação e a natureza. A educação, a filosofia da educação e a natureza, me conquistaram de uma forma avassaladora. De repente, e não tão de repente, elas eram ao mesmo tempo minhas paixões, e as minhas convicções de vida. 

Para alguém que cresceu em um ambiente com muitas injustiças ambientais, com as árvores da rua sendo cortadas, com enchentes, com muito calor, com valões tidos como coisas inevitáveis e normais, com falta de água, a falta da qualidade de vida dos munícipes de minha cidade, descobrindo a baixa qualidade de vida da maior parte da população do Rio de Janeiro, me comoveu a ponto de isso ser a única coisa que eu tinha em mente: ir em defesa dessas pessoas e da natureza local, porque eu tinha empatia por ter a mesma realidade.

IMG-20170325-WA0067

Exemplo de injustiça ambiental – Foto por MPS – Devastação da maior área verde de São João de Meriti – próximo ao shopping Grande Rio para construção de galpões logísticos

E ao longo do tempo, essa empatia foi crescendo ao entender que há realidades distintas e até mais precárias em minha própria cidade, ao entender que há mais desigualdade do que eu poderia imaginar, e ao entender que a educação é a única porta a que podemos buscar abrir para ter a liberdade para lutar por uma vida mais digna.

E é exatamente essa injustiça ambiental que me fazem ir à busca da justiça. E essa busca é árdua, porque começa na superação de meus próprios limites, como futura educadora, como articuladora, dentro da minha interação social com minha comunidade, dentro do meu contexto acadêmico, e nos mais diversos e possíveis grupos com os quais tenho

interação na comunidade
Interação na comunidade – Foto por MPS – Feira de Ciências – Projeto Há Esperança + MPS – Na comunidade Pq Analândia – São João de Meriti

convivência, que cada dia me fazem ter a certeza de que o primeiro passo é ir em busca da nossa própria qualidade de vida, de saúde mental, de equilíbrio. O ponto essencial é a busca eterna do equilíbrio. É só tendo o equilíbrio, paixão e muita resiliência que acredito então sermos capazes de atuar em todas essas esferas sociais, ao procurar soluções práticas para nossos desafios do dia a dia.

E além desses requisitos mínimos para essa busca por justiça, é a base fundamental, a eterna aprendizagem. A leitura, o estudo, a compreensão da realidade do outro, a não imposição mas a defesa por ouvir mais, por

22366289_10208220715195507_7014779357919102344_n

Interação na universidade – Ida a Feira de Ciências pelo projeto de extensão do laboratório de limnologia

mais empatia, alcançando mais acordos do que disputas, numa sociedade já baseada em muita competição, é o que me motiva, e o que faz acreditar que a Educação Ambiental é o meu caminho, cheio de erros e acertos, de muitas tentativas, de muitas superações, mas sempre tentando achar a melhor forma de melhorar a minha realidade e a realidade do próximo, ao sempre procurarmos, nas nossas interações, as soluções políticas, ambientais mais justas para o bem viver de todos.

 

Texto por: Lohana Mello Costa
Graduanda em Licenciatura em Ciências Biológicas pela UFRJ-EAD (CEDERJ) e participante do Grupo de Pesquisa em Educação Ambiental e Ensino de Ciências do laboratório de Limnologia UFRJ.
Publicado por: iollandaivanov | 12 de outubro de 2017

Consumo colaborativo: uma contribuição para o meio ambiente.

Você provavelmente já alugou um quarto no Airbnb para passar um fim de semana em uma cidade diferente, não é? Possivelmente utilizou o aplicativo BlaBlaCar para viajar em um carro com outras pessoas, dividir as despesas e economizar. E para aquele mochilão tão esperado na Europa, você já pensou em utilizar o Couchsurfing? Esta é uma rede social voltada a unir turistas e pessoas interessadas em recebê-los, sem fins lucrativos.

Todas estas iniciativas fazem parte da economia compartilhada, que vem se difundindo no Brasil e no mundo. Esta forma de consumo colaborativo é baseada na divisão de bens de consumo e serviços, visando economia de dinheiro, espaço e tempo (Botsman & Rogers, 2010; Tussyadiah, 2015). Apesar de o conceito de economia compartilhada ser antigo, datado desde a política do escambo, o termo voltou a ser utilizado em função do desenvolvimento de tecnologias da informação, como as redes sociais, somado a preocupações ambientais (Botsman & Rogers, 2010). É uma maneira de usar a tecnologia para fazer negócios, para a inclusão social e preservação ambiental.

SocialAnimals_consumo-colaborativo-grande

O consumo colaborativo é estruturado em 3 tipos de sistemas: 1) Mercados de redistribuição, que permitem a troca de um produto de um local no qual este não é necessário, onde ele seja;  2) estilos de vida cooperativos, no qual recursos como dinheiro, habilidades e tempo são compartilhados; e 3) sistemas de serviços e produtos, nos quais o consumidor paga pelo benefício do produto e não pelo produto em si. Estas práticas prolongam o ciclo de vida dos produtos, diminuem a produção de resíduos e permitem que as pessoas compartilhem recursos, sem perder o estilo de vida ou a liberdade pessoal (Botsman, 2010).

A partir da prática do consumo colaborativo, as pessoas passam a se comunicar mais e confiar umas nas outras. Além disso, esta prática pode possibilitar o acesso a certos bens, os quais algumas pessoas foram anteriormente excluídas (Binninger et al.,2015). Além disso, o conceito tem tudo a ver com a sustentabilidade, pois fornece vantagens ecológicas como diminuição de resíduos e inspiração de melhor desenvolvimento de produtos (Botsman & Rogers, 2010). Isto porque tradicionalmente, os produtos são vendidos, utilizados por um pequeno prazo e depois descartados.

Um grande benefício do consumo colaborativo é a redução do consumo. Afinal, as pressões do consumo excessivo ao meio ambiente são uma preocupação crescente (Tussyadiah, 2015). A partilha de bens e serviços tende a resultar em menos impacto ambiental em comparação aos outros modelos econômicos. Isto porque o consumo colaborativo pode resultar na redução do desperdício, do uso excessivo de energia e das emissões de gases de efeito estufa (Prothero et al., 2011; Quadra et al., 2017).

Nesse sentido, não podemos deixar de lado a necessidade de integrar o conceito de consumo colaborativo em nossas rotinas diárias. Pois este conceito tem um enorme potencial para mudar o sistema de consumo atual e reduzir a produção de resíduos, podendo, consequentemente, diminuir as pressões humanas sobre o meio ambiente.

REFERENCIAS

Binninger AS, Ourahmoune N, Robert I (2015) Collaborative Consumption And Sustainability: A Discursive Analysis Of Consumer Representations And Collaborative Website Narratives. Journal of Applied Business Research, 31:969-986.

Botsman R & Rogers R (2010) What’s mine is yours: how collaborative consumption is changing the way we live. London: Collins.

Botsman R (2010) The Case of Collaborative Consumption. TED Ideas worth spreading. Disponível em: https://www.ted.com/talks/rachel_botsman_the_case_for_collaborative_consumption.

Prothero A, Dobscha S, Freund J, Kilbourne WE, Luchs MG (2011) Sustainable Consumption: Opportunities for consumer research and public policy. Journal of Public Policy & Marketing, 30:31-38. DOI 10.1509/jppm.30.1.31.

Quadra GR, Josué IIP, Roland F & Bozelli R (2017). We Cannot Leave Aside the Collaborative Consumption. Journal of Waste Resources, 7(284), 2.

Tussyadiah I (2015) An exploratory on drivers and deterrents of collaborative consumption in travel. In Tussyadiah, I. & Inversini, A. (Eds.), Information & Communication Technologies in Tourism 2015. Switzerland: Springer International Publishing.

Publicado por: Laboratório de Limnologia/UFRJ | 6 de outubro de 2017

Conhecendo o perifíton…

Aposto que esse nome você pode até não conhecer, mas você sabe o que é aquela mancha verde que forma nas paredes dos aquários, ou sobre pedras, troncos e até em muros onde possui umidade. Isso mesmo, o limo! O limo é conhecido cientificamente como perifíton. Não é que tem gente que estuda isso?!

 

 

Figura 01: Substratos colonizados pela comunidade perifítica e imagem das microalgas perifíticas (ficoperifíton) (SCHWARZBOLD et al., 2013).

De acordo com Wetzel (1983), o perifíton se caracteriza como sendo um conjunto de microrganismos (algas, bactérias, fungos e animais), detritos orgânicos e inorgânicos aderidos a substratos artificiais ou naturais vivos ou mortos. Sendo considerado um biofilme que se desenvolve em superfícies submersas, ou úmidas.

Cerca de 95 a 99% da sua composição corresponde ao ficoperifíton (WETZEL, 1990), do grego “phycos”, alga, que é o nome dado a comunidade de microalgas presentes no perifíton. Poucos sabem a importância dessa comunidade nos ecossistemas aquáticos continentais.

A comunidade perifítica é considerada um dos principais produtores primários nos ecossistemas aquáticos continentais tropicais, principalmente em ambientes rasos, como córregos, riachos e lagoas costeiras, nos quais pode chegar a contribuir com cerca de 70 a 85% da produção primaria total (ESTEVES, 2011). E tem gente que acha que só existe fitoplâncton!

Segundo Moschini-Carlos (1999), o perifíton é rico em proteínas, vitaminas e minerais constitui um importante alimento para muitos organismos aquáticos, especialmente alguns peixes de importância econômica. Estudos apontam que a aquicultura (criação de peixes) baseada na comunidade perifítica é uma abordagem que possibilita a prática da criação de forma ecológica, e pode colaborar com o desenvolvimento de estratégias para o manejo sustentável dos ecossistemas aquáticos, reduzindo a quantidade de ração adicionada ao ambiente e consequentemente a eutrofização artificial (BERGAMIN, 2016; SIQUEIRA & RODRIGUES, 2009).

O perifíton é um componente-chave no ecossistema lacustre, tanto para a cadeia alimentar quanto para os ciclos de nutrientes (LOWE & PAN, 1996), podendo ser utilizado no diagnóstico de impactos ambientais, para detectar sinais precoces de eutrofização e estabelecer metas de recuperação (FERRAGUT, 2004).

Como a composição química do perifíton engloba todos os componentes da comunidade, inclusive detritos, pode ser empregada como indicadora da disponibilidade de nitrogênio e fósforo (SCHWARZBOLD et al., 2013). Assim, desempenhando um importante papel no fluxo energético e ciclagem de materiais, sendo responsável pela fixação de carbono e sequestro de nutrientes essenciais, como nitrogênio e fósforo, tornando-os disponíveis aos consumidores (DODDS, 2003).

O ficoperifíton é frequentemente utilizado em estudos ambientais como bioindicador da qualidade da água e de seu estado trófico por apresentar vantagens como modo de vida séssil, curto ciclo de vida dos organismos, resposta rápida a mudanças ambientais e elevada riqueza de espécies (LOWE & PAN, 1996; ESTEVES, 2011).

Além de todos esses benefícios para os ecossistemas aquáticos uma das vantagens de se trabalhar com essa comunidade é a variedade de substratos, onde pode-se escolher substratos naturais, como por exemplo macrófitas aquáticas, ou substratos artificiais, como lâminas de vidro. Cada substrato possui suas vantagens e desvantagens, porém uma que vale a pena ser citada aqui é a possibilidade de estudar a sucessão da comunidade perifítica através de substratos artificiais. Exatamente, assim como em uma floresta, com seus diversos estágios sucessionais!

Infelizmente, os estudos sobre a comunidade perifítica ainda são escassos quando comparado ao fitoplâncton e diante da grande diversidade de ambientes aquáticos em nosso país. Através da importância que essa comunidade desempenha no metabolismo dos ecossistemas aquáticos, faz-se necessário estudos para “desvendar seus mistérios”.

 

Autora: Lorena Bergamin

 

Bibliografia citada:

BERGAMIN, L. L. N., Avaliação da estrutura e dinâmica das algas perifíticas em sistema de piscicultura intensiva e sua contribuição para o manejo sustentável. 2016. 70 f. Monografia – Curso de Ciências Biológicas, Departamento de Ciências Biológicas, Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2016.

DODDS, W. K., 2003. The Role of Periphyton in Phosphorus Retention in Shallow Freshwater Aquatic Systems. J. Phycol. 39: 840–849.

ESTEVES, F. A. Fundamentos de limnologia. 3ª Ed. Rio de Janeiro: Interciência, 2011.

FERRAGUT, C. Respostas das algas perifíticas e planctônicas à manipulação de nutrientes (n e p) em reservatório urbano (Lago do IAG, São Paulo). Tese de doutorado, Universidade Estadual Paulista, Rio Claro, SP. 184p. 2004.

LOWE, R. L.; PAN, Y. Benthic alga Icomunities as biological monitors. In:STEVENSON, J. R.; BOTHWRLL, M. L.; LOWE, R. L. (Eds.). Algal ecology: freshwater bentic ecosysterms. New York: Academic Press. p. 705-739. 1996.

 

MOSCHINI-CARLOS, V., 1999. Importância, estrutura e dinâmica da comunidade perifítica nos ecossistemas aquáticos continentais. In: Pompêo, M. L. M. (Org.). Perspectivas da limnologia no Brasil. São Luís: Ed. União: 91-103.

SCHWARZBOLD, A.; BURLIGA, A. L.; TORGAN, L. C. (Org.). Ecologia do Perifíton. São Carlos, SP: Rima, 2013. 397 p.

SIQUEIRA, N. S.; RODRIGUES, L. Biomassa perifítica em tanques-rede de criação de tilápia do nilo – Oreochromis niloticus (Linneau, 1758). Boletim do Instituto de Pesca (Online), v. 35, p. 181/3-190, 2009.

WETZEL, R.G. Land-water interfaces: metabolic and limnological regulators. Verh Internat Verein Limnol 1990. v 24, p. 6-24.

WETZEL, R.G. Opening remarks. In:Wetzel, R.G. Periphyton of freshwater ecosystems: Proceedings of the First International Workshop on Periphyton of Freshwater Ecosystems. 1ed. Boston:The Hague Dr. W. Junk. 1983. p.3-4.

 

Publicado por: Leandro T. Sabagh | 28 de setembro de 2017

Conservando espécies e “matando dois coelhos com uma cajadada só”

Eu sei, eu sei… “Conservar” e “matar” são verbos cuja conjugação não combina em uma mesma frase. Tampouco em um título que tenta sintetizar uma ideia em prol da conservação! Mas se me cederem alguns minutos de sua atenção eu prometo explicar e, quiçá, convencê-los de alguns equívocos que vêm sendo cometidos.

A conservação pode ser voltada para conservar ecossistemas, conservar espécies ou conservar processos ecológicos. No primeiro caso não há uma espécie foco, mas sim a preocupação em que as ações de proteção de um ecossistema resultam na efetiva proteção das espécies que compõem aquele ecossistema. No segundo caso a conservação pode ser primariamente voltada para a conservação de uma (ou poucas espécies) e as ações são voltadas para sua preservação (embora por essência o ecossistema deva ser preservado, pois senão, não haveria a preservação da espécie-foco). Muitas dessas ações envolvem eleger uma espécie-alvo que pode representar um guarda-chuva* (normalmente carismática e com apelo popular) para outras espécies simpátricas (que compartilham o mesmo habitat). No terceiro caso a preocupação está na preservação de processos ecológicos, nos quais ao se perder uma parte do processo, todo o processo estaria inviabilizado. Alguns exemplos são a polinização, a dispersão e a relação parasita-hospedeiro.

Slide1

Ilustração de como uma o mico-leão (Leontopithecus sp.) funciona como guarda-chuva (composição com imagens da internet).

A União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN; veja o site aqui) redigiu um guia com critérios que devem ser considerados para avaliar o status de uma espécie quanto às ameaças as quais estão sujeitas e seu risco de extinção. Uma das recomendações da IUCN é que, se uma espécie depende de outra espécie para todo ou parte de seu ciclo de vida, o status de conservação da espécie avaliada deve ser compatível com o da espécie hospedeira.

Estudando nuances da relação entre anfíbios anuros e vegetais da família Bromeliaceae e fazendo a laboriosa revisão bibliográfica exigida em muitos programas de pós-graduação como uma das etapas para obtenção do título pesquisei os aspectos da conservação entre estes organismos. Anfíbios são os vertebrados mais ameaçados do planeta. O Brasil é o país com maior riqueza de anfíbios, o que o torna uma referência para este grupo animal. Assim, achei por bem, verificar o estado do conhecimento sobre conservação dos anuros que utilizam bromélias bem como avaliar a compatibilidade dos status de conservação dos anuros com suas bromélias hospedeiras.

Slide4

Cores mais quentes indicam áreas com maior riqueza de anuros. Créditos e maiores informações aqui.

Esta avaliação que fiz foi um capítulo de minha tese de doutorado que tratou vários aspectos das relações interespecíficas entre anuros e bromélias. Realizei meu doutoramento pelo Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Evolução da Universidade do Estado do Rio de Janeiro sob orientação do Prof. Fred (que assina esse post comigo). Inclusive, aproveitamos o espaço para um #UERJResiste.

bloco3_uerj_d

Anuros utilizam bromélias de duas formas basicamente: (i) para refúgio ou abrigo uma vez que as bromélias são locais com clima mais ameno e favorável para estes animais de pele fina e respiração cutânea ou (ii) para, além do abrigo momentâneo, reprodução com suas larvas e/ou ovos se desenvolvendo exclusivamente no interior de indivíduos da família Bromeliaceae (família botânica das bromélias) que, principalmente, formam pequenas cisternas armazenando água. O primeiro grupo é chamado de bromelícola, enquanto o segundo grupo foi batizado de bromelígena.

No trabalho avaliamos toda a área de ocorrência em que anuros e bromélias com cisternas se sobrepõem. Identificamos 99 anuros que se reproduzem exclusivamente em bromélias e listamos 74 espécies de bromélias hospedeiras. Nós verificamos que 58% dos anuros que reconhecidamente dependem de bromélias para reprodução e manutenção de suas populações, não há sequer uma única espécie de bromélia registrada como hospedeira! Este fato afronta os princípios da conservação preconizados pela IUCN! Claro que precisamos de muito mais informação uma vez que 35% dos anuros estão atualmente categorizados sob o status de dados insuficientes, ou seja, sem informação científica suficiente para saber se a espécie está ou não ameaçada. O trabalho está publicado na revista Symbiosis (acesse-o aqui).

paper

Outro dado importante que surgiu com o trabalho foi as inconsistência entre o status de conservação das espécies dos anuros e das espécies das bromélias hospedeiras. Pelo menos quatro anuros (Phyllodytes melanomystax, Ololygon littorea, Ololygon perpusilla e Adelophryne maranguapensis) deveriam estar sob um status de conservação mais restritivo para ser coerente com o status de suas bromélias hospedeiras de forma a atender aos critérios da IUCN. Estas quatro espécies ocorrem todas na Mata Atlântica. Este Bioma além de ser considerada um hotspot para a biodiversidade (região que apresenta simultaneamente elevada diversidade biológica e sofre significativa pressão de ameaças) é o maior centro de diversidade e endemismo tanto para anuros quanto para bromélias.

Mais do que um simples estudo de caso entre anuros e bromélias, este trabalho pode ser projetado para todo o tipo de relação dependente entre espécies, sejam estas harmônicas (quando todos os envolvidos se beneficiam) ou desarmônicas (com prejuízo para pelo menos uma das espécies envolvidas).

Desde o trabalho de Picado (1913) a mais de um século atrás se sabe que as bromélias sustentam uma ampla variedade de seres além de serem capazes de ampliar a diversidade biológica de uma determinada área. Bromélias são vegetais que modificam a estrutura do ambiente pela sua própria existência. Por isso são classificadas como espécies engenheiras (no caso autogênicas). A complexidade de sua estrutura, com diferentes microhabitats e com armazenamento de água livre como cisternas naturais, faz com que muitos organismos (animais, vegetais, protozoários, bactérias e fungos) utilizem a bromélia como um fator importante em sua história de vida.

Essas “cisternas naturais” também apresentam endemismos, ou seja, abriga espécies exclusivas destes sistemas, que apenas ocorrem dentro de bromélias. Seriam então as bromélias espécies guarda-chuva? Até poderiam, mas infelizmente a resposta por enquanto é não!

As bromélias por muito tempo (e ainda hoje!) são identificadas como locais propícios para o desenvolvimento de larvas de insetos vetores de doenças como dengue, zika e chikungunya. Porém isto não é verdade!!! Estes mosquitos (como exemplo o Aedes aegypti) não são encontrados vivendo em bromélias naturalmente. Até em bromélias usadas como paisagismo estes mosquitos não se apresentam em nível de praga. As bromélias têm sido usadas como bode-expiatório principalmente pelo poder público que não age com efetividade nos reais criadouros destes insetos vetores. BROMÉLIAS SÃO MUITO IMPORTANTES PARA A CONSERVAÇÃO E NÃO SÃO CRIADOUROS DE MOSQUITOS VETORES!!!

Slide3

Quem sabe um dia as bromélias não serão mais malquistas e poderão ser um ótimo exemplo de espécie guarda-chuva.

Parasitas também são espécies que podem sofrer do mesmo modo que os anuros bromelígenas. Assim como as bromélias hospedam os anuros, os hospedeiros dos parasitas que estiverem de alguma forma ameaçados, colocam em cheque a sobrevivência de ambas as espécies. Pode parecer estranho “defender” os parasitas, mas lembre-se que isso é uma questão semântica! O parasitismo é um dos muitos modos de vida mais comuns na natureza e as espécies que se utilizam dele, em todo ou parte de seu ciclo de vida, também tem o direito de serem conservadas. Vale lembrar também que o parasitismo é um dos principais fatores bióticos que dirigem comunidades e controlam populações. Mais sobre a conservação de parasitas aqui.

DSC06982(SabaghLT)

Nadando em uma piscina vulnerável: girinos de espécie considerada fora de ameaça (Ololygon perpusilla) se desenvolvendo no fitotelma de uma bromélia ameaçada (Alcantarea glaziouana).

Voltemos ao título e, levando em consideração que as cisternas de bromélias sustentam e abrigam uma infinidade de organismos, deixo aqui minha proposta de alteração do ditado popular “Matar dois coelhos com uma cajadada só” por “Conservar muitas espécies com uma caixa d’água  só”. No caso, a caixa d’água seriam as cisternas das bromélias.

Fica a dica!

* alguns pesquisadores diferenciam o conceito de “espécie guarda-chuva” de “espécie bandeira”. No texto eu trato como sinônimos pelo fato de ambas terem efeitos positivos indiretos na conservação de outras espécies. A diferença consistiria em que a espécies bandeira necessariamente seria uma espécie carismática como um ícone, enquanto a espécie guarda chuva necessitaria de uma grande área conservada para sobreviver onde estariam distribuídas diversas outras espécies.

 

A palavra vírus remete normalmente à algo negativo. Experimente buscar por “vírus” no Google e os primeiros resultados obtidos serão basicamente associadas à dois tópicos: doenças graves, como HPV, HIV e Zika, ou os indesejáveis vírus de computador (programas malware), que obviamente não são biológicos e foram batizados com o termo vírus, emprestado da biologia, devido ao seu caráter infeccioso. De fato, em ambos contextos os vírus causam sérios danos e essas são questões que devemos estar frequentemente preocupados, mas será que os vírus representam sempre um problema e por isso deveriam ser eliminados da face da terra?

google

A resposta é não. Primeiramente porque seria uma tarefa impossível uma vez que em toda biosfera estima-se que existam cerca de 10.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000 (10³¹) partículas de vírus (ufa!), que podem ser encontrados nos quatro cantos do planeta Terra, inclusive em ambientes extremos! Para se ter uma ideia da dimensão desse número, ele é impressionantemente comparável ao número de estrelas (4×10²²) em todo o Universo! O leitor há de concordar que todos esses vírus no mundo não poderiam existir infectando apenas uma população humana de 7,5 bilhões (109) de indivíduos.

estrelas_micro_final

Os vírus e as estrelas: números e imagens semelhantes. À esquerda imagem de vírus e bactérias sob microscopia de epifluorescência (por Nathan Barros) e à direita imagem de um céu estrelado (fonte: https://wallpapersafari.com)

Na realidade, os vírus infectam células dos mais diversos tipos de organismos, desde bactérias até baleias. Mas por qual motivo os vírus infectam células hospedeiras? Simplesmente porque dependem do aparato celular dos seus hospedeiros para se replicarem. Quando encontrados fora de células hospedeiras, os vírus são apenas pacotes de material genético (DNA ou RNA) envolvido por uma capa proteica e por isso não são capazes de se locomover ativamente, dependendo de encontros aleatórios com seus hospedeiros para que ocorra a infecção. Devido à essa característica infecciosa, os vírus podem desempenhar funções ecológicas importantes tanto em ambientes terrestres como em aquáticos, mas aqui focarei nos ambientes aquáticos.

Screen Shot 2017-09-14 at 9.16.15 PM

Ciclo lítico e ciclo lisogênico da replicação viral. No ciclo lisogênico os vírus infectam a célula hospedeira e controlam o processo de divisão celular. Com a divisão, uma célula bacteriana infectada dá origem a duas células bacterianas também infectadas. No ciclo lítico os vírus se multiplicam no interior da célula hospedeira e rompem a membrana celular. Após esse rompimento os vírus são liberados para o ambiente para então infectar outras células. Com a ruptura celular também são liberados compostos orgânicos para o ambiente (por Nathan Barros).

Desde meados da década de 1960, sabe-se que bactérias e algas são infectadas por vírus, porém, apenas no final dos anos 1980 cientistas descobriram que vírus são extremamente numerosos em ambientes como lagos, rios e oceanos. Este fato atraiu a atenção de pesquisadores a estudar os vírus sob uma perspectiva ecológica.

Uma das principais funções ecológicas dos vírus é o controle de populações. Da mesma forma que os vírus podem controlar a população humana por meio de algumas doenças potencialmente fatais, eles são muito eficientes no controle de populações microscópicas dos ecossistemas aquáticos. Em média, 10% da mortalidade de algas e 40% da mortalidade de bactérias são causadas pela infecção viral. Desta forma, os vírus exercem um importante controle das bactérias dominantes, facilitando uma alternância de espécies e promovendo a diversidade. No caso das comunidades fitoplanctônicas, estudos apontam que os vírus podem também controlar o desenvolvimento de florações de algas potencialmente tóxicas.

Mas não é só isso! O rompimento da parede celular dos seus hospedeiros acarreta também na liberação de todo o conteúdo que antes estava no citoplasma (material interno) da bactéria. Desta forma, a ação viral redisponibiliza nutrientes essenciais para vida como carbono, nitrogênio e fósforo para a coluna d’água. Esse curto-circuito causado pela ação viral é chamado na literatura científica de “alça viral” e atua desviando nutrientes de níveis tróficos superiores para a base da teia trófica microbiana.

Screen Shot 2017-09-14 at 9.18.20 PM

Esquema simplificado mostrando como a “alça viral” causa impactos no fluxo de nutrientes em teias tróficas de ecossistemas aquáticos. Os vírus (A) causam a ruptura celular de seus hospedeiros, principalmente bactérias (B) e fitoplâncton (C), liberando carbono, nitrogênio e fósforo (CNP) de fácil assimilação na coluna d’água. Desta forma, a alça viral desvia uma parcela do carbono que alcançaria níveis tróficos superiores, como microzooplâncton (flagelados e ciliados – D), macrozooplâncton (rotíferos, cladóceros e copépodos – E) e predadores (ex.: peixes – F) e o redisponibiliza para a base das teias tróficas aquáticas representadas por bactérias e fitoplâncton (B e C). As setas pretas indicam o fluxo regular de carbono nas teias tróficas, enquanto que as setas vermelhas indicam os fluxos mediados por vírus. A largura das setas vermelhas representa grosseiramente a magnitude destes fluxos (adaptado de André Amado).

O conhecimento sobre a ecologia dos vírus em ecossistemas aquáticos avançou muito ao longo das últimas duas décadas. Sabemos por exemplo que fatores ambientais como substâncias húmicas, salinidade, concentração de nutrientes, entre outros, podem afetar a densidade de vírus. No entanto, ecossistemas aquáticos continentais, como rios, lagos e lagoas, ainda são relativamente pouco estudados, em especial aqueles localizados em regiões tropicais. Os ambientes tropicais são, sob diversos aspectos, muito diferentes dos ambientes temperados. A maior parte dessas diferenças está relacionada à maior irradiação solar incidente nos trópicos, o que afeta diretamente as variáveis ambientais, que por sua vez afetam a atividade bacteriana e acabam afetando indiretamente os vírus. Então, quais e de que maneira as variáveis ambientais estariam impactando a abundância e atividade viral em ecossistemas tropicais?

Meu trabalho de mestrado, conduzido no Laboratório de Limnologia (UFRJ) e em colaboração com o Laboratório de Hidrobiologia (UFRJ), teve como objetivo principal cobrir esta lacuna no conhecimento científico. Nós utilizamos 20 lagoas costeiras localizadas no estado do Rio de Janeiro como ecossistemas modelo para testar quais fatores ambientais eram mais determinantes para abundância e produtividade viral em sistemas tropicais. Dentre várias variáveis ambientais, descobrimos que a salinidade é o mais forte dos fatores ambientais determinando positivamente a abundância viral e bacteriana. Em outras palavras, quanto mais salino o ambiente, maior a abundância dos microrganismos. Contudo, não encontramos maior produção viral (quantidade de vírus produzido por unidade de tempo) em ambientes mais salinos. Diante deste aparente paradoxo, nossa hipótese é que este padrão ocorreu por dois motivos principais relacionados com as condições estressantes de ambientes hipersalinos:

1) vírus e bactérias estão livres da pressão de predação pois a alta concentração de sal impede a presença dos seus predadores;

2) a diversidade bacteriana é muito menor pois a alta salinidade dificulta a vida da maior parte das bactérias, assim, os poucos grupos adaptados a estas condições dominam o ambiente. Com o aumento da abundânca bacteriana, também há um aumento dos seus vírus específicos.

Fig.3_sal

Quanto maior a salinidade, maior a abundância de vírus na coluna d’água.

Muitos ambientes aquáticos estão atualmente sofrendo processo de salinização devido à alterações nos padrões de chuvas ligadas às mudanças climáticas, além de outras atividades humanas (ex.: irrigação). Neste contexto, os resultados deste estudo indicam que ambientes aquáticos suscetíveis ao aumento da salinidade tenderiam a ter redes tróficas mais simplificadas com maior abundância de vírus e bactérias.

Além destas descobertas, com a ajuda de metodologias modernas, também pudemos encontrar uma alta atividade viral, confirmando sua importante contribuição para os ciclos biogeoquímicos nestas lagoas. Este e outros resultados deste trabalho foram publicados recentemente na revista científica Microbial Ecology sob o título “Salinity Drives the Virioplankton Abundance but not Production in Tropical Coastal Lagoons”.

meu artigo

Quem se interessar mais sobre a ecologia dos vírus em águas tropicais, além deste trabalho pode também checar mais dois trabalhos (este e este) conduzidos por pesquisadores da UFJF e UFRJ em ambientes amazônicos. Boa leitura!

Publicado por: thaispimentaalmeida | 7 de setembro de 2017

Governança Ambiental e perspectivas para Políticas de Mudanças Climáticas no Brasil

Os impactos das mudanças climáticas e as respostas a estes impactos são cada vez mais conspícuos, sobretudo quando no que tange ambientes urbanos, os quais abrigam pelo menos 54% da população mundial (UN-HABITAT, 2016), além de uma diversidade de relações sociais, econômicas, políticas e ecológicas, que possuem, frequentemente, uma relação conflitiva em si. Para um impasse complexo e multifatorial, como as mudanças climáticas, são requeridos planejamentos e estratégias igualmente complexos, cuja interação e participação de diferentes segmentos societais e atores sociais faz-se necessário (BETSILL; BULKELEY, 2006). Nesse sentido, dialogar sobre as fundamentações, estruturação e papel do Estado e da Governança, principalmente uma governança ambiental, torna-se relevante para a formulação, implementação e efetividade de políticas, inclusive políticas ambientais e climáticas (DUIT et al., 2015).

O termo “Governança” apresenta sentidos próprios e polissêmicos, sendo associado não somente às vertentes das ciências políticas e sociais, mas também nos setores administrativos e corporativos. Embora apresente uma grafia semelhante à palavra “governo”, ambas as expressões tem acepções distintas. De acordo com Gonçalves (2011), tanto governança quanto governo estão envolvidos com os processos de poder e de autoridade ao longo de uma hierarquia de níveis de ação, no entanto não devem ser tratadas como sinônimos. A utilização do vocábulo “Governança” é, ainda, tão antiga quanto a de governo. Peters (2000) endossa que no século XIV, na França, era utilizada para fazer menção aos funcionários da corte. Com o passar dos séculos sua significação e utilização adquiriu refinamento, estreitando-se às ciências políticas, no que diz respeito à gestão de poder. Não obstante, foi a partir da segunda metade do século XX, sobretudo nos anos 1980, que o estudo e pesquisa acadêmica acerca desta temática foram desenvolvidos e aprimorados (PETERS, 2000). Segundo Brunnengraeber et al. (2006) se no início do novo milênio fosse realizada uma pesquisa com termos científicos mais usados, certamente “Governança” assumiria uma das primeiras posições, dado o seu destaque nos discursos acadêmicos e populares, além de assumir um interessante grau de interdisciplinaridade.

A mobilidade disciplinar e de aplicação da governança implica na multiplicidade de definições que são dadas a esta palavra. O trabalho de Weiss (2000) apresenta pelo menos oito destas definições, que refletem também uma mudança histórica e de concepções, sugerindo novas abordagens sobre descentralização política, direitos humanos, capital social e bens públicos. De forma genérica, embora as definições apresentadas tenham suas particularidades, fica evidente que alguns elementos-chave repetem-se. Logo, a governança traria arraigada a si, a gestão de poder e o controle sob a distribuição e uso de recursos – sejam eles econômicos, sociais ou naturais –;  a institucionalização dos meios pelos quais um governo é  dividido e exercido dentro da sociedade, com vistas ao fortalecimento da democracia, da participação social e da transparência nas decisões; os arranjos formais e informais entre Estado e diversos segmentos da sociedade, que culminam na administração pública; e, por fim, nos trâmites que envolvem a formulação e aplicação de políticas públicas, direitos e deveres civis (PETERS, 2000; WEISS, 2000).

A partir da segunda metade da década de 1960, através das manifestações de preocupação com as questões ambientais e ecológicas, representadas através da Conferência da Biosfera (1968), Conferência de Ramsar (1971), da criação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e da Convenção sobre o Meio Ambiente Humano, ambas em 1972, inicia-se o questionamento sobre Governança Ambiental. Consoante Fonseca e Bursztyn “Quando o conceito de governança é estendido à esfera do desenvolvimento sustentável e das políticas ambientais, emprega-se a expressão governança ambiental. Trata-se, na verdade, apenas de uma delimitação temática do conceito”. (FONSECA; BURSZTYN, 2009, pág. 20).

No cenário brasileiro, os preceitos de governança ambiental foram modificados conforme alguns eventos históricos. Um dos marcos principais ocorreu após da Lei n° 6.938/1981 (BRASIL, 1981), também conhecida como Política Nacional do Meio Ambiente. A partir desta lei, instituíram-se as diretrizes e os instrumentos acerca da ocupação, uso e manejo de recursos naturais. Assegurou-se ainda, a implementação de instituições nos níveis federal, estadual e municipal, responsáveis por fazer a gestão e fiscalização dos recursos e atividades potencialmente poluidoras. Outras características desta legislação, como a tentativa de aumentar a participação e envolvimento de diferentes segmentos da sociedade nos processos decisórios e o caráter de comando e controle dos instrumentos políticos geram ainda discussões, seja pela dificuldade ou negligência na aplicabilidade, seja pela pouca eficiência ou excesso de burocracia de seus mecanismos (WEISS, 2000; ZHOURI, 2008). A década de 1990 foi marcada por grandes modificações econômicas que repercutiram com intensidade nos cenários político e social, redesenhando o papel e atuação do Estado (RIBEIRO, 2003). Os decênios seguintes são marcados por esta mesma tendência, fortalecimento da economia e de seus representantes em detrimento à questão ambiental, utilizando-se do engodo de que o desenvolvimento econômico deveria ser prioridade, e, para isto, seria preciso sobrepor alguns interesses à morosa legislação ambiental.

Embora o escopo de governança do Brasil seja conflitivo, sobretudo no tocante ao equacionamento entre recursos naturais, economia e interesses sociais (VAN DER HOFF et al., 2015), os gestores políticos, orientados pela comunidade científica observaram uma lacuna quanto à gestão de mudanças climáticas (NUNES et al., 2016). As primeiras iniciativas institucionais no país foram implementadas em 1994, através da Comissão Interministerial de Desenvolvimento Sustentável. Em 1999, a fim de legitimar acordos climáticos discutidos em âmbito global, formou-se a Comissão Interministerial de Mudança Global do Clima. Nos anos 2000, a criação do Fórum Brasileiro de Mudanças Climática reforçou estes objetivos, otimizando o diálogo entre governo, metas estabelecidas e instrumentos políticos (VIOLA, 2002). Estimulou-se ainda, a participação civil e os diálogos setoriais, enfatizando uma característica já fortemente sugerida dentro dos mecanismos de governança ambiental internacionais (JACOBI; SULAIMAN, 2016). O aprofundamento nesta temática suscitou no Plano Nacional sobre Mudança do Clima (2008) e da Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC), regida pela Lei n° 12.187/2009 (BRASIL, 2009).

Não obstante a Política Nacional sobre Mudança do Clima pareça ser otimista e visionária, ela é por demais ampla e deficiente. É possível tecer várias críticas quanto à maneira como esta política articula-se com outras de hierarquia menor, na integração de planos setoriais ou mesmo quanto às abordagens no retardo às mudanças climáticas. Embora alguns dos princípios que norteiem a PNMC sejam aqueles já sugeridos no âmbito internacional (BRASIL, 2009), há casos de divergência entre as propostas desta política e o plano de desenvolvimento nacional, intensificando os questionamentos acerca do real interesse na tentativa de conciliar estas áreas. Muitas das lacunas observadas estão ligadas não somente a problemas de planejamento e integração, bem como ao curto período de vigência da legislação – que ainda não completou dez anos – e à fase de desenvolvimento e readequação de muitos mecanismos (BICHARA; LIMA, 2012). É evidente que a instituição da PNMC, ainda que com todos os reveses, pode ser entendida como um considerável marco na governança ambiental brasileira, que se propôs a refletir e dialogar sobre as mudanças climáticas. Cabe, agora, à bancada competente, aprimorar metas, planos, fiscalização, bem como fomentar a articulação com governos estaduais e municipais.

Bibliografia Citada

BETSILL, M. M.; BULKELEY, H. Cities and the Multilevel Governance of Global Climate Change. Global Governance, v. 12, p. 141–159, 2006.

BICHARA, J. P.; LIMA, R.l A. Uma análise da política nacional sobre mudança do clima de 2009. Cadernos de Direito, v. 12, n. 23, p. 165-192, 2012.

BRASIL Lei n° 6.938. Lei da Política Nacional do Meio Ambiente. 1981. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L6938.htm&gt;. Acesso em: 24 ago. 2017.

BRASIL Lei n° 12.187. Política Nacional sobre Mudança do Clima. 2009. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/lei/l12187.htm >. Acesso em: 24 ago. 2017.

BRUNNENGRAEBER, A.; DIETZ, K.; HIRSCHL, B.; WALK, H. Interdisciplinarity in Governance Research. GARNET Working Paper: n. 08/06, 2006.

DUIT, A.; FEINDT, P. H.; MEADOWCROFT, J. Greening Leviathan: the rise of the environmental state? Environmental Politics, v. 25, n. 1, p. 1-23, 2016.

FONSECA, I. F.; BURSZTYN, M. A banalização da sustentabilidade: reflexões sobre governança ambiental em escala local. Sociedade e Estado, v. 24, n. 1, p. 17-46, 2009.

GONÇALVES, A. F. Regimes internacionais como ações da governança global. Meridiano 47, v. 12, n. 125, p. 46, 2011.

JACOBI, P. R.; SULAIMAN, S. N. Governança ambiental urbana em face das mudanças climáticas. Revista USP, n. 109, p. 133-142, 2016.

NUNES, F.; RAJÃO, R.; SOARES-FILHO, B. Boundary work in climate policy making in Brazil: Reflections from the frontlines of the science-policy interface. Environmental Science & Policy, v. 59, p. 85-92, 2016.

PETERS, G. Governance and comparative politics. In J. Pierre (ed.). Debating Governance. Oxford: Oxford University Press, pp. 36–53.

RIBEIRO, M. R. R. Um cenário da gestão pública no Brasil. In: Congreso Internacional del clad sobre la reforma del estado e de la administración pública, 8, oct. 2003, Panamá, p. 28-31.

UN-HABITAT. World Cities Report 2016, Urbanization and Development: Emerging Futures. Nairobi: 2016. Disponível em: <http://wcr.unhabitat.org/wp-content/uploads/2017/02/WCR-2016-Full-Report.pdf >.  Acesso em: 26 jul. 2017.

VAN DER HOFF, R.; RAJÃO, R.; LEROY, P.; BOEZEMAN, D. The parallel materialization of REDD+ implementation discourses in Brazil. Forest Policy and Economics, v. 55, p. 37-45, 2015.

VIOLA, E. O regime internacional de mudança climática e o Brasil. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 17, n. 50, p. 25-46, 2002.

WEISS, T. G. Governance, good governance and global governance: conceptual and actual challenges. Third world quarterly, v. 21, n. 5, p. 795-814, 2000.

ZHOURI, A. Justiça ambiental, diversidade cultural e accountability. Desafios para a governança ambiental. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 23, n. 68, p. 97-107, 2008.

Older Posts »

Categorias

%d blogueiros gostam disto: