Publicado por: Ana Luiza Lima | março 2, 2021

[Mulher e Ciência] Teriam sido os primeiros ecólogos mulheres?

Com muito prazer trazemos mais um mês temático para vocês! Em março teremos textos sobre mulher e ciência feitos por mulheres maravilhosas que aceitaram colaborar conosco. Além disso, como de mulher inteligente esse mundo está lotado, para tentar dar conta de uma fração desse talento todo, vamos trazer textos todas as TERÇAS e QUINTAS aqui no blog, então já se preparem. (Quem nos segue no Instagram @limno.ufrj já sabia dessa novidade então siga a gente lá para ficar sabendo dos posts e também se inscreva na nossa Newsletter para saber todas as novidades em primeira mão.) Hoje para abrir o mês trazemos um questionamento para que possamos pensar onde estavam as mulheres em alguns momentos históricos importantes e porque elas foram apagadas? Esperamos que gostem

Equipe LimnoNews

A Ecologia é uma ciência relativamente nova. O termo Ecologia foi proposto em 1866 pelo cientista alemão Ernest Haeckel ao designar uma ciência que estudaria os seres vivos e a sua relação com o ambiente em que estavam inseridos. Ao longo do tempo, no entanto, ela se tornou uma ciência muito mais complexa e estruturada, relacionando-se com o entendimento da natureza de modo geral e integrada com outras áreas das ciências da vida como a zoologia e a botânica e, também, as ciências sociais. Para o ecólogo Eugene P. Odum, a ecologia seria mais do que apenas uma disciplina dentro das ciências da natureza, a ecologia seria uma ciência única que busca integrar organismos, ambiente físico e os seres humanos. No entanto, não é porque o termo Ecologia surgiu apenas no século XIX que as bases dela não existissem muito antes. Sendo assim, ficamos com a questão: quando será que a Ecologia, como observação e experimentação da natureza, surgiu? E quem seriam os primeiros ecólogos?

Mulheres na Pré-História

Essa “Ecologia primitiva” teria surgido junto com a própria história. A sobrevivência dos núcleos humanos se daria devido aos conhecimentos dos mesmos sobre esse ambiente e a dependência da natureza fazia com que o conhecimento sobre ela fosse indispensável. Sendo assim, a Pré-História teria marcado esse momento em que o ser humano começaria a tentar entender a natureza, seus processos e a distribuição dos animais e plantas. No entanto, a Pré-História é conhecida como o período dos “homens das cavernas”, onde estariam as mulheres? Sem elas a população humana não teria sobrevivido. Estariam elas nas cavernas, cuidando da prole? Só que não…Os fósseis de mulheres, como por exemplo a Luzia e a Lucy, foram responsáveis por trazer um viés de gênero ao se pensar esse período histórico. Com isso, ficou bem claro que a noção de que o papel feminino nesse período seria o do cuidado e manutenção da prole era muito mais um retrato dos cientistas modernos que os escavaram e não do período em si. (Nesse texto podemos ver o questionamento a cerca dessa representação).

Estudos arqueológicos mais recentes colocam as mulheres como protagonistas no sustento das tribos, sendo as coletoras-caçadoras responsáveis pela maioria dos alimentos do grupo. Elas participavam do processamento do alimento, desde o deslocamento do animal até o corte da carne para alimentação. Seriam elas então as primeiras caçadoras? Um outro exemplo do papel feminino negligenciado é a própria arte. As famosas pinturas rupestres sempre foram pensadas como feitas por homens. Porém uma caverna na Espanha mudou esse paradigma. A caverna de El Castillo teria as pinturas mais antigas já encontradas, com cerca de 41.000 anos, e dentre elas, algumas são provavelmente feitas por mulheres. Seriam então elas, as primeiras artistas? Já um ponto muito atrelado a figura feminina é o surgimento da agricultura e a entrada do ser humano no período Neolítico. A prática da agricultura é vinculada as mulheres por estar relacionada ao sedentarismo do ser humano e a manutenção da “casa”, enquanto os homens iam caçar (algo que já ficou claro que não era muito bem assim). No entanto, o papel da mulher nesse espaço é de extrema importância até hoje, tendo elas, um papel central no desenvolvimento agrícola. Seriam elas então as primeiras agricultoras?

Imagem 1: Cueva del Castillo, Espanha. Estêncis de mão, provavelmente de mulheres e de homens misturados, datado de 41.000 anos.

Mulheres e Caça às bruxas

Ao se pensar sobre as mulheres na história um período que sempre vem a mente é a Caça às bruxas, um movimento de perseguição religiosa, política e social que ocorreu dos séculos XV a XVIII por toda a Europa e nas colônias americanas. No entanto, há relatos contemporâneos de caça às bruxas em países da África e Oceania. A feitiçaria e a bruxaria datam de antes desse período, desde a Antiguidade a escritos sobre o assunto, seja a condenação de feitiçaria no código de Hammurabi, na bíblia hebraica ou nas Doze tábuas do direito romano. Independente se você acredita ou não em bruxas e feiticeiros há algo de interessante nesse processo, o viés de gênero. Na Idade Moderna o conceito de bruxa se tornou amplo: mulheres que vivessem sozinhas, benzedeiras, parteiras, as características do que seriam uma bruxa ficaram muito difíceis de serem distinguidas, mas algo ficava claro…a maioria eram mulheres, mulheres que tivessem aquém dos padrões sociais patriarcais. Até hoje ao se pensar em bruxos/magos/feiticeiros nós lembramos de Merlin, de alquimistas, e até do Harry Potter, mas as bruxas, são sempre as vilãs das histórias infantis, mulheres feias e perigosas que matam crianças

“A diferença entre alquimistas e bruxas é que os primeiros eram homens, ricos, educados e próximos ao poder, conselheiros de reis e papas, justificando sua atividade como uma manipulação da natureza. As bruxas eram conhecedoras de ritos e poções de tempos pagãos, sem entender como isso poderia ser visto como adoração a Satã.” — Raphael Tsavkko

Cadê a ecologia nessa história? Ao pensarmos sobre essas bruxas e seus feitiços podemos caracterizá-las, na realidade, como mulheres que tinham conhecimento da fisiologia humana, principalmente a feminina, de ervas, óleos essenciais e plantas medicinais. Eram mulheres que, a partir, de seu conhecimento e observação da natureza buscavam curar as pessoas, seriam elas bem mais próximas de pesquisadoras ou médicas do que mulheres perversas que queriam enfeitiçar e matar pessoas. Elas eram mulheres independentes que faziam desses conhecimentos e atendimentos uma forma de se sustentar. No livro “O Calibã e a bruxa”:

“A substituição da bruxa e da curandeira popular pelo doutor levanta a questão sobre o papel que o surgimento da ciência moderna e da visão científica do mundo tiveram na ascensão e queda da caça às bruxas. (…) Por um lado, há o Iluminismo, que reconhece o advento da racionalidade cientifica como fator determinante para o fim da perseguição (…) no entanto, os mesmos juízes que limitaram os julgamentos contra as bruxas, nunca questionaram a veracidade da bruxaria. (…) Na verdade não há provas de que a nova ciência teve um efeito libertador. A visão mecanicista da natureza “desencantou o mundo”, mas não há provas de que aqueles que a promoveram tenham falado em defesa das mulheres acusadas como bruxas. – Silvia Federici.

As mulheres estão atreladas a ideia da natureza selvagem e incontrolável e, por isso, sua perseguição seria devido a mudança de paradigma que a revolução científica e a filosofia mecanicista cartesiana trouxeram. A nova ciência tinha um projeto oposto a essa visão desordenada e foi através da perseguição e conquista dessas mulheres que ela se baseou. Portanto, a ideia de racionalidade como um progresso é questionável, a caça às bruxas pode ter sido um processo de destruição do meio ambiente através da exploração capitalista da natureza e das mulheres (Merchant, 1980). Portanto, a caça às bruxas foi um movimento social, econômico e político e não apenas religioso e trata-se muito da ascensão de uma burguesia capitalista patriarcal que atrelou a perseguição dessas mulheres a uma lógica de desenvolvimento e uma visão utilitarista de destruição da natureza.

Mulheres e povos originários

Essa relação entre as mulheres e a natureza também pode ser vista nas descrições da América ameríndia com a chegada dos invasores, ditos “colonizadores”. A caça às bruxas também ocorreu nas Américas, sendo as mulheres as mais perseguidas. No entanto, a ideologia racista foi adicionada na lógica de conquista e dominação europeia. A definição de negritude e feminilidade funcionavam como marcas de irracionalidade e selvageria que excluía essas pessoas dos europeus e, consequentemente naturalizavam sua exploração (Federici, 2019). No entanto, se retornarmos para os pré-colombianos é possível observar outro padrão social das mulheres, como por exemplo, a presença de importantes divindades femininas presentes nas culturas pré-colombianas que demonstrava um poder feminino presente nessas sociedades. Antes da invasão europeia na América as mulheres tinham um papel social reconhecido, participando de atividades na esfera social e participando de organizações na sociedade. “Além de serem agricultoras, donas de casa, tecelãs e produtoras dos panos coloridos utilizados tanto na vida cotidiana quanto durante as cerimonias, também eram oleiras, herboristas, curandeiras e sacerdotisas a serviço dos deuses locais” (Federici, 2019).

A misogenia, portanto, é uma importação da Europa e com ela a nova reestruturação da sociedade colonizada que colocou o poder econômico e político na figura masculina. As mulheres foram usadas como moeda de troca, vendidas para os europeus brancos, perderam suas terras, foram obrigadas a trabalhar nas minas e perderam seus direitos sociais. A perseguição das ditas bruxas acabava com as práticas religiosas tradicionais ao mesmo tempo que impedia revoltas anticoloniais idealizadas pelas mulheres. A sobrevivência de crenças antigas dessas comunidades só ocorreu devido a resistência de mulheres que cumpriram o papel decisivo na defesa da cultura, da comunidade e dos conhecimentos tradicionais de cura. No Brasil, o papel feminino nas tribos indígenas não foi diferente, as mulheres sempre representaram um contato com a natureza, com a terra, com a prole e são uma figura de resistência até os dias de hoje em que temos importantes nomes femininos indígenas na política. Essa relação das mulheres com a natureza como uma forma de conhecimento importante para a própria manutenção das sociedades é algo que perpassa pela nossa dúvida da origem dos ecólogos. Ao pensar nas pequenas tribos e sociedades construídas ao longo da história da humanidade temos o contado mulher-natureza como um elo forte e por que não formador de conhecimento?

A relação entre as mulheres e a natureza é milenar, como vimos brevemente nesse texto. O contato entre o feminino e a natureza e com os conhecimentos e práticas oriundos dessa relação são muito importantes. O ecofeminismo, por exemplo, surge exatamente desse encontro entre pesquisas sobre feminismo, justiça social e preservação do meio ambiente, buscando explicar a relação entre gênero, ecologia, raça, espécie etc. No entanto, isso é um assunto para outro texto, pois o tema do ecofeminismo é extremamente importante para se entender a relação entre opressão de gênero e exploração da natureza e merece um texto único sobre isso. No entanto, a ideia de trazer esse termo aqui é a de mostrar que essa intersecção mulher e natureza é atual e de que o ecofeminismo possa ser uma forma de explicar diferentes formas de exploração atuais e históricas, dialogando também com o feminismo marxista e, além disso, de expressar o protagonismo feminino nesse processo.

A ideia desse texto não é a responder à pergunta do título, perdão se fiz você acreditar nisso. A ideia desse texto é exatamente levantar questionamentos sobre o papel das mulheres no surgimento e na estruturação das comunidades e, com isso, nas ciências. Além disso, ressaltar o papel delas nos conhecimentos tradicionais, principalmente, oriundos de uma relação com a natureza. Relação essa baseada em experimentação, em observação e em testes. O papel das mulheres foi apagado da história por uma lógica machista de sociedade que restringe a mulher ao espaço privado, porém com esse texto eu espero que você possa ter visto que isso não é de uma natureza feminina, até porque não se nasce mulher, torna-se mulher e porque não tornar-se cientista?

Por Ana Luiza Lima

Referências

https://brasilescola.uol.com.br/historiag/o-cotidiano-mulher-na-pre-historia.htm#:~:text=J%C3%A1%20antes%20da%20descoberta%20da,eram%20mortos%20com%20fins%20alimentares.

https://theconversation.com/where-were-all-the-women-in-the-stone-age-73374

https://www.nationalgeographic.com/adventure/article/131008-women-handprints-oldest-neolithic-cave-art

https://www.cecafe.com.br/sustentabilidade/artigos/o-importante-papel-das-mulheres-no-desenvolvimento-rural-20170209/#:~:text=Ainda%20segundo%20dados%20da%20FAO,aumenta%20na%20popula%C3%A7%C3%A3o%20mais%20instru%C3%ADda.

https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/bruxas-reais-historia.phtml

ANGELIN, Rosângela. Mulheres, ecofeminismo e desenvolvimento sustentável diante das perspectivas de redistribuição e reconhecimento de gênero. Revista Eletrônica Direito e Política, v. 9, n. 3, p. 1569-1597, 2014.

FEDERICI, Silvia. “O Calibã e a Bruxa”. 1ª Edição. São Paulo. Editora Elefante, 2019.

GARCIA, Loreley. A relação mulher e natureza: laços e nós enredados na teia da vida. Gaia Scientia, v. 3, n. 1, p. 11-16, 2009.

MAIZZA, Fabiana; DE ALENCAR VIEIRA, Suzane. Introdução ao dossiê Ecologia e Feminismo: criações políticas de mulheres indígenas, quilombolas e camponesas. Campos-Revista de Antropologia, v. 19, n. 1, 2019.

MERCHANT, Carolyn. “The Death of Nature: Women, Ecology and the Scientific”. EUA. Editora HarperOne, 1990. TOSI, Lúcia. Mulher e ciência: a revolução científica, a caça às bruxas e a ciência moderna. Cadernos pagu, n. 10, p. 369-397, 1998.

Publicado por: Laboratório de Limnologia/UFRJ | fevereiro 25, 2021

Viajando pelo mundo com a ecologia na mochila.

Olá leitores! Hoje chegamos ao fim do nosso mês das férias limnológicas e resolvemos terminar falando de algo que todo mundo gosta…VIAJAR. No texto de hoje trouxemos lugares fantásticos para você colocar na lista de desejos. Além disso, trouxemos experiências relacionadas ao turismo ecológico que vem ganhando adeptos nas últimas décadas como uma forma de preservação e também de lazer. Esperamos que tenham gostado do nosso mês de dicas de férias. Nos vemos no mês que vem com um mês temático fantástico, e aí o que vocês acham que vai ser?

Equipe LimnoNews

ATENÇÃO: Em função da situação de emergência sanitária provocada pela pandemia de COVID-19, não é recomendado pelas autoridades sanitárias viagens que não tenham uma motivação específica como trabalho e /ou algum motivo específico. Por isso, as viagens de férias, em suma, estão sendo adiadas ou então realocadas para locais que não tenham aglomeração em si nem no trajeto de deslocamento. Além disso, muitas UCs, parques e locais de turismo ecológico estão fechados ou com restrições, portanto, lembre-se disso ao planejar algum deslocamento, consulte e respeite as deliberações dos órgãos sanitários competentes para a sua cidade/país, mantenha o distanciamento social, use máscara e lave as mãos frequentemente.

Nos últimos anos, houve um expressivo aumento do Turismo Ecológico mundial. Os números caíram em 2020 em função da pandemia e da nova realidade imposta pela quarentena, porém, no geral, cada vez mais pessoas pagam caro para fazerem safaris no Serengueti, mergulharem em águas transparentes na Grande Barreira de Corais Australiana ou até mesmo visitarem colônias de pinguins na Antártica. A experiência de um “não iniciado” em um ambiente natural é repleta de curiosidades, medos e surpresas, e não são raros os depoimentos repletos de frases como “Nossa, não sabia que era tão bonito assim.”, “Achei que esse bicho era perigoso.” ou “Se eu pudesse voltar no tempo, teria feito biologia!”. Mas como será o turismo ecológico de um(a) ecólogo(a)? Será que ele(a) pode se surpreender ou se emocionar? Será que seu conhecimento em ecologia o(a) ajuda a fazer novas descobertas? Vou contar para vocês três casos especiais em que meu amor pela ecologia deu “match” no meu amor por viajar!

No final de 2010 peguei o mochilão e, literalmente, dei a volta ao mundo em 45 dias, sem balão (entendidos entenderão). Minha primeira parada foi no Kruger Park, na África do Sul, um Parque Nacional do tamanho de Israel (!), onde, pela primeira vez, iria encontrar in situ os grandes animais da savana africana. Depois de 4 dias rodando de carro para cima e para baixo, já havia avistado praticamente todos os grandes mamíferos da savana, incluindo elefantes, leões e hienas. Estava extasiado, mas ainda me faltava ver o gueopardo, ou cheeta. A cheeta é um predador pequeno (para os padrões africanos), substancialmente menor que os leões, por exemplo. Seu pouco tamanho e força são compensadas pela agilidade e velocidade na perseguição das presas. Tem abundância menor que outros predadores e possui comportamento furtivo, logo as cheetas não são fáceis de serem observadas. Botei a cabeça para pensar e, como era um mês bem seco na savana, concluí que minhas maiores chances de vê-las eram em áreas próximas a alguma fonte de água. Olhei no mapa e achei uma área promissora, longe das principais estradas e com uma fonte aparentemente perene de água. Levei água e comida (para mim, é claro), cheguei cedo, achei um cantinho para estacionar o carro em uma sombra e esperei… Esperei… Esperei o dia inteiro. Todo bicho da savana apareceu. Vi dezenas de veados, búfalos, elefantes. Era um desfile de fauna, todos precisavam beber água. Já no final da tarde, os pássaros, que faziam uma algazarra nas margens da fonte, silenciaram de repente, assustados. O fenômeno já havia acontecido antes com a chegada de outros bichos, logo não tinha grandes esperanças. Porém, lá estavam elas! Duas cheetas de uma vez só. Não deram a mínima para o carro e muito menos para mim. Desconfiadas, foram lentamente até a água, beberam, se viraram, passaram em frente ao meu carro e entraram na savana. Fiquei meio paralisado, mas consegui tirar umas fotos (veja abaixo). Na volta para o acampamento, descobri que eu havia sido o único que havia avistado uma cheeta naquele dia. Ponto para a ecologia!

Imagem 1: Cheetas bebendo água no lago (Arquivo pessoal).

Dragões não existem, todos(as) sabemos disso. A lenda da existência de dragões provavelmente originou-se em regiões da China onde é grande a abundância de fósseis de dinossauros, que de fato existiram. Logo, os famosos dragões chineses seriam representações dos fósseis de dinossauros? O assunto é interessantíssimo, mas é papo para outro texto. Aqui vou focar em um bicho que tem a alcunha de dragão, mas é um enorme lagarto monitor chamado Dragão de Komodo (Varanus komodensis). Eles vivem somente em Komodo (Ohhh!) e Rinca, duas pequenas ilhas localizadas no sudeste do enorme país insular chamado Indonésia. Procurem no Google, deem um zoom e achem as ilhas. Esta região tem mares rasos e transparentes, mas com fortes correntes, o que aparentemente limita a dispersão dos “dragões” para as outras ilhas do arquipélago. Mas como estes caras chegaram nestas ilhotas? A evolução da espécie remonta antigos períodos de glaciação, quando os mares rasos da região retrocederam e pontes de terra ligavam as ilhas do sudeste da Indonésia ao norte da Austrália. Era tudo uma terra só e lagartos monitores, comuns na Austrália, circulavam na região. Com o fim da glaciação, as águas subiram, uma população de uma espécie de lagarto monitor ficou isolada e, em um pano de fundo marcado por abundância de presas de maior porte, ausência de grandes predadores mamíferos e altas taxas de canibalismo entre os lagartos, os enormes Dragões de Komodo evoluíram. Paradoxalmente, a maior espécie de lagarto do mundo vive em apenas duas pequenas ilhas. Fenômeno semelhante ocorreu em outros lugares, como as famosas tartarugas gigantes de Galápagos, mas isto também é papo para outro texto. Por aqui, fecho este parágrafo com uma foto do ecólogo que vos escreve, em um misto de excitação e nervosismo, posando com um Dragão de Komodo. Acho que só um biólogo pode entender meu sentimento nesta foto. É muita biogeografia, muita ecologia e muita evolução em uma foto só.

Imagem 2: Vinicius e seu amigo dragão de Komodo (Arquivo pessoal).

Mergulhar é uma paixão. Acho que meu fascínio em parte deve-se ao fato da água não ser nosso meio. Não enxergamos o que acontece no ambiente aquático de fora dele. Dentro da água todos nossos sentidos ficam alterados. Precisamos de máscaras para enxergar e de uma fonte de oxigênio para respirar. Perdemos calor com facilidade e, na grande maioria dos mergulhos, precisamos de uma roupa especial. A pressão muda rapidamente com a profundidade e sentimos isso nos ouvidos. Todos estes fatores compõem um cenário de excitação e ansiedade no mergulhador. Mas estes sentimentos tendem a se dissipar quando o mergulhador entra na água, se equilibra no meio aquático e inicia o mergulho. É um novo mundo que se abre na sua frente, com características e organismos totalmente diferentes do ambiente terrestre. Neste mundo aquático, os nudibrânquios tem minha atenção especial. Nudibrânquios são moluscos marinhos, sem conchas e com as brânquias expostas (ou brânquias nuas – nudibrânquios, o nome já diz tudo), chamados popularmente de lesmas do mar. Geralmente rastejam lentamente sobre algum substrato, como pedras e corais. E são, em vários casos, extremamente coloridos. É impressionante a composição e os padrões de cores de alguns destes bichos! Clique aqui e veja alguns exemplos. Nos meus mergulhos, estou sempre a procura deles, mas é raro eu ver algum. Meu avistamento mais icônico aconteceu em um lugar paradisíaco, chamado Raja Ampat (Quatro Reis, em Bahasa, o idioma da Indonésia), na costa oeste da Ilha de Papua, Indonésia. No final de um mergulho, havia uma espécie de túnel de pedra, de alguns bons metros de extensão, mas onde podia se ver, no fundo, a saída para o mar aberto. A água estava muito calma, sem correntes (raro na região) e eu estava parado na entrada no túnel admirando a beleza do cenário e me preparando para atravessá-lo. Lembro de pensar que não havia como aquele lugar ser mais bonito. Me posicionei e quando fui dar a primeira pernada, um grande nudibrânquio apareceu e começou a nadar, daquele jeito que só um nudibrânquio sabe (Aqui tem um vídeo do nado e aqui um sobre os organismos), no meio do túnel. A silhueta escura do bicho, nadando lenta e graciosamente naquele fundo azul turquesa do Mar de Corais é inesquecível. Foi o toque de biologia que faltava naquela cena e que eu não havia percebido. As espécies são os atores e atrizes no teatro da natureza e aquele nudibrânquio era, naquele túnel azul, o ator principal. Pena que não fotografei a cena (nunca consigo boas fotos nos mergulhos e já desisti), mas como comentei que a região é linda, mostro uma foto de um grupo de ilhas da região.

Imagem 3: Ilhas de Wayag – Indonésia (Arquivo pessoal).

Viajar faz parte da minha natureza e penso que faz parte da natureza de muitos que estão lendo este texto. Entendo que a biologia e a ecologia me trouxeram visões que potencializaram meu entusiasmo por viajar. Interpretar fenômenos naturais, se encantar com o avistamento de determinada espécie ou até mesmo sentar-se e contemplar o teatro da natureza em movimento resultam um sentimento diferenciado para um biólogo. Há uma grande sinergia entre a biologia e o turismo ecológico, e eu espero que meus relatos os estimulem a viajar quando a pandemia permitir. E lembre-se que o Brasil é um país de inúmeras possibilidades para viagens incríveis a preços mais acessíveis. Suas novas descobertas podem estar a poucos quilômetros de distância. Planejem, economizem, viajem!

Por Vinicius Farjalla

Publicado por: casanovacla | fevereiro 18, 2021

Férias?

Num desses dias de janeiro alguém me pediu para fazer um texto sobre férias.

Sim, férias! Como é difícil falar sobre férias. Mesmo quando não estou no laboratório minha cabeça está. Tudo bem, pode ser só a ansiedade. Mas também faço parte desse mundo que não para, dessa geração que não descansa, conectada. Isso! O tempo todo conectada: lendo, vendo, sentindo. Então, ficou difícil falar de férias… bem difícil. Até que pensei: “- Vou fazer uma poesia”. Mas eu não sou lá uma boa poeta, mas conheço alguém que é!! Minha mãe!!

Sim, minha mãe, Vera Casa Nova é uma inspiração em todos os sentidos, além de uma poeta incrível! Falei para ela do meu bloqueio de escrever sobre uma coisa tão abstrata quanto as férias, e pedi que ela buscasse nas suas muitas inspirações as palavras que descrevessem esse momento, quase sentimento. E assim surgiu o pequeno texto que vocês vão ler a seguir:

Férias! Gritou o menino.

Férias! Gritaram os moços.

Férias! Gritaram os avós.

Sempre o tom da liberdade imperava… mas qual liberdade?

Do menino?

Dos moços?

Dos avós?

Mas a falta de dinheiro prá viajar…

Mas as horas sem destino, mas as perdas do tempo.

Impossibilidades dessa alegria sem fim

Trazem outros momentos da vacância.

Repouso?

Descanso?

No fim das férias, uma revelação: voltar ao trabalho que nunca acabou.

Vera Casa Nova* *Professora de Letras aposentada da UFMG, carioca radicada em Belo Horizonte desde 1978, mãe de duas filhas, avó de dois meninos e poeta.

Publicado por: Laboratório de Limnologia/UFRJ | fevereiro 11, 2021

[Ciência e Literatura] Vamos conhecer o llano?

Olá leitores! Continuamos no clima de férias e vocês? Hoje viemos falar sobre uma forma de viajar que é permitida mesmo na pandemia. A viagem através dos livros. Como é a relação de vocês com a leitura? Hoje viemos conversar um pouco sobre como a leitura pode ser um gatilho para conhecermos novos lugares, biomas e culturas. Além disso, também pode fazer um lugar antes desconhecido entrar na lista de “Lugares que quero conhecer…” Esperamos que vocês gostem dessa nova iniciativa de integrar ciência e leitura.

Equipe LimnoNews

Viajar mais normalmente é algo que sempre está nas listas de desejos de um novo ano. Passear pela Champs-Élysées em Paris, conhecer a Praça Vermelha na Rússia, as pirâmides de Teotihuacán no México, ir às cachoeiras de Godafoss na Islândia, ao deserto do Atacama no Chile ou visitar todos os Parques Nacionais do Brasil. Esses e muitos outros fazem parte dos sonhos de viagens de muitos mochileiros por aí. Infelizmente, o ano de 2020 e a pandemia do Coronavírus acabaram com muitos desses planos e eu como uma louca dos campos, que acredito ser um dos escritórios do biólogo, fiquei com saudade de viajar.

No entanto, nesse ano pude me refugiar em outro tipo de viagem, aquela propiciada pela literatura. Eu sei que isso é um clichê, mas a literatura é uma forma de viagem, inclusive uma forma de viagem que não tem limitações de tempo nem de espaço. Através dela podemos ir a outros planetas, ao centro da terra, a vários pontos turísticos do Brasil e do mundo e até em lugares que nem existem fora das páginas. Além disso, podemos conhecer os dinossauros do Mesozoico, o dia a dia dos povos pré-colombianos, a Europa da 2ª Guerra Mundial…A literatura funciona como uma representação da memória de um povo, uma época, um lugar, e foi através de um livro que eu pude conhecer um bioma e com ele uma biodiversidade e uma cultura inteira.

Em janeiro de 2021 eu li o livro Dona Bárbara do escritor venezuelano Rómullo Gallegos, publicado pela primeira vez em 1929 e que teve uma recente publicação pela editora Pinard aqui no Brasil. O livro é conhecido como uma das melhores obras desse escritor que foi indicado ao Nobel de literatura 15 vezes e se tornou um nome muito importante da literatura latino-americana.  O livro tem como enredo uma região rural da Venezuela da década de 1920 com conflitos entre duas famílias donas de terra e a chegada de uma mulher que domina a região com a sua inteligência e violência. Uma violência inclusive que perpassa toda a obra e que até hoje é um tema recorrente na América latina. Porém, a ideia desse texto não é falar sobre a dicotomia barbárie e civilização nem sobre a violência no romance, mas sobre o cenário…

Figura 1: Livro Dona Bárbara, edição da Pinard Editora, 2020.

O romance tem como cenário o llano venezuelano, sendo o bioma um dos personagens principais dessa história. O bioma não só se refere ao ambiente, mas também a construção de uma identidade cultural do povo dessa região personificado na figura do llanero. O llano é tão presente que o termo não foi traduzido para o português nessa nova edição, pois o que seria o llano para o brasileiro? Seria como o Cerrado? Como o Pantanal? Segundo o tradutor André Aires e o editor Paulo Lannes na apresentação da obra:

“Não se tratando apenas de uma planície ou do ainda menos específico campo (…), mas uma sensação inerente daquele que se vê só, abismado pela região onde se divisa a longínqua linha do horizonte, de qualquer ponto em que se esteja e para onde quer que se olhe o llano e seus derivados foram mantidos no idioma original, por homenagem e respeito a essa identificação do homem com a terra que não se traduz em palavras, ainda menos de outro idioma.” – Pág. 13.

As descrições no livro são muito vívidas e transportam o leitor para esse lugar. No entanto, o leitor biólogo talvez fique um pouco mais animado! A descrição dos personagens navegando o rio Arauca, encontrando crocodilos, muito provavelmente o crocodilo-do-orinoco (Crocodylus intermedius), ou falando sobre poraquê (Electrophorus electricus), arraias, piracatingas (Calophysus macropterus) e “caribes” é um convite a se pesquisar sobre essa região, sua biodiversidade e estado de conservação. E foi isso que eu fui fazer…

Figura 2: llano Venezuelano.
Figura 3: Crocodilo do llano, Venezuela.

Os llanos são extensas planícies do Norte da América do Sul situados na bacia do Rio Orinoco. Na Venezuela, sua extensão vai desde o extremo ocidental do estado de Apure até o extremo oriental do estado de Monagas, sendo responsável por até 1/3 do território do país, e dividido em 3 tipos: llano ocidental, llano central e llano oriental. O seu clima possui duas estações definidas pela pluviosidade, sendo considerada do tipo Clima Tropical com estação seca (Aw classificação de Köppen-Geiger) principalmente, devido ao efeito de continentalidade. Sendo assim, a chuva na região é um momento marcante de seu ciclo anual, formando alagados e regiões inundadas em grande parte do ano. No livro, esse evento foi retratado pelo autor no seguinte trecho:

“Já se havia escutado lá no fundo das mudas solidões, o trovão que anuncia a entrada das águas; já estavam passando para o ocidente os conjuntos de nuvens que vão condensar sobre a cordilheira, onde começam as chuvas que logo descem para a llanura, e já esteja o disparo do relâmpago na linha do horizonte nas primeiras horas da noite. “ – Pág. 219.

Figura 4: Tempestade chegando no llano, Venezuela.

Já a representação do período seco pode ser vista mais à frente no mesmo trecho e com ela o hábito cultural de atear fogo no pasto, como forma de renovação da terra, para que a chuva o apague:

“O verão começava a se despedir com o canto das cigarras entre os chaparrais ressecados, os pastos amarelavam até se perder de vista, e sob o sol ardente as erosões dos charcos rachavam como bocas sedentas. A atmosfera, saturada da fumaça das queimas que começavam a se propagar pelas savanas (…).”– Pág. 219.

Figura 5: llano, Venezuela.

Depois de ler tanto sobre o llano a curiosidade que fica é como ele está hoje. A cultura llanera foi perpetuada? As espécies citadas no livro ainda habitam aquela região? Qual o estado de conservação de seus rios e das savanas? Na busca por informações e imagens mais recentes dessa região eu encontrei um vídeo com um objetivo mais turístico dessa região e um outro que questiona a relação do turismo e da lógica de desenvolvimento com a extinção de espécies, habitat e culturas na região, os dois em espanhol. O último, em especial, afirma da importância da região do llano como um remanescente de muitas espécies em risco de extinção.

Já em relação a pesquisa científica na região, a maioria dos artigos que encontrei são referentes as décadas de 1980 e 1990 e são sobre os animais da região, principalmente aves. Os estudos focam em ecologia reprodutiva e comportamento de forrageio, especialmente, sobre o efeito da variação sazonal na ecologia desses animais, visto que o llano possui dois períodos bem distintos (inundável e seco). Com esse texto e a pesquisa para o mesmo percebi que o llano é realmente tão grandioso e bonito como o descrito por Rómullo Gallegos em 1929. A beleza se dá pela paisagem, mas também pela cultura e pela biodiversidade. A leitura de Dona Bárbara e todas as leituras que fiz para produzir esse texto realmente funcionaram como uma viagem para essa região da Venezuela que mesmo sendo um país tão próximo do nosso é tão pouco conhecido e, por muitasvezes, caricato para nós brasileiros. Espero que vocês leitores também tenham viajado para o llano comigo e que tenham colocado mais um destino na sua lista de lugares para conhecer.

Figura 6: Pôr do sol no llano, Venezuela.

Por Ana Luiza Lima

Atualização: O e-book de Dona Bárbara pode ser encontrado nos principais sites de venda de livros digitais (Aqui, tem o link para o livro na Amazon)

Referências:

Castroviejo, S. A. N. T. I. A. G. O., and G. I. N. E. S. López. “Estudio y descripción de las comunidades vegetales del Hato El Frío, los Llanos de Venezuela.” Memoria de la Sociedad de Ciencias Naturales La Salle 45.124 (1985): 79-151.

Sarmiento, Guillermo, and Marcela Pinillos. “Patterns and processes in a seasonally flooded tropical plain: the Apure Llanos, Venezuela.” Journal of Biogeography 28.8 (2001): 985-996.

Dona Bárbara, Rómullo Gallegos. Pinard editora, 2020.

https://www.pinard.com.br/

https://www.venezuelatuya.com/geografia/llanos.htm

https://www.venezuelatuya.com/llanos/indexpor.htm

http://1000dias.com/ana/los-llanos-venezuelanos/

Olá leitores! Como foi o fim de ano de vocês? Esperamos que seguindo todas as medidas de isolamento social e de segurança, não esqueçam que a pandemia não acabou! Bom, em janeiro nós tiramos férias das postagens, como avisamos no último post de 2020, para descansar, mas também para preparar muitas novidades para o ano de 2021. No entanto, ainda estamos no espírito de férias e, por isso, hoje o nosso texto é sobre esse assunto. O cientista é uma figura muitas vezes associada apenas ao laboratório, aquela pessoa que vive, literalmente, para a sua pesquisa. É claro que nós amamos a nossa profissão e nos dedicamos muito a ela, porém férias, delas todos nós gostamos e precisamos! Pensando nisso, que tal dicas do que fazer nas férias?

Equipe LimnoNews

ATENÇÃO: Em função da situação de emergência sanitária provocada pela pandemia de COVID-19, não é recomendado pelas autoridades sanitárias a aglomeração de pessoas em espaços públicos e/ou privados. Além disso, diversas atividades estão proibidas e o funcionamento de museus, parques e outras atrações turísticas estão com restrições de horário e capacidade. Consulte e respeite as deliberações dos órgãos sanitários competentes para a sua cidade, mantenha o distanciamento social, use máscara e lave as mãos frequentemente.

A expressão que dá título a este post é uma velha conhecida nossa. Mas devemos sempre repensar um pouco o contexto que estes tão famosos ditados populares se aplicam. Obviamente, quem trabalha com o que gosta certamente é um profissional mais realizado e feliz. O que não quer dizer que não mereça uns dias de férias! Estamos sempre imersos em uma intensa rotina produtivista, pautada quase sempre na quantidade, com prazos extenuantes e nos impondo rotinas exaustivas. Imaginar que só porque você trabalha em sua área de interesse você deve abrir mão do seu momento de descanso, é mais uma maneira de alimentar este sistema social opressor que vivemos. Além disso, a relação que estabelecemos com aquilo que identificamos como dever ou trabalho, já propicia o estabelecimento de mecanismos mentais de autocobrança, senso de responsabilidade e necessidade que por si só já são estressantes e não tem qualquer relação com as atividades que desenvolvemos simplesmente pelo prazer de faze-las. Então, sim! Vamos a la playa!

Aproveitar nosso tempo livre e nossas férias é, inclusive, muito importante pra que possamos voltar ao trabalho com as energias (e as ideias!) renovadas. Contrariando o senso comum, cientistas não são seres de outro mundo e também precisam de férias. Inclusive, parece que o ócio é um ótimo combustível para a criatividade. Mas será que estamos de fato curtindo nosso tempo com qualidade? As possibilidades de lazer são muitas e cada um escolhe aquilo que lhe é mais agradável. Vale aquele barzinho com os amigos, um tempo lendo aquele livro que você comprou há 5 anos e nem tirou da embalagem, ver aquela série de sucesso ou simplesmente fazer nada!  Mas podemos unir o útil ao agradável e fazer com que o nosso tempo livre seja um momento prazeroso e ao mesmo tempo um aliado da nossa saúde ou do nosso conhecimento! As cidades estão cheias de equipamentos de lazer e opções muito interessantes para a gente expandir nossa cultura, rever nossa história ou aumentar os níveis de endorfina! Vejamos algumas opções:

1. Museus – Muita gente acha museu chato. Não poderiam estar mais equivocados! Museus são excelentes ambientes para visitarmos no tempo livre. Com exposições permanentes ou mesmo temáticas, museus contam a nossa história, nos remetem as nossas origens, nos fazem compreender o presente e pensar o futuro. Com acervos que podem ser de história natural ou de obras de arte, os museus são joias raras da cultura brasileira. Infelizmente, muito negligenciados pelo poder público e sofrendo com a falta de investimentos e manutenção, são recorrentes tragédias como as vivencias no Museu da Língua Portuguesa e no Museu Nacional no Rio. Então, permita-se mergulhar no mar de conhecimento do museu mais próximo de você. Tenho certeza que será uma experiência incrível! Fica a dica: Para os residentes da cidade do Rio de Janeiro, que tal ampliar sua rota dos museus para além dos conhecidos Museus do Amanhã, MAM e MAR e conhecer o Museu dos Pretos Novos ou o Museu Aeroespacial?

Museu dos Pretos Novos. Fonte: Google imagens.

Museu Aeroespacial. Fonte: Google imagens.

2. Trilhas e caminhadas – Para aqueles amantes da natureza, nada como mergulhar nas águas geladas de uma bela cachoeira ou mesmo pegar um solzinho na praia. Restabelecer nossa conexão ancestral com a natureza, nos compreender como parte de um grande sistema vivo além de propiciar uma grande sensação de bem-estar é essencial para repensarmos nosso impacto no planeta. Entender que dividimos este mundo, país e cidade com milhares de outras formas de vida que tem o mesmo direito a existir que nós, é o primeiro passo para a mudança de atitude. No seu tempo livre, aproveite para visitar os parques e unidades de conservação. As opções de lazer são muitas: caminhadas, trilhas, avistamento de fauna, mirantes e vistas deslumbrantes, cachoeiras, praias, ciclismo de aventura, escalada e por aí vai. Substitua a visita a locais de escravização e exploração animal (como a maioria dos zoológicos e aquários), pela imersão em um ambiente natural e conservado. Se entendêssemos que podemos ver os animais livres em seu habitat natural, nenhum ser vivo precisaria ser encarcerado. Acredite, nenhum aquário é maior do que o mar!! Valorize e visite a unidade de conservação mais próxima de você! Além disso, atividades físicas como caminhadas e trilhas são excelentes para nossa saúde, auxiliando na liberação de endorfina e aumentando a sensação de bem-estar. Então, partiu trilha? Fica a dica: No Rio, as opções de atividades na natureza são muitas! Fugindo do mais comum como a trilha da pedra do telégrafo e trilha da pedra da gávea, já pensou em ir na monumental Pedra do Osso ou na lindíssima Cachoeira do Mendanha? Ambos ficam na zona oeste da cidade, vale a pena a visita!

Vista para a Pedra do Osso. Fonte: Google imagens.

Vista para a Cachoeira do Mendanha. Fonte: Google imagens.

3. Áreas de lazer e espaços públicos – Pra quem está com aquela preguiça ou impossibilitado de fazer caminhadas mais longas ou trilhas, ainda existem muitas outras opções de atividades ao ar livre que exigem pouco fisicamente. Um passeio pelo centro histórico de sua cidade, pela orla ou mesmo um picnic naquela pracinha do bairro são ótimas opções para relaxar e distrair. Atividades que valorizam os atrativos locais fomentam a economia do bairro, auxiliam e justificam o investimento em ordenamento urbano, saneamento, manutenção de espaços e praças e permitem que a gente se aproprie do espaço enquanto coletivo. A ordem é: ocupar para conservar! Não tenho dúvida que no entorno de sua casa está cheio de locais interessantes para conhecer, com monumentos e construções que remontam a história do lugar e que são fundamentais para a construção da identidade local e da concepção de lar. Além disso, são sempre ótimas opções para levar as crianças para se divertir, o cachorrinho pra passear, andar de skate ou patins, jogar cartas no banquinho da praça ou mesmo assistir uma apresentação no coreto! Valorize estes espaços! Fica a dica: Alguns espaços públicos que fazem parte da vida do carioca são a Quinta da Boa Vista, o Parque Madureira e, mais recentemente, o Boulevard Olímpico. Todos com muitas possibilidades de lazer e atrativos! Só vai!

Quinta da Boa Vista. Fonte: Google Imagens.

Parque Madureira. Fonte: Google Imagens.

Boulevard Olímpico. Fonte: Google Imagens.

4. Espaços e apresentações de grupos culturais periféricos – Pra quem tem a frase “eu me remexo muito” como lema de vida, também não faltam opções! A arte está viva e pulsante em cada cantinho de nosso país. Com uma cultura tão rica e com multifacetadas manifestações em forma de música, dança e poesia, tem arte pra todo tipo de gosto, ouvido e sapato! Já pensou em passar um pouco do seu tempo livre assistindo ou prestigiando o grupo de dança contemporânea do seu bairro? Ou quem sabe recitais de poesia ou rodas de rap? Muitas vezes inviabilizados e marginalizados, os grupos e organizações independentes estimulam a produção e a divulgação de manifestações artísticas em regiões periféricas e empobrecidas. Na verdade, em muitos casos, estes grupos são a única forma de resistência destas pessoas, sua fonte de renda e subsistência e o meio pelo qual tem voz e expressam suas alegrias, denunciam suas mazelas e perpetuam a cultura local e de seus antepassados. Tem aquele grupo de forró, de carimbó. Tem aquele grupo de passinho (do funk), tem aquele grupo de soltinho. Tem o grupo de teatro da escola do bairro, tem o encontro de poesia das minas. Tem a feijoada com roda de samba, tem o encontro de repentistas. Se procurar com jeitinho você acha! Ainda que oprimida, a arte está em todos os lugares e dentro de nós. Dê visibilidade e, sempre que possível, incentive grupos artísticos e culturais independentes, todos nós ganhamos! Fica a dica: Do tradicionalíssimo Jongo da Serrinha aos passos sincronizados do Baile Charme, no Rio também tem muita arte pra ser apreciada por aí!

Casa do Jongo. Fonte: Google Imagens.

Baile charme. Fonte: Google Imagens.

Estas foram somente algumas das opções pra você aproveitar o seu momento de descanso, as tão sonhadas férias! Mas lembre-se: a melhor atividade de lazer é aquela que nos conecta com nós mesmos, com nossa identidade, com nosso lugar. Que fortalece as nossas raízes, mas que nos leva pra longe, para lugares inimagináveis. Ainda que este lugar seja o lugar do outro. E acima de tudo, aquela atividade que nos traz paz e que nos propicia o verdadeiro prazer de ser quem somos!

Partiu?

Por Rayanne Setubal

Bem vindos de volta leitores! Como foi o fim de ano de vocês? Bom, em janeiro nós tiramos férias das postagens, como avisamos no último post de 2020, para descansar, mas também para preparar muitas novidades para o ano de 2021. O nosso ano de postagens começa em fevereiro com texto extra! Um especial do Dia Mundial das Áreas Úmidas. Um dia muito importante para nós limnólogos e que não poderia passar em branco.

Equipe LimnoNews

Estamos comemorando mais um Dia Mundial das Áreas Úmidas, embora os motivos de comemoração sejam poucos. No país que permitiu que a maior área alagada do mundo, o nosso Pantanal, queimasse por semanas seguidas, dizimando fauna e flora, como será que as pessoas se relacionam com as áreas úmidas? Esse textinho vai tentar responder esta pergunta e aprofundar nossas reflexões sobre estes ambientes tão importantes e ao mesmo tempo tão ameaçados.

Uma definição única sobre áreas úmidas ainda não é consenso entre os pesquisadores e especialistas da área, mas o termo por si só é de fácil compressão para o público: úmido é aquilo que contém água. Será que só isso basta? Vejamos o que diz o Decreto N° 1905 de 16 de maio de 1996 que promulga a Convenção de Ramsar no Brasil:

“Para efeitos desta Convenção, as zonas úmidas são áreas de pântano, charco, turfa ou água, natural ou artificial, permanente ou temporárias, com água estagnada ou corrente, doce, salobra ou salgada, incluindo áreas de água marítima com menos de seis metros de profundidade na maré baixa.”

Um exemplo de área úmidas. Fonte: Google Imagens

Partindo desta definição, entendemos que as áreas úmidas incluem áreas continentais e costeiras, permanentemente ou sazonalmente inundadas, com habitats que variam desde lagos e rios a marismas, passando por estuários, lagoas, pântanos e recifes de corais. Com um número tão grande de ambientes, é difícil pensar em alguém que não tenha algum nível de relação com as áreas úmidas, elas estão por todos os lugares. As vezes nas belas fotos nas redes sociais, as vezes soterradas pelas cidades. São casa, abrigo e sustento para alguns, motivo de preocupação para outros.

Para entender como as pessoas se relacionam com as áreas úmidas, eu fiz duas perguntinhas bem despretensiosas para algumas pessoas próximas via aplicativo de conversas para celular. A ideia era de que os entrevistados respondessem espontaneamente, de forma que conseguíssemos extrair suas percepções genuínas sobre estes ambientes. As perguntas foram:

  1. Qual a importância das áreas úmidas na sua vida?
  2. Você acha que estes ambientes funcionam?

O Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Áreas Úmidas (INAU) apontam que as áreas úmidas são ecossistemas de alta importância para o ser humano por serem berço da cultura, por exercerem funções vitais para a nossa sobrevivência (alimentos, água, controle de inundações, etc.), abrigar uma enorme biodiversidade e influenciar diversos ciclos biogeoquímicos. Entretanto, a percepção da importância destes ambientes é fortemente influenciada pela experiência individual e contexto social nos quais diferentes pessoas estão inseridas. De forma geral, todos os nossos entrevistados reconheceram a importância, em algum nível, das áreas úmidas. Vejamos algumas respostas curiosas e inspiradoras:

Áreas úmidas são muito importantes na minha vida. Já morei em cidade sem área úmida e percebi o quão importante são para mim. Tanto para o lazer, quanto para o clima da cidade. Por clima, me refiro a temperatura variar menos ao longo do dia e também ao clima da população, que fica mais descontraída.”

“Os ambientes úmidos tem extrema importância para a minha vida, não é sem motivo que recebi o codinome “peixinho” na minha família. Não importava a temperatura, no Brasil, claro, se tivesse uma piscina, rio, cachoeira, ou o que quer que fosse, eu estaria lá! A minha única preferência era por água doce… Talvez por ter sido o ambiente mas próximo a mim.”

“A importância de áreas úmidas na minha vida vai desde a fonte da água que eu bebo, passando pelos alimentos que eu como, pela energia que utilizo, até o meu lazer. Elas são utilizadas para diversos fins pela população, incluindo agricultura e energia. Mas, antes de tudo, elas são responsáveis por uma biodiversidade gigantesca, com verdadeiros ecossistemas internos. Basicamente, a importância das áreas úmidas é: sem a água, não há nada, não há vida.”

“Acho que, de certa forma, contribui para regular a temperatura do local.”

“Áreas alagadas influenciam diretamente no equilíbrio do planeta, sendo importantes para tudo que é vivo. Na minha vida, especificamente ou diretamente, as áreas úmidas tem importância vital, inicialmente, por conta do abastecimento de água, seja para consumo ou para uso geral diário. Também tem a importância de Áreas Úmidas degradadas próximas a mim, como córregos que hoje estão poluídos/assoreados (os valões) que influenciam diretamente na qualidade do saneamento básico do local onde moro. Quando chove, sabemos que o transbordamento dessas áreas traz transtornos ao longo da cidade inteira. As áreas alagadas também são importantes na minha vida por conta da alimentação, pois sem elas a agricultura/pecuária/pesca são inviáveis.”

“Eu só consigo pensar na ecologia e como é importante pros bichinhos que vivem lá.”

“Muita. A água que bebemos vem dai. Maioria da energia elétrica no brasil tb vem de hidrelétricas. Além da fauna e flora, e esses ambientes influenciam até a umidade do ar e no tipo de solo do local.”

É interessante notar a variabilidade de percepções, mesmo com um grupo relativamente pequeno de entrevistados. Mas uma coisa é certa: as áreas úmidas estão aí, fazem parte da nossa vida e influenciam o nosso bem-estar. Como apontado nos depoimentos, as áreas úmidas são fonte de energia e comida. Regulam o clima e são essenciais para um enorme gama de espécies. Mas além disso, nossas lembranças e experiências pessoais são atravessadas pelas áreas úmidas, tanto pelo lado positivo (como por exemplo deixando o “clima das pessoas” mais descontraído) como pelo negativo (gerando transtornos quando ocorrem alagamentos). Na correria dos dias atuais, no isolamento social impostos em tempos de pandemia, pode ser que a gente não se dê conta da relevância destes ambientes na nossa vida. Mas basta o verão chegar, com ou sem geosmina, pra gente lembrar o quanto estes ambientes são importantes. Seja pro copo de água que a gente bebe, seja no banho de cachoeira que a gente se refresca, seja no medo do barraco desmoronar na próxima chuva que inexoravelmente virá.

E justamente nestas percepções da importância das áreas úmidas que reside o âmago de minha segunda pergunta. A geração de energia e alimentos, o controle climático, a beleza paisagística são típicos serviços ecossistêmicos prestados à humanidade pelas áreas úmidas. E estes serviços são provisionamentos mediados por funções e processos ecossistêmicos, na maior parte dos casos mediados pela vida, ou seja, pelas espécies. Por exemplo, para que o peixe esteja na nossa mesa compondo aquela tradicional receita familiar de moqueca, uma sequência complexa de transferência trófica e ciclagem de nutrientes foi processada e executada pelos habitantes de uma área úmida (os quais incluem outros peixes, aves, algas microscópicas, microcrustáceos e um lista imensa de outros “operários das águas”). Dentro de uma concepção mais acadêmica de funcionamento de ecossistemas, mensurar e investigar estes processos e a estrutura das comunidades que os executam é uma maneira de averiguar pelo menos parte do funcionamento das áreas úmidas. Portanto, ainda que alguns processos e, consequentemente, serviços ecossistêmicos possam estar comprometidos em ambientes degradados, ainda muitas outras funções podem estar acontecendo nestes ambientes. Nesse sentido, a minha pergunta pode ser sido um pouco capciosa ao não definir o que é “funcionar”, já que os entrevistados poderiam tanto assumir uma postura de beneficiários (quando considera que a área úmida só funciona quando lhe presta um serviço direto reconhecível), uma postura mais sistêmica (quando reconhece as funções mais amplas dos ambientes) ou ainda a postura de que os ambientes funcionam somente quando são mantidos pristinos. Vejamos as respostas:

“Sim, esses ambientes funcionam pois abrigam uma grande biodiversidade, interações entre os seres vivos, influência de fatores abióticos, o que tornam esses ambientes muito dinâmicos.”

“Acredito que funcionem sem a intervenção humana.”

“Funcionar sim.  Mas cada dia mais poluidos e pouco preservados no futuro não sei se continuarão.”

“Eu acredito que esses ambientes funcionam e muito, no sentido de cumprir/exercer seu papel, inclusive funcionam com as respostas/consequências das ações da humanidade sobre elas.”

“Eu acredito que, como ecossistemas, eles funcionam quando tem pouca interferência do homem. Funcionar no sentido de estarem equilibrados.”

“Estes ambientes funcionam para mim não somente como lazer mas como fonte de conhecimento. Tive a sorte de ter tido contato com um parque que hj está incluído numa zona de reserva ambiental. Sendo assim, aprendi muito sobre diversas vidas que vivem e dependem deste ambiente para sobreviver… Assim como eu, de forma indireta.”

Exemplo de Rio degradado. Fonte: Google Imagens

De forma muito curiosa, a maior parte dos nossos entrevistados citou a interferência humana sobre os as áreas úmidas quando questionados sobre o seu funcionamento. Ao pensar que a maior parte de nós convive com ambientes poluídos ou degradados, este resultado não surpreende. Portanto, é importante pensar que estes ambientes, ainda que degradados, exercem uma série de outras funções importantes em termos de paisagem (como por exemplo o controle de inundações) e que muitas outras funções podem ser restabelecidas com políticas públicas para recuperação de áreas degradadas. Precisamos romper com a lógica descartabilidade e compreender que as áreas úmidas são elementos chave para o desenvolvimento das sociedades humanas. Aquela área úmida que é aterrada, descartada, degradada hoje, é o nosso problema de amanhã.

Exemplo de importância das áreas úmidas para controle de inundação. Fonte: @arvoreagua

Restabelecer nossos vínculos com a água, refutar mitos como “áreas úmidas trazem doenças” são algumas ações urgentes para revertermos o atual cenário de perda de áreas úmidas. Estes ambientes e seus habitantes nos fornecem tantos benefícios sem pedir nada em troca. O mínimo que podemos fazer é compreender que eles têm o mesmo direito de habitar este planeta quanto nós. Que dádiva é experienciar em mundo tão cheio de lagos, lagoas, rios, manguezais, estuários, poças, brejos, recifes, marismas…….

As belezas das áreas úmidas. Fonte: Google Imagens.

Um feliz Dia Mundial das Áreas Úmidas e que a gente nunca se esqueça que vivemos num planeta que tem mais água que terra, que a nossa existência se concretiza em um corpo que tem mais água que qualquer outra substância. Que a gente possa olhar com mais carinho e cuidado para nossas áreas úmidas, pois sem elas não pode existir nós.   

Por Rayanne Setubal

Publicado por: Laboratório de Limnologia/UFRJ | dezembro 31, 2020

[Primeiras experiências] Editoras do LimnoNews

Dezembro é um mês de fechamento de ciclos. O ano está acabando e as pessoas costumam ficar nostálgicas. Pensando nisso e pensando também em aumentar o contato de nós, editoras do blog, com vocês, pois passamos esse ano lendo, organizando e divulgando os textos maravilhosos que tivemos, decidimos escrever um pouco. Principalmente num ano conturbado como foi 2020 nós resolvemos dar voz a toda nossa nostalgia e trazer um pouco do que gostamos de chamar “Projeto Primeiras Experiências”. Hoje nós fechamos 2020 falando de uma experiência única nossa. Editar o blog LimnoNews pela primeira vez, sendo quatro mulheres, no meio de uma pandemia de COVID-19 e de forma remota. Gostaríamos de agradecer a todos que nos ajudaram ao longo desse ano, esperamos que vocês também tenham gostado do blog em 2020 e que ele continue crescendo em 2021. Nossa despedida e nosso agradecimento a todos.

Equipe LimnoNews

No começo de 2020, o blog LimnoNews estava passando por um momento difícil: não eram postados textos desde julho de 2019. Até então o blog era conduzido com maestria por 3 alunos do laboratório: Rafael Lira, Tauany Rodrigues e Raquel Mattos, que tentavam fazer o blog andar de toda a forma que conseguiam. Porém, conforme suas responsabilidades iam aumentando – entrada no mestrado, defesas e entrada no doutorado – aliada a falta de adesão de grande parte do laboratório para com o blog, eles se viram na necessidade de “passar o bastão” e assim chegamos a configuração atual da edição do blog: Ana Luiza Lima, Letícia Azevedo, Luiza Costa e Raquel Mattos. É válido ressaltar que durante esse período de transição de editores, tivemos o apoio dos antigos editores que não romantizaram como seria complicado conduzir o blog e conseguir os textos, ao mesmo tempo em que nos diziam que também não seria impossível. De fato, não foi. Pelo contrário, os frutos que colhemos ao longo de 2020 no Blog nos mudaram e surpreenderam de uma forma antes impensável. 

Com a nova organização e condução do Blog (2020), algumas mudanças aconteceram!! Montamos arquivos mostrando como postar um texto e como começar a escrevê-lo!! A página do blog também sofreu mudanças no layout e, com base nas respostas de vocês ao formulário, buscamos equilibrar mais as postagens para que ninguém ficasse sobrecarregado nem se sentisse obrigado a postar. Sugerimos temas, deixando mais livres, para que qualquer um pudesse compartilhar algo do seu interesse!! Montamos também meses temáticos: tivemos o bloco de textos/podcasts, o mês da Educação, o mês da Consciência Negra e agora o mês de Primeiras Experiências. Procuramos contatos e histórias fora da Limnologia/UFRJ, o que aumentou nosso alcance e nosso aprendizado também!! Tiveram meses que tivemos texto toda semana!!! Semanas, com texto todos os dias!! Em novembro, por exemplo, publicamos 11 textos, onde na semana da Consciência Negra (16 – 22/11/2020) tivemos textos TODOS OS DIAS!! Isso mostra nossa vontade de fazer um trabalho lindo, de qualidade, capaz de chegar em muitos lugares!! E nos aguardem, temos mais mudanças pro ano que vem!! 

A ideia dos meses temáticos surgiu de uma necessidade de dar voz e mais espaço a temas que atravessam nossa vida, nossa formação e nossas lutas. Nosso primeiro mês temático foi o mês da educação em outubro, mas para entender como ele foi idealizado precisamos voltar um pouco no tempo. Quando tivemos o bloco de textos/podcasts e tínhamos textos semanalmente nos deparamos com duas questões: de um lado tínhamos muito mais trabalho com textos semanais do que quinzenais (era menos tempo para ler o texto, revisar, postar e tudo mais) e do outro lado tínhamos medo de ser muito maçante e consequentemente termos menos engajamento dos nossos leitores (vocês!). Mas fomos surpreendidas e o arranjo de textos semanais foi um grande sucesso! Com isso, decidimos que daquele momento até o fim de 2020 teríamos textos toda semana.

Foram muitas conversas, reuniões e ideias para fazer com que o novo arranjo de postagens no blog funcionasse. Até que chegamos na organização do mês de outubro e lembramos que tínhamos uma data temática: o dia do professor. No meio de uma série de nomes e deliberações (e talvez num momento de surto coletivo) nasceu o mês da educação. Foi um sucesso! Textos lindos e tocantes – todos escritos por mulheres fantásticas – e pela primeira vez abrimos espaço para que pessoas fora da limnologia pudessem compartilhar suas experiências. Em seguida, tínhamos o dia da Consciência Negra, em novembro, e com todos os acontecimentos de racismo que marcaram 2020, esse mês temático se fazia mais do que necessário. Porém, fomos mais longe do que no mês da educação: além de posts semanais, na semana da consciência negra teríamos textos todos os dias. 

Mas não foi fácil colocar essa ideia em prática. Tivemos muita dificuldade em encontrar figuras negras dentro do laboratório ou mesmo dentre os nossos colegas da graduação e pós, mas não desistimos. Depois de muita deliberação e busca, conseguimos. Foi um mês incrível, com textos emocionantes e que mostravam a importância de termos referências negras e de questionarmos por quê não temos negros ocupando diversos espaços e o que isso significa na sociedade que vivemos. Foi um mês tão marcante e potente que fomos convidadas para participar de uma live da ABLimno. Tivemos um alcance que nem no nosso sonho mais otimista imaginávamos e levamos o debate e as vozes de todos aqueles que colaboraram conosco no mês da consciência negra para um público muito maior do que o nosso laboratório. Levamos o blog para um lugar que nem tínhamos a pretensão de alcançar. Isso só reforça a importância do blog como um espaço de troca e aprendizado que vai além da limnologia. 

O ano de 2020 com todas as suas dificuldades nos mostrou que podemos pensar além. O blog é sobre Limnologia, mas ele também é sobre educação, sobre ciência e, principalmente, sobre pessoas e as pessoas são mais do que as suas pesquisas, mesmo que as mesmas sejam grande parte da dedicação de suas vidas. Ao longo desse ano aprendemos que falar sobre divulgação da ciência tem que ir além… e se engana quem acha que já tínhamos tudo isso planejado desde o início, não, isso foi construído por nós ao longo do ano, de nossas vivências, questionamentos, mas também de demandas de nossos leitores e da realidade do nosso país.

Na formação atual do blog somos 4 mulheres. Ser mulher, principalmente, ser mulher na ciência é um privilégio mas, também uma batalha. O ambiente acadêmico ao longo de toda sua existência teve uma cara, um gênero, uma raça e uma classe social e nós vimos a oportunidade de estarmos à frente de uma ferramenta de divulgação como uma forma de mostrar que a ciência pode ser plural. Nós sentimos o dever de trazer muito mais, de mostrar que o pesquisador é mais do que um jaleco num laboratório. 

O cientista também pode ser mulher, também pode ser professor/a, divulgador/a, pode ser IC, mestrando, doutorando ou pós doc, pode ir pra rua lutar pela universidade, pode montar uma barraca na praça e conversar sobre ciência, pode estar na Youtube, no Instagram, fazendo podcast e dando palestra. A ciência tem que estar na periferia, na escola pública, tem que ser uma realidade para mais do que homens, brancos que tiveram pais para bancar sua formação. Algo que 2020 nos mostrou é a importância da representatividade, de mostrar a cara do pesquisador, de mostrar que fazer ciência é um aprendizado eterno, é ter medo de dar errado, é passar perrengue em campo ou congresso, é fazer amigos, é ter ajuda porque ciência não se faz sozinho.

Por tudo isso que foi falado, reforçamos que o blog é mantido por um coletivo!! Somos 4 editoras, mulheres, no começo da nossa jornada acadêmica. Estamos como organizadoras do blog LimnoNews, mas não somos as únicas responsáveis pelo sucesso dele!! Precisamos de vocês para escreverem, sugerirem temas, fazerem críticas, etc. Então, entrem em contato com a gente, mandem textos e ideias!! Bombamos em 2020 (apesar do ano caótico) e queremos continuar assim em 2021!!

Aproveitando o último texto do ano vamos dar uns SPOILERS para o que vem. Em 2021 pretendemos trazer vários temas novos, vamos abrir formulários para que vocês possam mandar ideias, teremos novos meses temáticos, estamos entrando em contato com pesquisadores incríveis para somar no nosso grupo e também planejamos muitos temas bem limnológicos. Além disso,  pretendemos abrir mais vagas para a organização do blog LimnoNews!! ISSO MESMO!! PARA TUDO!!! Estamos montando uma seleção para o próximo ano!! Além de ser uma experiência muito boa, que pode contar no currículo ou em um processo seletivo,  é uma excelente oportunidade para ficar mais por dentro da organização de um blog, como fazemos o planejamento, a divulgação, o contato com outras pessoas, etc!! Temos sempre reuniões para discutirmos tudo isso!! Fiquem atentos às nossas mídias sociais! E se você quiser saber mais sobre o blog, mas sem querer entrar na organização, fique a vontade para entrar em contato com qualquer uma de nós ou pelo nosso email e instagram! As novidades são muitas e essas são apenas algumas, por isso, informamos que o blog entrará de férias em janeiro para que possamos planejar 2021 com mais calma e também compilar as ideias de vocês. Porém, não fiquem tristes, em fevereiro nós voltamos com força total e até lá vocês podem revisitar os textos que tivemos esse ano, FORAM MAIS DE 60!

Bem pessoal, o ano foi muito complicado para todos… Lá em março, ninguém imaginava como seria esta quarentena… Quase um ano dentro de casa… Não houve aulas por um bom tempo, projetos ficaram parados, laboratório vazio… Muitos ficaram doentes, pessoas se foram, foram muitas perdas, algumas insuperáveis. Mas no meio de tudo isso, muitas coisas foram acontecendo também, que nos deram um pouco de esperança e mais vontade pra continuar!! Pessoas se tornando mamães e vovós… Defesas de mestrado e doutorado brilhantes… Muitos de nós participaram de muitas lives e debates online, trazendo mais discussão de qualidade!! Permanecemos juntos, mesmo distantes fisicamente!!

E com isso o Blog foi crescendo, participamos de lives, tivemos meses temáticos, nos posicionamos e continuamos lutando pela ciência acessível, democrática e inclusiva!! Queremos agradecer a todos da equipe Limnologia, aos que propuseram textos, aos que aceitaram nossos convites, aos externos que agora fazem parte da história do blog e às inúmeras mensagens de carinho, afeto e apoio ao nosso trabalho!! O Blog é nosso, mas merece ultrapassar mais barreiras e criar novas pontes!! Estamos todos juntos na luta!! Um bom fim de ano e um início de 2021 melhor ainda!! Com muita paz, amor, alegrias, saúde, fé, vacina e muito mais histórias para serem compartilhadas no Blog LimnoNews!!

Por Ana Luiza Lima, Letícia Azevedo, Luiza Costa e Raquel Mattos.

Publicado por: Laboratório de Limnologia/UFRJ | dezembro 24, 2020

[Primeiras experiências] Amazônia

Dezembro é um mês de fechamento de ciclos. O ano está acabando e as pessoas costumam ficar nostálgicas. Pensando nisso e pensando também em aumentar o contato de nós, editoras do blog, com vocês, pois passamos esse ano lendo, organizando e divulgando os textos maravilhosos que tivemos, decidimos escrever um pouco. Principalmente num ano conturbado como foi 2020 nós resolvemos dar voz a toda nossa nostalgia e trazer um pouco do que gostamos de chamar “Projeto Primeiras Experiências”. Hoje nós vamos conversar um pouco sobre a Amazônia. Um dos lugares que faz os olhos dos biólogos brilharem e que felizmente nós tivemos a oportunidade única de conhecer ao longo da nossa trajetória acadêmica no Laboratório de Limnologia UFRJ. Por isso, resolvemos compartilhar um pouco desse momento, o conhecimento que adquirimos com essa experiência e um pouco de perrengue também. Qual é o seu campo dos sonhos? 

Equipe LimnoNews

Todo ecólogo tem o campo dos sonhos. Mesmo aqueles que não gostam de campo têm aquele bioma preferido, aquele bicho que sempre quis ver, aquela planta que sempre quis estudar ou aquele Parque Nacional que sempre quis visitar. Nós brasileiros temos um privilégio absurdo. Nosso país é gigante, latitudinalmente mesmo, e isso permite que nós tenhamos no Brasil diferentes domínios morfoclimáticos e, com isso, uma diversidade de ambientes e espécies que muitos países nem sonham em ter. Atualmente, é muito importante que essa diversidade seja valorizada, protegida e estudada, sendo uma das funções que qualquer pessoa que se importe com a natureza possui.

No Laboratório de Limnologia nós temos o privilégio de possuir um convênio que permite com que muitos alunos possam fazer suas pesquisas na Amazônia, sendo uma experiência única na formação dos alunos e permitindo que pesquisas possam ser feitas nessa região que ainda tem muita informação desconhecida. Nesse texto pensamos em retribuir, um pouco, a nossa oportunidade de ter ido nesse bioma como biólogos, com uma equipe de graduandos, pós-graduandos, técnicos e professores que nos ensinaram muito e propiciaram a nossa primeira experiência na Amazônia.

Graças a esse convênio alunos, professores e colaboradores participam do monitoramento em dois lugares no Pará: Carajás e Porto Trombetas. Essa é uma experiência muito peculiar por fazer com que o biólogo visite a Amazônia olhando para sua grandeza, mas também entendendo e avaliando as mudanças que estão acontecendo ali. Durante o monitoramento, o trabalho é intenso. Acordamos muito cedo e dormimos muito tarde, na maioria – leia-se quase sempre – dos dias. São inúmeras trilhas, inúmeros pontos de coleta, material para carregar, material para ser triado. É óbvio que há um cansaço, mas também há a recompensa de estarmos cercados pela energia única da Amazônia.

E já imaginou morar no meio da Amazônia? Ter contato com sons únicos, paisagens únicas? Pois bem, eu tive essa oportunidade durante a realização do meu projeto de mestrado!!! Foi um período de muito aprendizado, de muita troca, mas principalmente de crescimento! Ali, longe de casa, cercada pela floresta, por novas pessoas, por novas culturas, eu cresci enquanto pessoa e profissional!! Eu me senti pertencente àquele lugar, reconectada com as origens, preparada para me aventurar!! Meu sonho era conhecer a Amazônia!! Até meu medo de sapo ficou muito menor ali… Claro, tiveram momentos difíceis, como toda primeira experiência. Não tinha certeza se conseguiria realizar os experimentos dentro do prazo, a saudade às vezes apertava, as preocupações com os prazos, com as matérias da faculdade… Mas quando abria a minha janela e via aquela imensidão de Floresta, quando encontrava os quatis, as araras, as cutias, os mutuns andando livres do meu lado, tudo ficava tranquilo de novo!! Era ali o meu lugar!! Só posso ser muito agradecida por essa grandeza que temos no nosso país.

MOMENTOS MARCANTES

Ter ido nesse bioma, assim como em qualquer campo pelo nosso país, nos permite momentos marcantes sejam eles emocionantes, engraçados ou perrengues mesmo. Além de trazer de volta pro Rio de Janeiro malas, materiais, coletas, conhecimento e experiências, também trouxemos muitas memórias importantes que guardamos com carinho. 

“ A principal memória que eu tenho da Amazônia é a chuva, principalmente, a chuva dentro da floresta. Teve um dia que eu estava em uma coleta e do nada o tempo fechou e começou a chover, mas foi aquela chuva amazônica mesmo. Foi um momento muito emocionante, pois a floresta inteira mudou, o vento mudou de direção, poças começaram a se formar rapidamente, as aves pararam de cantar e até a lagoa ficou diferente. No dia seguinte, parecia que eu estava entrando em outra floresta, as poças já tinham girinos, muitas folhas estavam pelo chão, árvores tinham caído e a trilha parecia outra. Foi muito marcante ver essa mudança a olhos vistos, me senti integrada com a natureza…”

Ana Luiza Lima

“ Minha memória mais querida da Amazônia (além de ter comido o açaí de verdade com tapioca e ter provado todos os tipos de sucos possíveis rs) é a primeira vez que vi a Lagoa da Mata, a lagoa onde foi realizado meu projeto de mestrado. Lembro até hoje da minha ansiedade,  pouco contida dentro de mim!! A trilha que leva à Lagoa, por si só, já é incrível, as árvores gigantes, os barulhos, as poças formadas, os cheiros… E perto da Lagoa, havia um caminho pela canga cheio de flores roxas!! Minha cor favorita!! A primeira vez que vi, me senti recepcionada, como se a floresta me desse permissão para estar ali. Toda vez aquelas flores me recebiam, me alegravam e me guiavam para a Lagoa da Mata, meu ecossistema aquático favorito!!  ”

Raquel Mattos

“Minha memória mais marcante da Amazônia é o P36. Este é um dos igarapés monitorados durante a campanha em Carajás e é o mais temido por muitos. Antes mesmo de sonhar em ir para o monitoramento eu já tinha escutado inúmeras histórias sobre esse ponto e sua dificuldade. Lembro que no dia que íamos coletar nele, eu acordei super nervosa e com medo de dar alguma coisa errada ou de não conseguir fazer a trilha. De fato, é um ponto muito complicado, principalmente por ser praticamente um mergulho de 90º no meio da floresta. O detalhe é que até chegar na parte da floresta propriamente dita tinha um longo caminho pela canga debaixo de muito Sol, que dificulta muito o caminho já que íamos coletar com os mochilões cheios de frascos e equipamentos. E se na ida já era complicado, a volta era mais ainda porque o peso nas mochilas aumentava e o cansaço também. Mas esse nem foi o pior ponto do monitoramento para mim (alô SW31). Bem, uma vez que a trilha acabou e chegamos no igarapé fiquei extremamente emocionada: um igarapé lindo no meio da floresta; aquele barulho da água se misturando com o dos animais; árvores lindas e enormes. Ali toda dificuldade valeu a pena para ter aquela recompensa.”

Luiza Costa

“Minha lembrança mais marcante da Amazônia, com certeza, foi minha primeira coleta na Lagoa da Mata. Foi um mix de emoções que nem consigo descrever. Desde os 11 anos eu sonhava em conhecer o bioma que -a meu ver- é o mais lindo e emocionante de todos. A trilha que leva à lagoa, as árvores, as áreas de canga, os inúmeros insetos voando, as várias pererequinhas pulando, o trapiche, a lagoa, o ambiente… tudo ali me fazia sentir a realização de um sonho. Me senti como se vivesse num mundo perfeito, e também me senti realizada por ter escolhido uma carreira que me traz tantos momentos bons. Posso afirmar sem nenhuma dúvida que essa foi minha melhor viagem. E que toda ela foi inesquecível.”

Letícia Azevedo

Essas nossas aventuras ocorreram na Floresta Nacional de Carajás, Pará. Dentro dessa floresta também há o Parque Zoobotânico Vale, criado em 1985. Ele abriga espécies de flora e fauna nativas da Floresta Amazônica, ocupando uma área de 30 hectares preservados. É possível ter uma experiência de imersão na Floresta, vendo muitas espécies circulando livremente, como aves, cutias e macacos. Além de apoiar projetos de pesquisa, apresenta um zoológico, um hospital veterinário, um orquidário, um herbário e salas de coleções, de exposição e de educação ambiental. São aproximadamente 360 animais sendo cuidados ali, entre aves, mamíferos e répteis. Encontramos gavião-real, onça -pintada, suçuarana, entre outros. E olha que legal, agora na pandemia, eles estão com um tour virtual!! Vale a pena conhecer esse pedaço da Floresta Amazônica e sua diversidade!!

Perrengues de avião 

Outro perrengue comum é em relação a avião. Na volta da Amazônia o vôo em que eu estava foi cancelado, não tinha outro vôo, pois o aeroporto só comportava um avião por vez e como era sexta feira o próximo vôo era apenas na segunda feira, pois o aeroporto fechava no fim de semana, algo que eu nunca tinha ouvido falar. Depois de passar horas no aeroporto, chegar no hotel e dormir por poucas horas, acordar as 3h da madrugada para poder pegar o vôo das 6h, pois o aeroporto fechou às 7h, conseguimos voltar pro Rio. 

Mas nem só os problemas na Amazônia podem te deixar presos lá. Durante minha última estada em Carajás, em janeiro deste ano, fiquei presa na cidade justamente no dia do meu aniversário (será que já era esse um sinal sobre o ano de 2020?). Acontece que em janeiro estavam ocorrendo chuvas fortíssimas em Minas Gerais, que é o local da nossa escala no retorno para o Rio. Sendo assim, fomos para o aeroporto de Carajás felizes porque o tempo lá estava ótimo, mas nosso voo tinha sido cancelado devido as condições em Minas. Com isso, passei meu aniversário num hotel em Parauapebas e com sorte conseguimos um voo na manhã seguinte e ao fim do dia estava em terras cariocas. Meio perrengue chique, né?

Um feliz natal a todos que vieram ler nosso texto em plena véspera do natal! Se cuidem!

Por
Ana Luiza Lima
Letícia Azevedo
Luiza Costa
Raquel Mattos

Referência Bibliográfica

http://www.vale.com/brasil/PT/initiatives/environmental-social/zoobotanic-park/Paginas/default.aspx

Publicado por: Laboratório de Limnologia/UFRJ | dezembro 17, 2020

[Primeiras Experiências] Primeiro Congresso Científico

Dezembro é um mês de fechamento de ciclos. O ano está acabando e as pessoas costumam ficar nostálgicas. Pensando nisso e pensando também em aumentar o contato de nós, editoras do blog, com vocês, pois passamos esse ano lendo, organizando e divulgando os textos maravilhosos que tivemos, decidimos escrever um pouco. Principalmente num ano conturbado como foi 2020 nós resolvemos dar voz a toda nossa nostalgia e trazer um pouco do que gostamos de chamar “Projeto Primeiras Experiências”. Hoje nós vamos conversar um pouco sobre Congressos acadêmicos e sobre esse lugar que respira ciência e troca de experiências. Como foi o seu primeiro congresso? Ou como você espera que ele seja? 

Equipe LimnoNews

Congressos…Com certeza uma outra primeira experiência que fica na memória né? O primeiro Congresso, muitas vezes, é o primeiro momento em que você viaja para apresentar sua pesquisa, é nele que você encontra aquele(a) pesquisador(a) incrível que você acompanha tudo que ele(a) publica igual capítulo de seriado da Netflix. Além disso, é o lugar que possivelmente vai ter a maior quantidade de pessoas interessadas em uma mesma área do conhecimento e, portanto, o assunto já está pronto. Seja Limnologia, Ecologia, Herpetologia, Ictiologia…vai ter muita gente trocando ideia e possivelmente é ali que você vai saber em primeira mão as linhas de pesquisa que estão surgindo, se desenvolvendo, se consolidando. 

Os Congressos são momentos únicos da formação de um cientista. Nele se concentra o ponto final de uma parte da pesquisa, muito do que está ali será publicado em breve, mas também muitas coisas novas surgem, assim como parcerias, orientações e amizades. No Congresso podemos ter contato com pesquisadores do Brasil e até do mundo todo e com eles viajar para diferentes lugares, conhecer diferentes espécies de animais e plantas e também descobrir resultados alarmantes, interessantes e até chocantes para algumas perguntas. Os Congressos são espaços de muitos pôsteres, apresentações orais e palestras, mas também são lugares para se discutir sobre o futuro da ciência, o papel das ciências naturais para nós biólogos, novidades em análises genéticas e de dados e também sobre maternidade e ciência, gênero e ciência, raça e ciência. São locais de troca antes de qualquer coisa e pensando em trocar, trouxemos alguns relatos dos nossos primeiros congressos…

O XVII Congresso Brasileiro de Limnologia (e 2º Congresso Ibero-Americano de Limnologia), realizado em agosto de 2019, foi minha primeira experiência em um congresso e ainda me proporcionou conhecer Florianópolis. Ainda que o nervosismo estivesse marcando presença, foi muito potente poder apresentar e discutir meu trabalho fora da minha zona de conforto: o Laboratório de Limnologia UFRJ. É verdade que foi praticamente uma caravana do laboratório para Florianópolis e que grande parte passou os dias do Congresso juntos: ficamos no mesmo hostel, íamos e voltávamos para o local do Congresso juntos, conhecemos pontos turísticos juntos, nos apoiamos nas apresentações, saímos juntos. Com certeza, isso contribuiu para que as lembranças do Congresso sejam tão boas. Poder ouvir opiniões e dicas de pessoas que eu conheci lá ou que eu só conhecia na autoria dos artigos, além de poder conhecer trabalhos tão plurais dentro da limnologia, foi muito marcante e importante para minha formação.

Figura 1: Laboratório de Limnologia no XVII Congresso Brasileiro de Limnologia, Florianópolis, 2019.
Figura 2: Luiza Costa no XVII Congresso Brasileiro de Limnologia, Florianópolis, 2019.

O XIV Congresso de Ecologia do Brasil, realizado em São Lourenço, Minas Gerais, foi uma das minhas primeiras experiências em congressos. Lembro que muita gente da faculdade estava animada com esse evento. Eu e mais duas amigas começamos a procurar informações sobre a cidade, passagem e fomos preparando nossos projetos. Uma das coisas mais legais pra mim foi que nós três, no início da nossa jornada acadêmica, corremos atrás para participar desse congresso, uma ajudando a outra, inclusive na escrita dos resumos, na montagem dos pôsteres e na hospedagem!!! Pra mim, foi muito bom trocar com pessoas de diferentes áreas, conhecer outros projetos e apresentar o trabalho que tanto amo!! Passeamos pela cidade, pelo Parque das Águas, que vale a pena conhecer, e criamos momentos únicos. O mais importante pra mim sobre Congressos é as múltiplas possibilidades que se criam, as portas que se abrem e as histórias que ficam nas fotos e na memória!!!

Figura 3: Ana Luiza Lima, Letícia Azevedo e Raquel Mattos no XIV Congresso de Ecologia do Brasil, São Lourenço, 2019

O IX Congresso Brasileiro de Herpetologia ocorreu na UNICAMP, em Campinas, SP, em julho de 2019 e foi o meu primeiro congresso. A experiência foi bem diferente, pois era um congresso de Herpetologia – ciência que estuda os Anfíbios e Répteis – então, o tema já estava pronto. A experiência já começou com a organização de tudo. Eu fiz umas 5 versões de resumo, mudei o layout do pôster várias vezes, pesquisei muitos lugares até encontrar um que fosse perto da UNICAMP e que coubesse no bolso. Além disso, por ser um Congresso de uma área diferente, eu fui sozinha, o que foi uma experiência ótima para mim como pessoa e como pesquisadora. Eu me encantei pela UNICAMP e por Campinas, ia a pé todos os dias para o Congresso, e o frio era ótimo. O privilégio de estar num evento com tantos pesquisadores que eu só conhecia dos artigos, poder conversar com outras pessoas que trabalham com os mesmos bichos que eu e também ficar por dentro de todas as novidades do meio foi ótimo, mas é claro que o concurso de imitação de vocalização é a melhor parte, rs. Brincadeiras à parte, minha lembrança favorita é a da mesa redonda “Mulheres na Herpetologia: ontem, hoje…e agora? Discutindo gênero para uma efetiva inclusão”

Figura 4: Foto do crachá do IX Congresso Brasileiro de Herpetologia, Campinas, 2019
Figura 5: Algumas das Herpetólogas presentes no evento (Imagem retirada do Instagram @herpetosegundoherpetologas).

O primeiro Congresso pode dar muito medo, mas a dica geral que damos é “se joga e vai”. O ambiente de um Congresso respira ciência, tem muita gente que sabe muito do assunto e que você morre de medo que te faça uma pergunta,se for em inglês então… mas também tem muita gente que nem você, vivendo aquilo pela primeira vez e o principal de tudo, todo mundo ali está disposto a aprender algo novo. O medo faz parte, mas a satisfação de ter participado, vivenciado e, com toda certeza, ter aprendido muita coisa nova é única e é algo que você leva para sempre. E você leitor cientista, como foi seu primeiro Congresso? 

Por Ana Luiza Lima, Letícia Azevedo, Luiza Costa e Raquel Mattos.

Publicado por: Laboratório de Limnologia/UFRJ | dezembro 10, 2020

[Primeiras experiências] Apresentações orais e diálogos científicos

Dezembro é um mês de fechamento de ciclos. O ano está acabando e as pessoas costumam ficar nostálgicas. Pensando nisso e pensando também em aumentar o contato de nós, editoras do blog, com vocês, pois passamos esse ano lendo, organizando e divulgando os textos maravilhosos que tivemos, decidimos escrever um pouco. Principalmente num ano conturbado como foi 2020 nós resolvemos dar voz a toda nossa nostalgia e trazer um pouco do que gostamos de chamar “Projeto Primeiras Experiências”. Hoje nós vamos conversar um pouco sobre apresentações orais, a famosa habilidade de falar em público. Muitas pessoas têm medo e quase sempre é algo que nos deixa com um frio na barriga. No entanto, é um momento importante da pesquisa e da divulgação do conhecimento científico mesmo que nem sempre seja algo que possuímos facilidade. Você lembra da primeira vez que você apresentou o seu trabalho? 

Equipe LimnoNews

Quem aqui nunca ficou nervosx com apresentação oral? Acho impossível que exista uma pessoa que não sinta aquele frio na barriga, a adrenalina, a expectativa de ter uma boa troca com o público… Será que vão gostar? Será que vão me fazer perguntas que não saberei responder? Será que vou falar rápido demais? Bem, começamos o texto de hoje falando que você não está sozinho nessa. Todos passamos por isso!! Desde o estudante de iniciação científica, que precisa apresentar nas Feiras da Faculdade, até o orientador, com 5 pós-doutorados, que precisa apresentar os resultados da pesquisa num congresso ou para uma empresa. Trazemos aqui, portanto, nossas primeiras experiências com apresentações orais, nossas angústias, nossas conquistas, dicas, etc. Afinal, falar em público não é fácil, mas divulgar a ciência que amamos é muito bom!!!

Experiência em prêmios

Minha primeira experiência em apresentação oral foi um pouco diferente da maioria. Eu fui finalista do Prêmio Luísa Pinho Sartori em 2019 e, com isso, tive que preparar uma apresentação, com o enfoque na conservação, visto que era o objetivo do prêmio. Essa experiência foi diferente, pois não era como a apresentação de um TCC ou de um trabalho, não ia ter uma nota no final da apresentação. Por outro lado, me proporcionou o exercício de pensar a minha ideia, no caso o meu projeto, a luz da conservação que é uma área do conhecimento diferente daquela que eu tinha estruturado o trabalho originalmente. Além disso, foi uma experiência interessante, pois eu ainda estava no início do trabalho e já pude receber um retorno de diferentes pesquisadores – que compunham a banca – que foram muito gentis e me deram várias ideias que eu pude utilizar quando fui continuar o projeto e no futuro apresentá-lo como trabalho de conclusão de curso.  

Experiência em Semanas Acadêmicas

As semanas acadêmicas como a SIAC (Semana de Integração Acadêmica) e a JIC (Jornada de Iniciação Científica) são momentos bem comuns na experiência universitária, seja em apresentações de powerpoint ou pôsteres. A minha primeira experiência na SIAC foi na apresentação de pôsteres na seção de meio ambiente e biodiversidade do evento. O mais legal da SIAC é que não é como um congresso com o tema específico, todos os cursos da Universidade participam, compartilhando a experiência de pesquisa científica, principalmente em Iniciação científica e extensão universitária, de todas as áreas do conhecimento. O evento dura uma semana e é uma verdadeira imersão. Na minha primeira SIAC como apresentadora de pôster eu pude conversar com pessoas de diferentes de cursos do Centro de Ciências da Saúde, desde Biologia há Odontologia e além disso, pude conversar com funcionários também e pessoas comuns que estavam passando no prédio em direção ao Hospital ou a Farmácia Universitária. Essa experiência é muito importante, pois são todos alunos e você pode ter uma troca muito rica, desde conteúdo até de como montar um pôster mais bonito.

Experiência nas ruas

Apresentar um trabalho nas ruas tem como principal desafio a diversidade do público. Quando apresentamos em congressos ou semanas acadêmicas, ainda que fiquemos nervosos, estamos na nossa zona de conforto: a nossa plateia entende ou pelo menos está familiarizada com o tema, de modo que a linguagem muito técnica ou específica não é uma preocupação. Porém, quando o público passa a ser uma pessoa que estava passando na rua e se sente atraída por um banner, uma atividade ou um stand montados no meio da praça a grande preocupação é a de fazer com que aquela pessoa entenda seu trabalho com uma linguagem simples e sem as palavras técnicas que afastam tanto a sociedade do que é feito na academia. Nesse tipo de apresentação, o principal nervosismo é o de conseguir utilizar a linguagem adequada e abandonar o “cientifiquês” tão presente nos trabalhos acadêmicos. 

Minha primeira experiência na rua foi no Bio na Rua, projeto de extensão desenvolvido pelos alunos do Instituto de Biologia que visa levar conhecimentos científicos para as pessoas de fora do ambiente acadêmico. O objetivo do estande em que eu participei era a Desmistificação dos Manguezais utilizando jogos de tabuleiro no qual as pessoas podiam aprender sobre os animais que encontramos nos manguezais, colocando aqueles que elas achavam que tinham e que não tinham nesses ambientes. A própria apresentação do ambiente, utilizando uma linguagem simples e muitas imagens e esquemas, sempre se preocupando em pensar qual a melhor linguagem para apresentar esse ecossistema que é tão presente no Rio Janeiro, comparando também com outros ecossistemas existentes no nosso Estado.

Experiência em Congresso

Minha primeira experiência com a apresentação oral num congresso internacional ocorreu no XVII Congresso Brasileiro de Limnologia & 2º Congresso Ibero-americano de Limnologia, realizado em Florianópolis, Santa Catarina. Na verdade, foram 2 congressos em 1, então, a ansiedade foi dupla também!! Sendo meu primeiro Congresso, na área que eu amo, apresentando sobre meu projeto de mestrado, eu já estava muito nervosa, mas muito mais animada com a possibilidade de viajar, conhecer outros lugares, novas pessoas e pesquisas diferentes!! Quando submeti o projeto para apresentação oral e fui aceita, foi uma sensação muito boa, de que eu estava no caminho certo com o projeto!! Mas foi um caminho de muito nervosismo até chegar o dia da apresentação… Muitos treinos no laboratório, com meus pais… O material precisava estar em inglês e isso foi mais um desafio para mim. Na plateia, além da equipe do laboratório, eu estava diante de pessoas de várias nacionalidades, algumas eu conhecia por nome, pela sua importância na limnologia, alguns professores que me inspiraram nessa profissão e muitos desconhecidos.. Era um mar de gente, numa sala pequena, interessada em ouvir sobre meu projeto. Sendo sincera, eu não vi o tempo passar. Mas quando acabei, vieram os aplausos, a sensação de dever cumprido e os abraços dos amigos que comemoraram comigo mais uma etapa. Recomendo essas aventuras em Congressos, recomendo a troca de experiências e de informações, precisamos divulgar nossos trabalhos e conhecer outras pesquisas para que a ciência avance cada vez mais. 

Experiência em EAD

Ainda que possamos pensar que quanto mais apresentações presenciais façamos menos nervosos ficaremos, o ano de 2020 trouxe um novo desafio que para mim foi ainda pior do que ter que apresentar um trabalho oralmente para diversas pessoas que não conhecemos: a apresentação de trabalhos de maneira remota/online. Devido a pandemia do Covid-19 tudo precisou ser adaptado, inclusive a forma com que os trabalhos eram apresentados. Como tinha me inscrito no Projeto em Ecologia, uma RCS do Departamento de Ecologia da UFRJ que funciona como o TCC para o bacharel, antes mesmo da pandemia, quando esta chegou e precisei apresentar meu projeto tudo aconteceu de forma remota. Eu achava que por estar apresentando meu trabalho no conforto da minha casa, sem precisar olhar para uma plateia cheia, só olhando para a tela do meu computador seria muito mais fácil, porém estava completamente enganada. Na verdade, acho que fiquei mais nervosa com a apresentação online do que numa apresentação presencial. O medo de que desse algum problema com a internet, ou que o computador travasse, a luz acabasse e todos os problemas técnico possíveis são adicionados ao medo que toda apresentação já tem por si só. Foram muitos treinos, para meus amigos, meus pais, sozinha e na hora deu tudo certo. Ainda que eu tenha sentido muito falta de olhar para quem estava assistindo enquanto apresentava e sentisse saudade do Salão Azul, teve uma vantagem que fez tudo valer a pena: meus pais, meu irmão e meus amigos puderam assistir minha apresentação ao vivo via Youtube o que jamais teria acontecido se a apresentação tivesse acontecido no Salão Azul, no Fundão e num horário que provavelmente a maioria estaria enrolada com outras coisas. 

Espero que logo possamos voltar a ter apresentações como antes, com todos aglomerados nos auditórios de maneira segura, óbvio. Mas até lá que possamos enxergar as coisas boas que esse novo formato trouxe, numa tentativa de conforto perante a tanto caos que estamos vivendo graças a pandemia.

Por: Ana Luiza Lima, Letícia Azevedo, Luiza Costa, Raquel Mattos

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