Olá caros leitores, gostaria de compartilhar com vocês minha experiência em vivenciar um evento científico sobre recuperação de áreas degradadas (RAD). Ao meu ver essa área está intimamente relacionada com o mundo da limnologia e diversas outras áreas de ecologia aplicada. Especialmente nos últimos 30 anos para cá em escala nacional, um dos maiores desafios dos profissionais ligados à área de ciências ambientais, tem sido identificar e solucionar problemas ambientais devido as fortes alterações ecossistêmicas provocadas pelas atividades antrópicas. Tudo isso diante do amadurecimento mundial frente às modificações da qualidade dos recursos naturais e da alarmante perda de biodiversidade. Afinal, fora a importância ecológica, onde nem todos os setores têm interesse, o estado do planeta e a disponibilidade de recursos naturais são fundamentais para a manutenção da vida humana e o andamento dos processos econômicos em um cenário ambiental semelhante ou melhor que o de hoje para as gerações atuais e futuras.

    No entanto, como vivenciei o congresso junto com a Maria Silvina, também doutoranda do laboratório onde realizo meu doutorado, gostaria de convidá-la para, através de um formato de diálogo escrito e descontraído, expressarmos nossos diferentes olhares sobre a participação no simpósio.

MOTIVOS QUE NOS LEVARAM AO SIMPÓSIO

       RODRIGO: Diante da necessidade de mudar meu enfoque no doutorado, devido a dificuldades orçamentárias para realizar o plano anterior, encontrei um novo desafio junto com meu orientador Prof. Marcos Paulo e o pequeno e recente grupo de estudo de RAD do qual fazemos parte em Macaé. O novo desafio girava em torno das possíveis soluções, inicialmente em escala experimental, para um acidente ambiental ocorrido em um empreendimento próximo a uma área de monitoramento e consultoria ambiental dos laboratórios de limnologia e ictiologia da UFRJ. O novo desafio proposto pelo Prof. Reinaldo, diante de seu olhar experiente a respeito de ações que podíamos desempenhar em parceria com outros colegas acadêmicos e com a empresa responsável pelo empreendimento, caracteriza-se como um trabalho onde devemos unir diferentes saberes e métodos eficazes para desenvolver um trabalho de recuperação de um pequeno riacho degradado devido a atividades de mineração. Sendo assim, achei a proposta do simpósio de RAD ótima para tirar dúvidas sobre modelos matemáticos, que inicialmente pensamos em aplicar, aguçar meu pensamento crítico sobre o tema, e trazer novas ideias eco-amigáveis para enriquecer nossas discussões internas. Acho que foi mais ou menos isso, e você Silvina, o que te motivou?

       SILVINA: Inicialmente, gostaria de comentar que meu projeto de doutorado se baseia no desenvolvimento de um índice multimétrico como instrumento para subsidiar programas de biomonitoramento de riachos (igarapés) amazônicos, utilizando a comunidade de macroinvertebrados bentônicos para tal fim. Dentro deste contexto, vejo o meu trabalho mais orientado para a ecologia aplicada que para a ecologia teórica devido a proposta do mesmo, gerar como resultado, uma ferramenta importante para fazer uma avaliação rápida e eficaz destes ambientes. Porém, esta mesma ferramenta poderia ser útil como indicadora de acompanhamento das possíveis mudanças atingidas por técnicas usadas em RAD nestes ambientes. Assim, os temas relacionam-se, onde técnicas de recuperação de ambientes aquáticos podem ser muito beneficiadas por indicadores de acompanhamento que facilitem avaliar estas mudanças. Neste sentido, é essencial poder entender o que são os trabalhos de RAD e como podemos inserir estas ferramentas nos mesmos. Sendo assim, concluo que foi importante comparecer no simpósio sobre esta temática, com proposta bem distinta dos eventos científicos que participei até o dia de hoje. Após três Congressos Brasileiros de Limnologia (CBL), entre outros, nos permitimos explorar uma nova área, mais aplicada, mais voltada para a resolução de problemas que a entender o problema. É uma área à qual não podemos fugir, porque é aí que hoje podemos encontrar a maioria dos olhares desejosos por soluções que consigam dar uma resposta a muitos os erros cometidos no passado, sendo que alguns continuam no presente e se estenderão para o futuro. Os programas de RAD, na minha perspectiva, estão sendo algo como a máquina do tempo de “De Volta para o Futuro”, numa tentativa incansável de atingir o que uma vez já foi, ou uma condição semelhante.

FORMATO E PARTICIPANTES DO SIMPÓSIO

       RODRIGO: O formato do simpósio no âmbito de sessões de pôster, apresentações orais de palestrantes convidados, mini palestras de estudantes e cursos de curta duração com ementas relacionadas ao tema do evento, foi semelhante ao que já vi em outros eventos científicos. A qualidade do material apresentado e o conhecimento técnico dos palestrantes foram excelentes. O que ficou um pouco a desejar foi a organização do tempo para tudo fluir de forma harmoniosa, mas mesmo assim, insuficiente para estragar os pontos positivos do evento.

         Tenho que destacar uma característica que me chamou muito a atenção, e eu diria que talvez tenha sido o maior diferencial deste evento em relação aos outros eventos científicos que já participei. Foi a respeito da distribuição de palestrantes para o setor da academia, de empresas de consultoria ambiental, empresas de setores variados em busca de soluções para seus problemas ligados ao meio ambiente e de órgãos públicos ambientais. Os acadêmicos com diversas linhas de pesquisa interessantes voltadas à problemas que demandam atenção ambiental a nível nacional, como aqueles originados das áreas de agropecuária, mineração, óleo e gás, e urbanização. As empresas de consultoria apresentaram técnicas eficazes e experiências em situações diversas frente a ecossistemas degradados. As grandes empresas e grupos exploradores de recursos naturais mostraram suas inovações nos campos de pesquisa e aplicação de medidas de prevenção, recuperação e suas demandas por mais conhecimento frente a seus constantes desafios ambientais. Já os órgãos públicos, destacaram seus desafios com acidentes ambientais em relação a redução na qualidade dos solos, do ar e principalmente da água e a manutenção destes recursos para o uso humano e para a preservação da biodiversidade. Estas características de diferentes partes interessadas, tornou as discussões extremamente ricas e complementares a respeito da conservação de ecossistemas e a respeito da identificação, diagnóstico e solução de acidentes ambientais.

NOSSOS INTERESSES ESPECÍFICOS

       RODRIGO: Meus principais interesses neste evento científico foram: i) procurar subsídios para realizar a modelagem de escoamento superficial e assoreamento na minha área de estudo do doutorado; e ii) ter um contato orientado e mais profundo com as técnicas de engenharia natural. Meu primeiro interesse foi sanado através de uma palestra e uma importante conversa com pesquisadores da UNB, o que me levou a repensar sobre este capítulo na tese. Acho que o maior esclarecimento para mim, foi ter a sensibilidade de entender que com nossa escassez de dados históricos no desafio de propor formas de avaliação de impacto na minha área de estudo, eu não poderia prosseguir com a elaboração do modelo. E sim…, um evento científico serve para nos dar asas e também para colocar nossos pés no chão. O que é excelente em relação ao amadurecimento científico.

         No entanto, em relação ao segundo interesse, minha recompensa me deixou muito entusiasmado através de um minicurso sobre bioengenharia, ministrado pela pesquisadora e doutoranda Rita Sousa, do grupo de pesquisas em engenharia natural da UFSM. Percebi que é possível fazer um projeto de RAD através da manipulação de elementos naturais (pedras e vegetais) como material de construção e estabilização geotécnica e hidráulica de riachos e taludes degradados. Entendi que estes elementos podem ser utilizados ainda como enriquecedores de habitats, tornando-os mais heterogêneos ou possibilitando recuperar a heterogeneidade de habitats em ecossistemas que a perderam. E finalmente descobri que, apesar da escassez de trabalhos sobre isso no Brasil, no nosso país existem alguns grupos que trabalham com isso há anos e que podem ser potenciais colaboradores numa pesquisa desta natureza. Sem dúvida, acho que foi o divisor de águas para elaborar o projeto de doutorado de forma mais ajustada ao ambiente que vou lidar junto ao meu grupo de pesquisa, com o problema ambiental que estamos enfrentando e com o que podemos fazer em colaboração com outros pesquisadores. O networking com a palestrante e com outros alunos foi muito interessante e sugiro a leitura do livro dos professores Miguel Durlo e Fabricio Sutilli (2012) intitulado Bioengenharia – Manejo Biotécnico de Cursos de Água. E você Silvina, o que extraiu daquele curso bacana voltado para área de legislação e áreas contaminadas?

          SILVINA: O meu interesse no congresso foi, principalmente, entender os projetos de RAD desde sua base. Por isso, além de participar da maioria das palestras, apresentação de pôster e trabalhos orais, decidi também participar de um dos minicursos, o qual estava baseado na temática “Gerenciamento de Áreas Contaminadas em Áreas de Mineração”. Partindo do princípio que os riachos amazônicos nos quais baseio o meu estudo de doutorado recebem o impacto direto e/ou indireto de atividades de mineração, no escopo de dois projetos de biomonitoramento para avaliar a influência das minerações sobre estes ambientes, achei muito pertinente a realização deste minicurso. É essencial conhecer o marco da legislação brasileira em relação à exploração dos recursos minerais no país. Saber quais são as normativas e leis federais que regulamentam esta atividade, quais são as medidas a serem tomadas em casos de degradação ambiental decorrente da própria atividade ou de acidentes que possam vir a acontecer, e quais são as grandes lacunas em relação a estes temas dentro da legislação. Tudo isso é de grande importância para quem trabalha e desempenha atividades em ambientes sob atividades de mineração. Outro detalhe é que o curso foi ministrado pelo membro de uma empresa de consultoria ambiental especializada na área de planejamento territorial, licenciamento e gestão ambiental de empreendimentos e gerenciamento de áreas contaminadas, o que me passou uma visão bem completa e estratégica do nosso papel como biólogos na área voltada ao mercado privado.

CIDADE DO EVENTO: CURITIBA

         SILVINA: O congresso foi realizado na cidade de Curitiba (PR), mais especificamente na Universidade Federal do Paraná. Mas nem tudo quando vamos para um congresso é participar do congresso, né? É importante aproveitar estes encontros para conhecer o local onde estamos, a história e a cultura do mesmo. Conhecer e aprender de tudo aquilo que possa nos enriquecer, não só em nível de conhecimento, senão também de espírito. Então além de irmos todo dia para o congresso e assistirmos as melhores palestras e mesas redondas, também fizemos um pequeno tour pela linda Curitiba.

      Para quem não conhece Curitiba, esta é a capital do Estado de Paraná, e a mesma possui grandes belezas naturais e arquitetônicas para serem visitadas e admiradas. Na cidade podemos encontrar o seu famoso cartão postal, o Jardim Botânico com seu jardim europeu e a estufa de vidro, cheio de plantas no seu interior. Além disso, visitamos a Ópera de Arame, um teatro de três andares feito só de canos e arames (por isso de “arame”), que se encontra rodeada por um lago artificial, sobre o qual passa uma ponte para poder ingressar na Ópera. Também visitamos o famoso e interessante museu do “olho”, desenhado pelo famoso arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer, e tentamos entender várias das exposições que estavam acontecendo. Outro ponto visitado na cidade, já menos turístico, mas de grande interesse para um sulino, foi o Museu Paranaense ou também conhecido como “Museu do Mate”, que no seu interior não tem só mate, senão a vasta história de uma das famílias mais importantes de Curitiba. E como não podia faltar para dois biólogos, visitamos o Zoológico de Curitiba, e debatemos a necessidade (ou não) dos mesmos para a educação ambiental da sociedade. Mas isso não foi tudo, também visitamos outras áreas da UFPR, fora as salas do simpósio, e descobrimos e apreciamos essa linda universidade, com uma história única e muito reconhecida em muitas das suas áreas, principalmente por alguns cursos como Engenharia Florestal, também envolvida fortemente com os projetos RAD.

        RODRIGO: Adorei o clima e organização de Curitiba. O transporte público funciona de forma muito eficiente, sem atrasos, sem superlotação, um exemplo de governança neste sentido. As vias muito bem preservadas e sinalizadas, pelo menos no centro histórico, nos arredores do Jardim Botânico e do Zoológico, e no caminho para o aeroporto. O tratamento do curitibano em vários serviços da cidade é fantástico, me pareceu um povo muito cortês e solícito. Sobre o tour na cidade, além de ter adorado os passeios que a Silvina já mencionou, também achei excelente a oportunidade de visitar o Museu Paranaense com uma história riquíssima e com um destaque muito interessante para tribos indígenas da região. Foi uma viagem excelente do ponto de vista profissional e cultural.

       Aproveito para agradecer todo o apoio do laboratório e estímulo dos professores para participarmos do evento. Agradeço a você leitor pela sua atenção e estamos aguardando ansiosamente seu comentário. Um abraço e até logo.

Publicado por: casanovacla | 6 de julho de 2017

Carbono… Carbono…Carbono

Você sabia que o ciclo do carbono (C) é um dos mais importantes ciclos biogeoquímicos da natureza, né? Não, e não é só devido ao fato de ser nesse ciclo que se engloba a regulação do gás carbônico (CO2). Dentro deste complexo ciclo biogeoquímico há um pequeno grande compartimento onde a matéria orgânica, rica em C, é metabolizada pelo compartimento biótico, gerando produtos mais ou menos lábeis e reativos. Nos ambientes aquáticos, um destes produtos é o carbono orgânico dissolvido (COD) e suas frações, igualmente importantes para o funcionamento dos ecossistemas aquáticos.

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Figura ilustrando o ciclo do carbono em ambientes aquáticos. Modificado de Esteves et al. (2011) e disponibilizado por André Amado

Em um espectro ainda mais amplo, a importância do ciclo do carbono é um aspecto- chave da estruturação de teias alimentares e do fluxo de energia em ecossistemas aquáticos (Moss 1980). A ciclagem de carbono por compartimentos planctônicos, por via direta ou indireta (via microbial-loop – Azam et al., 1983) afeta a transferência de energia entre os níveis tróficos. O metabolismo destes compostos orgânicos dissolvidos, provindos de fontes autóctones e alóctones, domina os fluxos de matéria e energia, e devido ao seu preponderante (porém lento) uso, estes recursos fornecem estabilidade inerente ao ecossistema (Wetzel 2001).  Um dos constituintes majoritários do COD são as substâncias húmicas (SH), elas podem ser citadas como uma fração majoritária (50-80% da matéria orgânica dissolvida) em ecossistemas de água doce (Wetzel 2001). Embora historicamente as SH terem sido consideradas ecologicamente inertes, essas substâncias orgânicas atualmente são consideradas “forças” ecológicas, atuando desde o nível individual até o nível ecossistêmico (Steinberg et al. 2006).

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Estrutura proposta de uma molécula de ácido húmico. Disponível aqui

Efeitos diretos e indiretos destes compostos são esperados na coluna d’água, como redução do pH, sombreamento e alteração da teia alimentar. E, sabe-se ainda, que as SH interferem com as vias bioquímicas de compostos de interesse, como proteínas, carboidratos e lipídios (Steinberg 2003). E, embora o consumo por organismos heterotróficos (via alça microbiana) seja um papel ecológico importante (Farjalla et al. 2009), as evidências de que as SH são absorvidas por organismos e interagem com os constituintes bioquímicos e suas vias de sinalização (Steinberg et al. 2006; Suhett et al. 2011) são constantes e factuais.

Dentro dos lipídios, os ácidos graxos (AG) são importantíssimos na nutrição do zooplâncton (organismos chave na cadeia alimentar aquática). Uma vez que o zooplâncton pode ser limitado pelo conteúdo energético de seus alimentos, os lipídios (especialmente os AG), com seu alto teor calórico, merecem atenção especial por serem fonte de energia preferencialmente compondo reservas em organismos planctônicos (Goulden & Place 1990). Os ácidos graxos (AG) são ácidos carboxílicos que têm uma longa cadeia alifática e são um grupo muito heterogêneo.  Assim, AG particulares têm diferentes formas de obtenção e papéis específicos no metabolismo dos consumidores primários (MüllerNavarra, 1995).

Novas e excitantes pesquisas foram conduzidas nos últimos anos relacionando o uso de AG biomarcadores e as respostas das dietas de organismos aquáticos às diferentes condições ambientais. Revisões atuais, como de Twining et al. (2016), dão atenção intensiva especificamente sobre a pesquisa de AG altamente insaturados (HUFAs), visando o uso desta metodologia e o que resta ainda conhecer.

É na junção destes aspectos importantes – a nutrição de organismos planctônicos, qualidade do recurso disponível para consumidores aquáticos e o efeito do COD e sua fração, as SH – que foi desenvolvida a tese intitulada “ORIGEM E QUALIDADE DO CARBONO DISPONÍVEL NO SESTON PARA A COMUNIDADE ZOOPLANCTÔNICA AO LONGO DE GRADIENTES HÚMICOS: UMA ABORDAGEM EXPERIMENTAL E DE CAMPO”. A tese desenvolvida por mim ao longo dos últimos 4 anos (e meio) foi orientada pelo Prof. Reinaldo Bozelli da UFRJ e co-orientada pela Profa. Dörthe Müller-Navarra da Universidade de Hamburgo, na Alemanha. Defendida no dia 29 de maio de 2017, a tese buscou identificar os principais efeitos do COD para consumidores primários aquáticos, tanto por meio experimental quanto pela análise de dados de campo, provindos das lagoas costeiras do PARNA de Jurubatiba.

De modo a testar a hipótese de que com o incremento da concentração de COD alteraria a qualidade (medida como concentração e composição de AG) do alimento disponível ao zooplâncton, a tese foi exposta em três capítulos: o primeiro, uma revisão bibliográfica que ressalta a ausência de estudos em ambientes com altas concentrações de carbono e a falta de informação relacionada à qualidade nutricional do alimento e às concentrações de COD. O segundo capítulo, empiricamente, demonstra os efeitos diretos do COD sobre a quantidade e composição de AG em consumidores primários (Daphnia pulex) quando alimentados com duas fontes alimentares com qualidade distintas. E, o terceiro, procura elucidar a relação entre qualidade do alimento disponível no seston e variáveis ambientais ao longo de um gradiente natural de COD em ambientes costeiros.

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Imagem do ambiente Atoleiro estudado no capítulo 3 da tese – cor escura da água ilustra altíssimas concentrações de COD

De maneira geral, os resultados alcançados por esta pesquisa possibilitaram ilustrar que o COD e as SH são responsáveis por moldar comunidades aquáticas, ora agindo diretamente (como agente estressor), ora agindo indiretamente (alterando o meio físico e químico circundante) sobre os diferentes compartimentos bióticos.

Frente aos resultados, devemos então ponderar que: para melhor entendermos como alterações no uso da terra e cenários previstos de mudanças climáticas irão alterar processos ecossistêmicos e cadeias alimentares aquáticas, devemos nos atentar também aos efeitos singulares de recursos terrestres e alterações na qualidade e quantidade destes recursos disponíveis para consumidores aquáticos. Baseado no que foi apresentado, a falta de informação acerca de ecossistemas tropicais é preocupante enquanto procuramos buscar teorias unificadoras de processos regulatórios.

Se interessou?? Quer trocar uma idéia? É só me procurar por aqui mesmo 😉

Publicado por: marianabruck | 22 de junho de 2017

As atividades desenvolvidas durante o curso de formação de professores

De junho a agosto de 2016, o grupo de pesquisa em Educação Ambiental e Ensino de Ciências (GPEAEC) do laboratório de limnologia e orientado pela professora Laísa Freire, realizou o curso de formação de professores “Mudanças climáticas na pesquisa em ecologia e no ensino de ciências”, em que buscávamos por meio dos processos de diálogo uma formação de professores críticos, participativos e capazes de construir sua identidade por meio de espaços de discussão em relação ao meio científico e suas práticas em sala de aula.

O curso gerou um encontro entre pesquisadores em ecologia, pesquisadores em ensino de ciências, professores do ensino de ciências da Rede Pública do Ensino de Macaé e licenciandos em ciências biológicas de diferentes instituições públicas, em uma relação dialógica para a compreensão, aprofundamento do tema das mudanças climáticas e estabelecimento de relações entre pesquisa e ensino.

O curso de formação de professores teve duração de 20 horas presenciais e foi desenvolvido em cinco encontros. Durante o curso foram realizadas atividades teóricas e práticas, de modo a estabelecer trocas entre licenciandos/professores, e dos mesmos, com os pesquisadores. Estas atividades tiveram como objetivos: discutir os desafios da questão ambiental e das causas consequências das mudanças climáticas; discutir sobre as controvérsias sociocientíficas das mudanças climáticas e apresentar as relações entre educação ambiental e educação em ciências; discutir sobre as mudanças climáticas no contexto escolar e ao final elaborar uma sequência didática para tratamento didático do tema mudanças climáticas na escola básica.

Enfatizamos aqui as atividades realizadas em cada encontro e seus respectivos objetivos:

1º encontro)

  •  Atividade da teia: promover o conhecimento mútuo entre os participantes (pesquisadores e professores);
  • Atividade do aquário: possibilitar que os participantes (professores e pesquisadores) discutissem sobre o diálogo e a importância da interação entre professores-pesquisadores para processos formativos;
  • Introdução ao tema das mudanças climáticas: introduzir conceitos sobre as mudanças climáticas por meio de uma apresentação expositiva;

2º encontro)

  • Atividade do júri simulado: promover a discussão sobre as controvérsias sóciocientíficas no tema mudanças climáticas entre os participantes (pesquisadores e professores);
  • Atividade da trilha e cartografia social: sensibilizar os participantes sobre as diferentes interpretações e configurações do mundo e como de forma participativa de intercâmbio e diálogo se pode construir um conhecimento integral do território e as realidades sócio ambientais;

3º encontro)

  • Dinâmica de grupos sobre a questão ambiental no contexto das mudanças climáticas: criar espaço para que os participantes em grupo possam dialogar sobre a questão ambiental e as causa-consequências relacionadas com as mudanças climáticas;
  • Atividade textual sobre as mudanças climáticas na pesquisa em Ecologia: estimular os professores a expressarem o que compreenderam sobre as mudanças climáticas na pesquisa em Ecologia;

4º encontro)

  •  Atividade de diálogo sobre as mudanças climáticas no contexto escolar: possibilitar o diálogo entre pesquisadores e professores sobre as mudanças climáticas no contexto escolar;
  • Construção conjunta da sequência didática sobre as mudanças climáticas no contexto escolar: promover a construção conjunta entre pesquisadores e professores (assim como de um grupo só de professores e só de licenciandos) de uma sequência didática sobre o tema mudanças climáticas no contexto escolar;

5º encontro)

  • Construção conjunta da sequência didática sobre as mudanças climáticas no contexto escolar: Finalização da elaboração e apresentação da sequência didática.

 

 

 

Destacamos que o curso de formação de professores foi uma proposta pedagógica para o desenvolvimento de duas pesquisas de mestrado, as quais são integrantes de um projeto maior do laboratório de limnologia, “Questões socioambientais na sociedade contemporânea: implicações e significados na formação docente em ciências”.

Acreditamos que o curso de formação de professores e as duas dissertações desenvolvidas a partir do cenário empírico do curso, serviram como um ponto de partida para o debate das mudanças climáticas dentro do ensino de ciências, uma vez que podemos considerar que as mudanças climáticas é um tema bastante discutido no meio científico e muitas vezes apresentada pela mídia nos rádios e televisões, porém ainda se encontra pouco debatida no ensino de ciências, tanto no que diz respeito à formação inicial, quanto na formação continuada de professores.

 

Referências:

BENAC, R. M. Diálogo de saberes sobre o tema Mudanças Climáticas: Uma proposta de interação entre docentes em ciências e pesquisadores em ecologia na perspectiva da Educação Ambiental. 2017. 130 f. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais e Conservação, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Macaé, 2017.

GONÇALVES, M.B. Concepções de licenciandos de ciências biológicas e professores de ciências sobre mudanças climáticas: relacionando educação ambiental e educação em ciências a partir da abordagem de controvérsias sóciocientíficas. 2017. 90 f. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências e Saúde, Núcleo de Tecnologia Educacional para a Saúde/Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2017.

Publicado por: amandavitrio | 16 de junho de 2017

Uma breve reflexão sobre como as pessoas veem as plantas no dia de hoje

Todos nós sabemos da imensa importância que as plantas têm para a nossa sobrevivência. Elas constituem as florestas, proporcionam condições para o estabelecimento de outras espécies vivas e são nossa principal fonte de alimentos, medicamentos e inclusive respiramos por conta delas. Eu poderia ficar três dias listando o quanto as plantas são importantes para a nossa vida, mas muito além disso, as plantas também são parte da nossa história e cultura.  Porém, atualmente, devido a intensa e acelerada urbanização ocorrente nos últimos anos, nós cada vez mais estamos perdendo o contato com as plantas, e assim apagando uma parte muito importante da história do nosso desenvolvimento.

Poucas pessoas sabem, mas existe uma ciência que estuda justamente esta questão de como a humanidade se relaciona com as plantas, cujo termo é etnobotânica. Segundo, Heinrich et al. (2004) a etnobotânica é a ciência que estuda a relação entre humanos e plantas em toda sua complexidade, e é baseada geralmente na observação detalhada e estudo do uso que uma sociedade faz das plantas, incluindo as crenças e práticas culturais associadas com este uso.

Atualmente não vemos mais as plantas com os olhos do passado e sim com os olhos do futuro. Mas que futuro é este? Um futuro dominado por um presente chamado indústria. Devido a intensa urbanização e modificação da cultura, fortemente influenciada pela expansão da indústria, as plantas passaram a ser vistas pela grande maioria da população como produtos e não mais como seres vivos. O nosso olhar sobre as plantas atualmente é limitado, principalmente nos grandes centros urbanos. Elas são vistas como princípios ativos para a produção de medicamentos pela indústria farmacológica e cosmética, e fontes lucrativas para a indústria alimentícia. Exemplos disso são que é cada vez mais comum conhecermos o efeito do princípio ativo de uma planta, e não reconhecermos a mesma. Vemos os vegetais picados cheios de agrotóxicos em embalagens bonitas no supermercado, mas não relacionamos à uma planta. E isso cada vez mais tem causado a perda cultural em cima das mesmas, além de danos biológicos sobre a sua diversidade, que além do mais, é um tema bastante interessante para discutirmos posteriormente.

Mas voltando ao foco do post de hoje, historicamente, devido à grande influência da religião, nós ocidentais nunca tivemos um vínculo muito aprofundado com a natureza como outras culturas. Mas é inegável que apesar disso, nossa relação com as plantas já foi mais próxima do que é atualmente. Hoje em dia, perante a grande parte da sociedade as plantas são invisíveis ou objetivadas. Perderam o cheiro e o sabor e foram colocadas em comprimidos, ou passaram a ser vendidas em embalagens caras nos supermercados. Enquanto no passado, nossos avós cultivavam hortas e plantas medicinais para curar as dores do corpo.

A verdade é que as plantas não perderam a importância. Elas ainda são a base fundamental para a nossa sobrevivência, porém, cada vez mais, o sistema capitalista investe em meios de torná-las produtos e nós aceitamos e alimentamos isso cada vez mais. Está é a grande diferença entre a nossa relação com as plantas hoje e a relação que tivemos em tempos atrás. Enfim, posso estar pensando demais, mas quem é que sabe onde é que isso vai nos levar?

Autora: Amanda Batista Vitório

Publicado por: carolandradesilva | 8 de junho de 2017

Estudo de caso da região de Campos dos Goytacazes

Esse estudo foi realizado pelo grupo de pesquisa em Educação Ambiental e Ensino de Ciências do laboratório de Limnologia orientado pela professora Laísa Maria Freire. Dada à situação mundial de desigualdade social, política e econômica, é necessário discutir os impactos das indústrias, que crescem continuamente afetando ao meio ambiente e a qualidade de vida da população. Sendo assim, realizamos um estudo de caso a partir da análise de dados pré-existentes de projetos de Educação Ambiental e de formação de Educadores Ambientais realizados na região de Campos dos Goytacazes, como o programa de Educação Ambiental da Bacia de Campos (PEA-BC) e o Projeto Pólen.

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Figura 1: Localização do município de Campos – RJ Fonte: IBGE

Buscamos compreender e explicar como a ação exploratória de petróleo nos espaços marinhos atinge uma comunidade na região de Campos de Goytacazes (figura1). Também queremos compreender como a implementação de projetos de formação de Educadores Ambientais na região promove condições para profissionais, ligados à educação formal e não formal, construírem e resgatarem saberes, metodologias e valores necessários para o desenvolvimento de ações mobilizadoras e de cooperação junto à comunidade. Para isso, nos apoiamos em premissas da Educação Ambiental que entendem que os processos educativos devem ocorrer de forma crítica comprometida com a emancipação de indivíduos e coletivamente.

Motivação

A escolha do polo de Campos foi devido à influência direta das atividades de exploração de petróleo e gás na Bacia de Campos, que é a maior província petrolífera do Brasil, responsável por mais de 80% da exploração nacional desse recurso.

 Metodologia

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 Figura 2 – Esquema demonstrando as etapas da metodologia utilizada no trabalho.

Para chegarmos aos resultados realizamos uma análise qualitativa e descritiva dos documentos e entrevistas, para identificar, analisar e interpretar os dados coletados. Esses processos envolvem extrair significados de textos e imagens.

Consequências da ocupação do espaço marinho pelas empresas petrolíferas

A partir das análises, encontramos dois pontos que são mais afetados pela ocupação do espaço marinho, os pescadores e o ecossistema. Os pescadores do município têm sua atividade econômica principal, a pesca, reduzida devido ao tráfego de embarcações – que afugentam os animais – e também à diminuição de áreas de pesca devido às áreas de exclusão de plataformas. Além disso, em função da ocupação por parte das petrolíferas, o ambiente fica vulnerável à possíveis problemas relacionados à vazamentos de petróleo dos navios e das tubulações e contaminação com o lançamento de água utilizada na lavagem de tanques de petróleo dos navios.

Conclusão

A partir do levantamento dos atores sociais envolvidos nesse problema ambiental, que são principalmente moradores, empresas pública e privadas e prefeitura, averiguamos as estratégias de enfrentamento.

Estratégias de enfrentamento

Em relações as empresas, as estratégias foram apenas no campo simbólico e das representações sociais.

Contudo, por parte da população, através das dinâmicas e oficinas que tentavam desenvolver um sentimento de pertencimento dos moradores da região, e também tentavam estimular um olhar crítico sobre as questões ambientais da comunidade, foram verificadas algumas ações concretas indicando mobilizações junto à comunidade que podem contribuir para o encaminhamento de questões socioambientais, como por exemplo, abaixo assinados para busca de melhoria da qualidade de vida.

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Figura 3 – Mural feito pelas crianças da comunidade. Fonte: Projeto Pólen.

Referências Bibliografias

Bozelli R.L, Freire L.M, Ferreira A., Bernardo C.F. (2010). Curso de Formação de Educadores Ambientais: A experiência do Projeto Pólen. NUPEM/ UFRJ.

Relatório Final do Diagnóstico Participativo do PEA-BC. Referente ao plano de Trabalho para continuidade do Diagnóstico Participativo da Bacia de Campos – PEA-BC.

Publicado por: Laboratório de Limnologia/UFRJ | 3 de junho de 2017

A importância de um projeto de pesquisa para um aluno de graduação

Vivemos em uma era que grande parte dos jovens sente-se precionados a fazer um curso superior. Porém, a maioria dos que ingressam nas universidades ainda não tem certeza sobre a escolha do curso que fizeram. Há um grande número de relatos informais sobre a superficialidade durante a graduação, isso faz com que os alunos vão para a faculdade apenas sentindo-se na obrigação de cursar disciplinas obrigatórias e não se envolvem com projetos  de pesquisa e extensão. Até mesmo no final do curso muitos ainda não possuem ideia da dimensão do curso que fazem e a amplitude das áreas que são capazes de atuar, gerando profissionais despreparados para o mercado de trabalho devido a pouca experiência.

Diante desse problema observamos a importância de uma experiência externa às disciplinas obrigatórias. O fato é que a maioria dos alunos iniciantes no curso de Ciências Biológicas não sabem, mas a participação em um projeto de pesquisa é uma oportunidade de não só se encontrarem quanto alunos, mas também de definir caminhos pelos quais podem trilhar profissionalmente e assim verem mais sentido e aplicabilidade nas matérias obrigatórias da graduação.  Isso foi o que aconteceu comigo. Quando chegou a hora de prestar vestibular, eu como muitos, não tinha certeza se esse era o curso que me faria realizada.  Me inscrevi no curso de Biologia, as aulas começaram, mas eu não via muito sentido no porque estudar todas aquelas matérias tão aleatórias, o que me deixava muito desmotivada. O primeiro período acabou e eu resolvi buscar um estágio. Nesse ponto eu não sabia muito bem com o que queria trabalhar. A primeira tentativa foi falha. Eu não me identifiquei com a linha de pesquisa e acabei procurando por um outro estágio pouco tempo depois. Foi quando conheci o Laboratório de Limnologia.

O laboratório me trouxe muitas oportunidades, entre elas trabalhar com pessoas mais experientes (o que é muito vantajoso para um aluno de graduação), também pude aprender no trabalho de campo e nas análises de laboratório, o que me proporcionou realizar atividades na Amazônia.

Imagem 1: Atividade de campo no Lago Batata e triagem em laboratório

Esta foi uma das melhores experiências da minha vida, pessoal e profissionalmente, poderia até escrever sobre isto em um outro post, pois ainda há muito a ser dito,  mas voltando ao assunto. Foi neste momento que eu tive a certeza de que fiz a escolha certa, e a partir daí,  pude ver a graduação com outros olhos porque tinha encontrado algo que eu algo que eu amo fazer. Então,  todas as disciplinas em que eu não via sentido, passaram a valer a pena porque me ajudaram a chegar até ali. Desta forma, a meu ver,  a inserção em um projeto de pesquisa ou extensão,  é um divisor de águas na vida de um aluno, porque mostra os caminhos pelos quais ele pode andar e se encontrar além do obrigatório, e mais, mostra que ele pode chegar muito mais longe se aproveitar as oportunidades que os projetos de pesquisa proporcionam.

Autores: Amanda Batista Vitório e Mariana Andrade

Publicado por: eldersodre | 26 de maio de 2017

O pequeno grande tamanho do zooplâncton

O tamanho dos organismos pode dizer muita coisa sobre sua ecologia. Olhemos, por exemplo os organismos zooplanctônicos: pelo seu tamanho, você não pensaria num cladócero comendo um peixe, por exemplo. Mas pode facilmente imaginar o contrário. Claro que, em animais de tamanhos muito diferentes, como um peixe e um cladócero, fica claro o papel do tamanho corporal. Porém, a verdade é que mesmo diferenças sutis no tamanho podem ter grandes consequências ecológicas.

Vejamos, por exemplo, os cladóceros. Cladóceros são microcrustáceos, bastante comuns no plâncton de águas continentais. Eles são animais microscópicos, que quando adultos normalmente apresentam de 0,2mm a 1mm de comprimento (embora haja algumas exceções). Algumas espécies tipicamente são maiores, outras são menores. Mas mesmo dentro de uma mesma espécie existe uma variação no tamanho, em consequência de diversos fatores. Veremos alguns exemplos nos próximos parágrafos.

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Daphnia: um cladócero de grande tamanho corporal bastante comum em lagos temperados, mas quase ausente em lagos tropicais

Um dos padrões mais conhecidos na ecologia dos organismos zooplanctônicos é a relação entre desenvolvimento, comprimento e temperatura. Explicando de uma forma simples, em ambientes mais quentes, cladóceros tendem a se desenvolverem mais rápido (alcançando a fase adulta em menos tempo) mas alcançando menor tamanho final. Em ambientes mais frios, os cladóceros se desenvolvem mais devagar, e alcançam maior tamanho. Como consequência, o zooplâncton em lagos temperados tende a ser maior que em lagos tropicais.

Outro fator importante é a quantidade e a qualidade do recurso alimentar. Cladóceros que se desenvolvem em ambientes com recurso mais escasso tendem a ser menores. Em relação à qualidade do alimento, a relação é mais complexa; afinal há várias formas de se definir qualidade alimentar. Mas mesmo assim a relação geral é parecida com a quantidade: cladóceros criados com alimento com maior qualidade nutricional tendem a serem maiores.

A interação com outros organismos também é importante. Por exemplo, a predação. Peixes planctívoros, que se orientam pela visão, tendem a consumir organismos maiores, por serem mais fáceis de localizar. Ao se alimentar dos indivíduos maiores, a predação por peixes tende a diminuir o tamanho dos cladóceros. Já a predação tátil por outros invertebrados tende a aumentar o tamanho corporal, visto que eles predam preferencialmente organismos menores.

Além da temperatura, alimento e predação, muitos outros fatores influenciam o tamanho corporal das populações e comunidades de cladóceros: estresse ambiental, química da água, competição, entre outros. Por isso, em comunidades reais, o tamanho dos organismos é o resultado de interações complexas. Por responderem a tantos fatores, o tamanho médio dos cladóceros, em conjunto com outras informações, pode fornecer dados valiosos sobre os ambientes aquáticos em que se encontram.

E o mais importante: o tamanho médio destes organismos tem uma série de consequências sobre os ambientes aquáticos em que eles ocorrem. Por exemplo, indivíduos maiores tendem a respirar mais, e também a excretar mais, além de consumir mais recursos. Portanto, o tamanho deles tem relação com o ciclo de nutrientes (carbono, nitrogênio, fósforo) e com o seu papel nas teias alimentares!

Portanto, da próxima vez que alguém achar que o plâncton é pequeno demais, lembre-se que o tamanho dos organismos diz muito mais sobre eles do que as pessoas imaginam!

 

Publicado por: Enoque Yuegribeiro | 19 de maio de 2017

Geoprocessamento – observando o ambiente por meio da tecnologia

No ano de 1854, o médico inglês John Snow, considerado o pai da epidemiologia moderna, cartografou num mapa do distrito do Soho todos os poços de água e os casos de pessoas infectadas, localizando como culpado o poço existente em Broad Street, em pleno coração da epidemia de cólera. Desta forma ele comprovou que a cólera esteva associada ao consumo de águas contaminadas com materiais fecais. Snow recomendou à comunidade que fechasse o poço em pleno coração da epidemia na cidade de Londres e os casos da doença diminuíram. A técnica de análise espacial através de informação de mapeamento geográfico empregada por Snow é considerada um dos empregos mais precoces de geoprocessamento para descrição e combate de uma epidemia.

Geoprocessamento é um conjunto de tecnologias responsáveis por coletar, processar, analisar e disponibilizar informações georreferenciadas. O geoprocessamento é uma tecnologia transdisciplinar, haja vista que, essa ideia representa o fato da mesma estar associada a união de vários conhecimentos e a partir dessa complexidade, produz novos dados e novas informações que explicam e representam o meio (HUERTA, 2005).

Toda complexidade referente ao conjunto de conhecimentos mencionada na definição pode ser exemplificada através das ciências, cada qual com sua parcela de contribuição na produção de novos conhecimentos, que vai desde a produção do hardware propriamente dito, até a criação de softwares de Sistemas de Informação Geográfica (SIG), como também a correlação e processamentos de informações referentes ao ambiente (MONICO, 2000).

A base de dados nos SIG é composta por dois tipos de dados, espacial e descritivo, armazenados em um banco de dados capaz de manipular, analisar e exibir informações geograficamente referenciadas. O SIG tem a capacidade de correlacionar esses dados estabelecendo através de ferramentas de geoprocessamento o seu emprego na gestão, planejamento e utilização de diferentes recursos em diferentes atividades como: cartografia, tempo, geologia, turismo, indústria de transporte, agricultura de precisão, gestão ambiental, entre outros (CAMARA, 1996).

Assim, o geoprocessamento representa para a ciência atual uma fonte inesgotável para análise de informações, onde o pesquisador pode trabalhar variáveis ambientais, fenômenos sociais e suas representações, suas potencialidades e limitações. Como exemplo, podemos citar:

  • Distribuição de rotas migratórias;
  • Gestão de biodiversidade;
  • Análise de fragmentação de paisagem;
  • Estudos geomorfológicos;
  • Gestão de recursos hídricos.

São inúmeras as possibilidades de aplicação de geoprocessamento como análise espacial em pesquisas científicas com temáticas de meio ambiente, engenharias e socioeconomia. E seu emprego tem se tornado indispensável não apenas nas pesquisas científicas, mas também na tomada de decisão da gestão pública e empresarial.

REFERÊNCIAS:

CAMARA, Gilberto. Geoprocessamento para projeto ambientais. INPE.1996.

HUERTA, E. GPS: posicionamientosatelital / Eduardo Huerta; Aldo Mangiaterra; Gustavo Noguera – 1a. ed. – Rosario: UNR Editora – Universidad Nacional de Rosario, 2005.

MONICO, J. F. G. Posicionamento Pelo NAVSTAR-GPS: Descrição, Fundamentos e aplicações. Editora Unesp, 2000.

Publicado por: Claudio Marinho | 11 de maio de 2017

Água: Livre no copo d’água ou aprisionada numa pedra de esmeralda?

A água no copo num dia de verão é uma visão de grande satisfação, possibilitando saciar a sede. Nos nossos corpos ela faz parte de 70% em massa. Fundamental para nossas funções vitais. Médicos e profissionais da área de saúde comentam sobre a necessidade da ingestão regular de água. Até agora nenhuma novidade sobre a importância da água para os seres vivos. O surgimento de vida no planeta foi possível graças a existência de água.

A água no estado líquido no planeta pode ser encontrada na superfície na forma de lagos, rios, represas e mares. Mas ela não é encontrada apenas no estado líquido, pois a água é a substância natural encontrada nos três estados na superfície terrestre, em condições normais de temperatura e pressão (Figura 1). A presença de água sob diferentes estados físicos, depende das condições de temperatura e pressão, como no estado sólido (neve e geleiras) ou gasoso (vapor d´água, formação das nuvens).

geleira

Figura 1: As cachoeiras da geleira Brasvellbreen (http://bloguedofranz.blogspot.com.br/2013/01/maravilhas-de-gelo.html)

Em função dos eventos climáticos, ocorrem transportes de grandes quantidades de massa d´água, através do que conhecemos como ciclo da água (Figura 2). Neste ciclo, a água muda de estado físico várias vezes, e pode ser deslocada pela ação do vento, efeito das marés, escoamentos pelos corpos d´água, infiltração através do solo, entre outros.

ciclo da água

Figura 2: Principais etapas do ciclo hidrológico. Modificado de Shiklomanov, (1999) (In: Esteves 2011).

Mas a possibilidade da existência da água no planeta nos diferentes estados físicos deve-se a sua estrutura molecular. Com seus quase 105o entre os átomos de hidrogênio e a formação de cargas nos átomos (Figura 3), propicia a formação de ligações, ou ponte de hidrogênio. Onde os átomos de hidrogênio de uma molécula se ligam ao oxigênio de outra molécula. Estas ligações entre as moléculas tornam a água capaz de ocorre em estado líquido na temperatura ambiente da Terra. O que não observamos em substâncias semelhantes, como o sulfeto de hidrogênio (H2S gás sulfídrico ou ácido sulfídrico). Esta substância não apresenta a possibilidade de formação de pontes de hidrogênio, sendo um gás em temperatura ambiente. Particularmente conhecida pelo cheiro característico de ovo podre.agua

Figura 3: Fórmula estrutural da molécula da água.

Mas as mudanças de estado físico estão associadas ao ganho ou perda de energia (Figura 4). Observe com atenção a figura 4, pois nos livros de ciências, química ou física do ensino fundamental e médio, são apresentados apenas três estados físicos da matéria e suas transformações. Mas além dos estados sólido, líquido e gasoso, temos, comprovados experimentalmente: (1) aquém do sólido, o supersólido; (2) além do gasoso, o plasma. No primeiro caso, a substância encontra-se próxima ao zero absoluto, ou seja, – 273oC, onde ocorre uma movimentação muito reduzida das moléculas, apresentando um comportamento como se o movimento das partículas representa-se apenas um corpo. No segundo caso, ao fornecer energia a um gás, suficientemente elevada para superar a energia que mantém os elétrons em órbita no átomo, os elétrons saltam de suas órbitas. Temos então, núcleo e elétrons dispersos no meio, este estado da matéria é muito comum nos corpos celestes como o sol. Apesar do plasma ser eletricamente neutro, em função do movimento das cargas elas produzem corrente elétrica. Podemos observar então que do estado supersólido para o plasma, ocorre uma considerável “desorganização” na estrutura da matéria.

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Figura 4: Estados físicos da matéria.

http://gestordoocio.blogspot.com.br/2011/10/o-quinto-estado-da-materia.html

Mas, recentemente, foi observado uma condição especial para as moléculas de água sujeitas a elevadas pressões em recintos extremamente pequenos, ou seja, do tamanho equivalente a cinco átomos. Estas condições são conhecidas na física como efeito túnel. Mas tal efeito não pode ser explicado pela física clássica, e era observado apenas em partículas muito menores que a molécula de água, em estudos baseados em fenômenos da física quântica. No caso da água, no minério berilo, constituinte das esmeraldas (Figura 5), as moléculas formam pequenos túneis, onde os átomos de hidrogênio, ocupando a posição central de um anel, assume seis posições diferentes ao mesmo tempo. Isto significa que o átomo de hidrogênio não ocupa uma determinada posição, mas encontra-se espalhado formando um anel.

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Figura 5: Foto de uma pedra de esmeralda.

Tal descoberta com relação a molécula da água ainda não pode ser explicado pela comunidade científica. Mas futuros estudos podem auxiliar quanto ao conhecimento do transporte da molécula de água em pequenos espaços como a membrana celular. Por isso, “livre” num copo d’água, ou “aprisionada” numa pedra de esmeralda, a água permanece fundamental para vida no planeta. Matando a sede ou decorando sonhos nas joias sob a forma de anéis, brincos ou colares.

Fontes:

Esteves, FA. Fundamentos de Limnologia. 3a edição. Rio de Janeiro. Editora Interciência.790p.

http://gestordoocio.blogspot.com.br/2011/10/o-quinto-estado-da-materia.html

http://www.mma.gov.br/port/cgmi/nossoamb/agua/agua/ndx04.html

http://exame.abril.com.br/ciencia/cientistas-descobrem-misterioso-quarto-estado-da-agua/

https://portal2013br.wordpress.com/2015/03/07/o-que-e-o-quarto-estado-da-agua/

https://www.google.com.br/?gws_rd=ssl

http://super.abril.com.br/ciencia/um-novo-estado-da-materia-foi-criado-em-laboratorio-conheca-os-supersolidos/

O laboratório de Limnologia da UFRJ desenvolve diferentes ações de extensão. Por exemplo, durante a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia e nos projetos de parceria com escolas públicas no município do Rio de Janeiro. Nessas ações são realizadas atividades abordam ensino de ciências e biologia, de maneira interdisciplinar e lúdica, com reflexões sobre água sob uma temática ambiental, integrado conhecimentos limnológicos, e um posicionamento científico tecnológico, partindo de problemas socioambientais que se relacionam à água.

Buscamos também contextualizar o tema água, tido como bem comum, que evolve conflitos quanto a sua gestão e usos nas diferentes organizações sociais. Os conceitos de água virtual e pegada hídrica se integram a discussão à medida que se entende a água como bem de consumo, questão essa abordada na atividade “O valor real das coisas”.

A água real é a quantidade de água que está de fato embutida em determinado produto. Água virtual é definida como a quantidade de água requerida na produção de commodities ou serviços (CHAPAGAIN; HOEKSTRA, 2004). E a pegada hídrica de um indivíduo, empresa ou nação é definida pelo volume total de água doce usada na produção de bens e serviços consumidos pelo indivíduo, empresa ou nação (CHAPAGAIN & HOEKSTRA, 2004).

 

Como acontece a atividade “O Valor Real das Coisas”?

Essa atividade é um jogo conhecido como caixa surpresa, que ocorre da seguinte forma, o aluno fica de frente para as caixas, que são fechadas e possuem apenas uma abertura suficiente para colocar a mão e parte do braço. O aluno pondo sua mão dentro da caixa descobrirá o que esta dentro da mesma, a partir daí há um diálogo entorno da quantidade de água que é necessária para fabricar tal material. Durante o diálogo foram utilizados infográficos que continham informações como a quantidade de água virtual, ou pegada hidrológica daquele material e também outras como aspectos econômicos e sociais que envolvem a produção dos mesmos.

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Em cada caixa havia um material, sendo eles: jeans, garrafa pet, celular, e grãos de café. O critério da escolha foi serem materiais de consumo comuns, não perecíveis, e a princípio não oferecerem riscos aos participantes. Eram ao todo seis caixas, cinco com um dos materiais citados acima e uma com uma “geleca” para descontração com os participantes.

A atividade da caixa explora uma dinâmica onde “a sensibilidade estética é aflorada, num processo aberto de comunicação que permite a cada pessoa explorar, sentir, pensar, tocar de modo singular e autônomo” (SCHALL, 2003, p. 17). Com isso, estimula no público o desejo de se inserir no ambiente educativo de forma espontânea, utilizando como fio condutor a curiosidade, o lúdico, o cotidiano e o contexto socioambiental. A atividade trabalha também com os sentidos do tato para adivinhação e do olfato no caso do café.

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Reproduza a atividade!!

As caixas foram produzidas no laboratório de limnologia com materiais baratos e fáceis de encontrar. Foram utilizadas caixas de papelão, fita adesiva para fechar as caixas, papel seda e papel celofane para cobri-las, cartolina para fazer os acabamentos, estilete para fazer a abertura na qual o participante coloca a mão e tecido TNT para cobrir a abertura de modo que os alunos não pudessem ver o que continha a caixa.

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