Publicado por: Laboratório de Limnologia/UFRJ | maio 13, 2021

[Mês das Mães] Mãe e cientista: A mulher tem o direito de poder e ser o que quiser

No mês de Maio nós estamos celebrando o Mês das mães com o objetivo de trazermos mulheres que se dedicam a maternidade, a ciência, a docência e ao estudo da maternidade nos espaços acadêmicos, além da luta das mulheres pelo direito de pertencerem a esses espaços que muitas vezes as excluem e as invisibilizam. Hoje, nós temos conosco a pesquisadora Bianca Zorger, mestre em Botânica pela UFPE, doutoranda em Ecologia e Evolução pela UERJ e mãe. A Bianca nos trouxe hoje um pouco da sua jornada sendo mãe e pós-graduanda, jornada essa que ainda não acabou. É muito importante para nós, do LimnoNews trazer relatos reais de mães no ambiente da pós-graduação que ainda hoje é extremamente excludentes para a maternidade, visto o efeito de gargalo que ocorre ao longo da jornada acadêmica. Mulheres como a Bianca, que criam seus filhos junto com uma tese/dissertação merecem voz e é com muito carinho que trazemos a jornada dela aqui. Esperamos que aproveitem…

Equipe LimnoNews

A história da inclusão feminina como influenciadora da sociedade foi uma caminhada de luta e resistência, iniciada, sobretudo pelo direito ao voto, quando finalmente as mulheres tiveram poder para mudar o seu destino. Ao citarmos esse momento histórico parece que o mesmo ocorreu há muito tempo, mas as mulheres votaram a primeira vez há apenas 88 anos, em 1933 no Brasil (TSE 2018). Apesar da grande conquista do direito ao voto, ainda hoje existe uma cultura enraizada na sociedade relativa ao patriarcado que influencia nossas gerações. Embora, atualmente as mulheres ocupem cargos semelhantes aos dos homens em muitos setores, em cargos de alta posição as mulheres ainda são a minoria (IBGE 2019). A desigualdade entre os gêneros é ainda mais acentuada quando levamos em consideração a maternidade. Essa realidade não é exclusiva do meio empresarial, mas atinge vários aspectos da sociedade dentre eles o meio acadêmico, no meio docente e em maior grau no meio discente. Isso é refletido pelo indicador onde até a graduação somos a maioria e essa proporção decai durante o doutorado que geralmente coincide com o período de formação de família, o que faz com que muitas mulheres e excelentes cientistas desistam da carreira (UNESCO 2021).

Figuras: (A) Trabalhando na tese; (B) Alfabetizando a Linda; (C) Aproveitando uma à outra (Arquivo Pessoal)

Atualmente sou estudante de doutorado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2018-2022) e em 2016 durante o mestrado tive uma filha. Durante o mestrado enfrentei muitas dificuldades. Há 5 anos apesar da licença-maternidade ser concedida, não tínhamos direito a prorrogação do prazo com bolsa. Esse direito foi conquistado no ano de 2017. Como eu iria viver em um estado diferente do da minha família e ainda com a responsabilidade de cuidar do bebê recém-nascido e sem renda? Apesar de todas as condições desfavoráveis, contei com o apoio dos colegas de laboratório, do meu orientador e do meu marido. Só assim, consegui concluir o mestrado dentro do tempo previsto, independentemente de ter conseguido, com certeza seria muito mais saudável para mim e para a minha filha contar com direitos que viabilizassem meu papel na maternidade naquele curto período de tempo.

Durante o doutorado eu e meu marido dividimos as tarefas do lar e os cuidados com a nossa filha e podemos trabalhar remotamente. Apesar disso, ainda hoje após um ano de pandemia é muito difícil a concentração na leitura e escrita em um tempo limitado, com rodízios, e sujeito a inúmeras interrupções. É como se a pandemia maximizasse ainda mais a nossa restrição de tempo. Toda essa situação somada a incerteza quanto a uma possível prorrogação de bolsa são fatores que geram muita ansiedade na gente como família. Às vezes fico imaginando as mulheres que são mães solo nesse novo normal o quanto deve ser ainda mais difícil para elas.

Assim como eu, muitas mulheres e mães se sentem cansadas e desmotivadas, mas o meu conselho é continuar resistindo (se possível) e ocupando nossos lugares no meio acadêmico. Somente ocupando esses lugares e sendo resistência poderemos realmente caminhar para um sistema mais igualitário e inspirar outras mulheres. Qual melhor voz para falar sobre isso que não a de uma pesquisadora & mãe? Durante a pandemia uma das coisas que me fizeram sorrir foram movimentos que lutam por um sistema acadêmico mais igualitário e inclusivo, especialmente o “Parent in Science”. Muitos artigos começaram a surgir e uma das grandes vitórias desse movimento foi a inclusão da licença-maternidade no currículo lattes. Um primeiro passo para uma maior igualdade em concursos públicos e processos seletivos! Mostrando que naquele período a mulher está se dedicando a se recuperar e nutrir um ser o que influencia em sua produtividade. Vitórias como essa sem dúvidas são um grande passo para mudarmos as coisas, rumo a gerações que possam desejar serem o que quiserem, inclusive cientistas, divulgadoras e mães!

Por Bianca Zorger

Bianca Butter Zorger está cursando o último ano de doutorado na Universidade do estado do Rio de Janeiro e desenvolve uma tese sobre a Vulnerabilidade de Plantas em Campos de Altitude e na Floresta Atlântica à seca e intercala esse tempo criando e alfabetizando sua filha, Linda de 4 anos, especialmente durante a quarentena junto ao marido. Agradeço pelo convite e por essa experiência maravilhosa blog LimnoNews. Agradeço as queridas Lidiane Cordeiro e Beatriz Zorger por terem lido e primeira versão desse texto e por me encorajarem a compartilhar um pouco sobre a minha história com vocês. Também deixo aqui o link do meu curriculum lattes para mais informações sobre a minha pesquisa (Aqui) e o link do querido laboratório no qual desenvolvo a minha pesquisa de doutorado

Referências

Instituto brasileiro de Geografia e estatística. IBGE 2019. Disponível em: https://censo2021.ibge.gov.br/2012-agencia-de-noticias/noticias/23924-diferenca-cai-em-sete-anos-mas-mulheres-ainda-ganham-20-5-menos-que-homens.html. Acesso em 05 de maio de 2021

United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization (UNESCO 2021). Disponível em: https://en.unesco.org/news/just-30-world%E2%80%99s-researchers-are-women-whats-situation-your-country. Acesso em 05 de maio de 2021.

Tribunal Superior Eleitoral (TSE 2018). Disponível em: https://www.tre-pr.jus.br/imprensa/noticias-tre-pr/2018/Fevereiro/24-de-fevereiro-dia-da-conquista-do-voto-feminino-no-brasil-1. Acesso em 05 de maio de 2021.

No mês de Maio nós estamos celebrando o Mês das mães com o objetivo de trazermos mulheres que se dedicam a maternidade, a ciência, a docência e ao estudo da maternidade nos espaços acadêmicos, além da luta das mulheres pelo direito de pertencerem a esses espaços que muitas vezes as excluem e as invisibilizam. Hoje, nós temos conosco a professora Laísa Freire que é professora adjunta do departamento de Ecologia da UFRJ, coordenadora de Ensino do curso de graduação em Ciências Biológicas – Ecologia e mãe do João Pedro e da Cecilia. Nesse texto a Laísa compartilha conosco a sua experiência com a maternidade, e trás, junto com os desafios, um olhar muito bonito e tocante sobre essa experiência em sua vida. Ao mesmo tempo em que ela nos trás os desafios da maternidade na docência esse texto trás muito carinho, esperança e dedicação. Esperamos que gostem…

Equipe LimnoNews

A cada dia todos nós mudamos o mundo, ação por ação, escolha por escolha. A cada dia o mundo nos muda, ação por ação, no seu tempo próprio. A maternidade chegou como um presente, como algo que eu esperava e desejava. Também chegou como um desafio. Foi no ano de 2010. Eu terminei o doutorado, passei no concurso para professora da UFRJ e no finalzinho do ano, engravidei. Tomei posse com o João Pedro na barriga. Não sei o que é ser pesquisadora sem dividir o tempo com a maternidade. Cinco anos depois, tudo mudou novamente! A Cecilia chegou para virar o meu mundo de ponta a cabeça. Apaixonante e desesperador ao mesmo tempo.

Daquele setembro de 2016 em diante eu tinha um casal! Ser mãe de dois virou um duplo desafio. O desafio de aprender a ser mãe de cada um e dos dois ao mesmo tempo, reconhecendo suas necessidades, demandas, personalidades e os efeitos das interações entre eles (figura 1). Ser mãe tem me ensinado que no dia a dia as coisas não são tão planejáveis ou exequíveis como o planejado, e nem por isso são piores ou caóticas, ou, em sendo caóticas – como são muitas vezes – não são necessariamente ruins. Isso se chama vida!! Sim, ser mãe e acompanhar o crescimento dos meus filhos é parte da vida que eu escolhi e é maravilhoso, caótico e inesperado. É um aprendizado a cada dia.

Figura 1: Sobre ser e estar. (Arquivo pessoal)

O triplo desafio é o de consolidar a carreira, o que certamente ainda está em curso. Ser pesquisadora na área de ensino de ciências é buscar estreitar os vínculos da biologia com seus processos educativos. É construir um objeto de pesquisa a partir de olhares de diferentes áreas do conhecimento, é transitar entre o local e o global (figura 2). É trabalhar em rede valorizando colaborações e parcerias nacionais e internacionais. É assumir o desafio da alfabetização científica/letramento científico em uma visão que vincula o conhecimento disciplinar às questões socioculturais, socioambientais e de participação política na vida social. É desenvolver projetos, submeter para a agências de fomento, mas… é também lidar com as frustrações…

Figura 2: Sobre viajar e realizar trabalho em campo. (Arquivo pessoal)

A frustração ao ver, algumas vezes, meus projetos recusados não pelo mérito, mas sim pela falta de uma política de valorização do desenvolvimento científico com amplo financiamento, aliada a um currículo profissional pouco competitivo e a uma produção de “baixo impacto” (se considerarmos os indicadores internacionalmente válidos). Sim, isso gera uma frustração e um sentimento de impossibilidade, mesmo eu sabendo que consolidar a carreira não é um movimento estritamente individual, pois há uma parte da ação que cabe às instituições e à existência de políticas públicas de apoio e promoção.

Recentemente, podemos observar que a maternidade tem estado de modo mais frequente nos debates acadêmicos brasileiros e a situação da pandemia de COVID-19 trouxe ainda mais luz a esse tema. O “Parent in Science”’ é um exemplo desse debate (https://www.parentinscience.com/) que antes da pandemia já tinha o intuito discutir a maternidade dentro do universo da ciência do Brasil dando visibilidade ao tema do impacto dos filhos na carreira científica de mulheres e de homens.

Durante a pandemia, enquanto pesquisadores sem filhos puderam aumentar a sua produção, as mães assumiram mais tarefas em casa que se avolumaram, pois antes eram compartilhadas com a escola, com as atividades extracurriculares, com os avós, etc. O estudo realizado sobre a produtividade acadêmica brasileira durante a pandemia mostrou que:

“especialmente para submissões de artigos, mulheres negras (com ou sem filhos) e mulheres brancas com filhos (principalmente com idade até 12 anos) foram os grupos cuja produtividade acadêmica foi mais afetada pela pandemia. A produtividade acadêmica de homens, especialmente os sem filhos, foi a menos afetada pela pandemia.”

(Levantamento realizado pelo Movimento Parent in Science durante o isolamento social relativo à Covid-19. Acesso aqui)

Apesar de experiências internacionais conhecidas e consolidadas o Brasil ainda tem um caminho a percorrer nesse âmbito. Há iniciativas, mas ainda pouco expressivas. No caso de bolsistas da CAPES as mães pesquisadoras têm direito à prorrogação da vigência de suas bolsas, por até 120 dias, em casos de parto, adoção ou obtenção de guarda judicial. As licenças são inseridas diretamente no sistema de bolsas pelas instituições de ensino superior ou pelos programas de pós-graduação (https://www1.capes.gov.br/36-noticias/10303-maes-cientistas-o-desafio-do-dia-a-dia). Outras iniciativas como os editais da FAPERJ Cientistas do Nosso Estado e Jovens Cientistas do Nosso Estado tem a maternidade nos critérios de avaliação da produtividade.

“No caso de pesquisadoras que se tornaram mães nos últimos seis anos será acrescido um ano na contagem do tempo de defesa e no período de avaliação da produtividade.”

(Edital “JOVEM CIENTISTA DO NOSSO ESTADO 2020” Acesso aqui)

Esse ano o CNPq incluiu no lattes um campo para a mãe pesquisadora indicar o período de licença maternidade (figura 3) é uma demanda antiga, que aponta um caminho e que pode desencadear outras ações.

Figura 3:  Reportagem sobre a inclusão do campo licença maternidade no currículo lattes. (Acesse aqui)

Apesar da produtividade ser afetada negativamente pela maternidade quando comparada em termos numéricos com a produtividade de pesquisadores sem filhos, ser mãe me ajuda a ser uma pesquisadora melhor do ponto de vista das relações interpessoais. Determinadas habilidades relacionais como a empatia, resiliência, delegação e a escuta sensível que a maternidade me proporcionou são importantes na relação entre orientador e orientando, no desenvolvimento de projetos de pesquisa. Tais habilidades poderiam ter sido desenvolvidas a partir de outras experiências de vida, mas para mim ficaram mais explícitas com a experiência da maternidade.

Ações como as de visibilidade da maternidade na carreira da pesquisadora podem ser pequenas para os órgãos de fomento, mas certamente fazem diferença para a pesquisadora. Desde questões relacionadas à autoestima até condições materiais de trabalho passando pelo próprio fomento de projetos de pesquisa. São pequenas ações que marcam a nossa vida, que marcam a vida dos nossos filhos e fazem grandes diferenças!

PS. Enquanto eu escrevia esse texto, parei inúmeras vezes para atender aos filhotes usando uma palavra bastante pronunciada lá em casa: MÃE.

Por Laísa Freire

Laísa Maria Freire dos Santos possui graduação em Ciências Biológicas pela UFRJ, mestrado em Ciências pela Escola Nacional de Saúde Pública – Fundação Oswaldo Cruz e doutorado em Educação em Ciências e Saúde pelo Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências e Saúde – NUTES/UFRJ com estágio de doutorado na Universitat Autònoma de Barcelona. Atualmente é professora adjunta da UFRJ e coordenadora de Ensino do Curso de Ciências Biológicas – Bacharelado Ecologia. Trabalha no Instituto de Biologia, departamento de Ecologia no Laboratório de Limnologia na linha de pesquisa Educação Ambiental do grupo de Ecologia de Ecossistemas Aquáticos Continentais do diretório de grupos do CNPq. Orienta no Programa de Pós-graduação em Educação em Ciências e Saúde (NUTES/UFRJ) e no Programa de Pós-graduação em Ciências Ambientais e Conservação (NUPEM/UFRJ) e no Programa de Mestrado Profissional em Ensino de Biologia (IB). Seus interesses de pesquisa estão relacionados aos processos de formação de professores, ensino de ecologia, gestão e Educação Ambiental. 

Referências:

https://www.parentinscience.com/

https://327b604e-5cf4-492b-910b-e35e2bc67511.filesusr.com/ugd/0b341b_81cd8390d0f94bfd8fcd17ee6f29bc0e.pdf?index=true

https://www1.capes.gov.br/36-noticias/10303-maes-cientistas-o-desafio-do-dia-a-dia

http://www.faperj.br/?id=4137.2.7

https://www.gov.br/cnpq/pt-br/assuntos/noticias/cnpq-em-acao/cnpq-anuncia-inclusao-do-campo-licenca-maternidade-no-curriculo-lattes

No mês de Maio nós estamos celebrando o Mês das mães com o objetivo de trazermos mulheres que se dedicam a maternidade, a ciência, a docência e ao estudo da maternidade nos espaços acadêmicos, além da luta das mulheres pelo direito de pertencerem a esses espaços que muitas vezes as excluem e as invisibilizam. Hoje, nós temos conosco a professora Eugenia Zandonà que é professora adjunta do departamento de Ecologia da UERJ, integrante do grupo Parent in Science e mãe da Olga e da Anita. Nesse texto a Eugenia compartilha conosco a sua experiência com a maternidade, seus desafios e ainda amplia para além da sua vivência alguns dos desafios que outras mães têm na pesquisa acadêmica e na maternidade, algumas das conquistas que já tiveram, mas principalmente, os próximos desafios a serem superados para que a pesquisa se torna um ambiente mais acolhedor para as mulheres.

Equipe LimnoNews

Na manhã do dia 21 de março de 2015, pela única vez na minha vida, submeti dois artigos num mesmo dia. Naquela mesma manhã, eu estava em trabalho de parto e às 19h a minha primeira filha nasceu, dez dias antes do esperado. Quando conto esta história, as pessoas têm reações diferentes: há quem ria comigo, outros me admiram, muitos me acham uma workaholic. E tem quem ache um absurdo, pois eu deveria ter me concentrado nas minhas contrações e dedicado as minhas energias todas em trazer minha filha ao mundo. E assim mudar a minha vida para sempre. De fato, a maioria das pessoas não entende e poucos me perguntam porque eu sentia a necessidade de submeter os artigos apesar da minha filha estar chegando no mundo. A minha grande preocupação era que se eu não conseguisse submeter aqueles artigos antes da minha filha nascer, eu poderia não conseguir fazê-lo nos próximos meses ou, quem sabe, no próximo ano. Precisava me apressar, pois isto causaria um efeito bola de neve, podendo prejudicar a minha carreira acadêmica de forma irreversível.

Vamos tentar entender o porquê das minhas preocupações. Na grande maioria dos casos, para um cientista conseguir realizar as suas pesquisas, precisará de auxílios financeiros para manter o funcionamento do próprio laboratório, comprar equipamentos e materiais ou realizar pesquisa no campo. Este dinheiro determina também a possibilidade dos alunos realizarem seus projetos. Os editais de pesquisa são muito concorridos e os candidatos são avaliados em termos de projetos propostos e de seu currículo científico, ou seja, número de orientações, número e qualidade de artigos publicados, etc. A capacidade de publicar artigos e a formação de recursos humanos depende em grande parte da capacidade de obter financiamento. Quando um pesquisador vira docente, muito da sua capacidade de fazer pesquisa em primeira pessoa diminui, e será realizada principalmente pelos seus alunos de graduação e, especialmente, de pós-graduação sob sua orientação. Para poder orientar alunos de mestrado ou doutorado, o pesquisador precisa ser credenciado em um programa de pós-graduação. E – adivinhem! – os critérios para ser credenciado são principalmente baseados na produtividade do cientista. Acho que ficou claro então que é um círculo vicioso e se algumas dessas peças começam a faltar, a produção do cientista é afetada podendo causar um efeito bola de neve na sua carreira e de quem depende dele (alunos e alunas). A situação piora ainda mais num cenário de corte ao financiamento para pesquisa científica, como o que estamos vivendo atualmente, onde os recursos se tornam mais limitantes, e assim, a competição entre os cientistas para conseguir dinheiro e realizar suas pesquisas aumenta.

Agora imaginem o que pode acontecer a um cientista que tem que parar seu trabalho por seis meses ou um ano: é como parar no meio de uma corrida enquanto os outros continuam. Isto porque o sistema de avaliação é contínuo e se você não mantiver o ritmo, vai sair prejudicado.

Então aí estava eu, ainda uma jovem cientista, num momento muito importante de consolidação da minha carreira, prestes a ter uma filha. Estava muito feliz em finalmente me tornar mãe, realizando meu grande desejo de vida. Mas ao mesmo tempo me sentia inevitavelmente muito preocupada de ter que me ausentar da minha pesquisa, do meu laboratório, dos alunos e dos meus projetos por nove meses – tempo da minha licença maternidade e amamentação – e assim potencialmente criar uma lacuna de produtividade no meu currículo. Isto se torna claramente um grande problema porque as agências financiadoras e os programas de pós-graduação não consideram a licença maternidade durante as avaliações. A licença maternidade é um direito de toda mãe na maioria dos países do mundo (grande exceção são os Estados Unidos, onde no geral a mãe só tem 12 semanas não pagas de licença – Kamerman 2000). A academia não pode ignorar a esperada queda de produtividade das cientistas mães devido a suas licenças e aos cuidados com os filhos e avaliá-las comparativamente com os mesmos critérios usados para avaliar outros cientistas. No mínimo, o período da licença maternidade deveria ser descontado ou de alguma forma incorporado na avaliação da produtividade das cientistas.

E assim, no final do ano passado experimentei na pele como uma cientista mãe pode ser prejudicada no atual sistema acadêmico de avaliação. Em 2018 consegui a tão competitiva e tão prestigiosa bolsa de pesquisa do CNPq (PQ2), cujo projeto escrevi enquanto estava de licença maternidade da minha segunda filha, que na época tinha um mês e a mais velha, dois anos, entre noites mal dormidas, mamadas e trocas de fraldas. No ano passado, pedi renovação da bolsa PQ e, apesar do meu projeto ter sido recomendado pelo Comitê Assessor da Ecologia e Limnologia, a bolsa não foi concedida tendo em vista a alta demanda qualificada e o limite de recursos disponíveis para a Chamada. Para a concessão da bolsa, é avaliada a produção dos últimos cinco anos, período em que tive duas filhas, ficando de licença maternidade e amamentação (6 + 3 meses) por 18 meses no total, ou seja quase 1/3 do período avaliado. No mínimo, a minha produção deveria ter sido ajustada no momento da comparação com os meus pares que não tiveram essas interrupções. Sei que isso não seria garantia de eu ganhar a bolsa, mas pelo menos seria uma avaliação mais justa. Fiz recurso, alegando sobre o período de 18 meses das licenças que não foi descontado, mas o recurso foi indeferido. Infelizmente esse hiato na minha atuação não foi contabilizado e eu perdi a bolsa.

Desde 2018, o movimento Parent in Science, do qual integro o núcleo central, pede para o CNPq para incluir um campo no Currículo Lattes para poder indicar (facultativamente) informações sobre licenças maternidade e adotante. Entre outras coisas, lançamos a campanha #maternidadenolattes nas redes sociais, enviamos uma carta para o CNPq assinada por várias entidades científicas e esse ano publicamos um artigo alertando sobre a urgência dessa nossa demanda (Staniscuaski et al. 2021a), pois a situação das mulheres e mães cientistas se agravou durante a pandemia (Staniscuaski et al. 2021b). Finalmente, no dia 15 de abril de 2021, o CNPq oficializou a inclusão do campo licença-maternidade no Currículo Lattes. Apesar de ser um pequeno passo, ele representa um grande avanço para que as cientistas mães tenham avaliações mais justas e assim poder justificar potenciais lacunas ou redução da produtividade nas suas carreiras. O dia 15 de abril de 2021 marcou assim uma grande conquista para as mães cientistas no Brasil, dando a possibilidade de tirá-las da invisibilidade e de terem mais chances de retomar suas carreiras quando voltarem das licenças.

O grupo Parent in Science foi o primeiro no Brasil com o objetivo de quantificar o impacto do nascimento dos filhos na produção acadêmica dos cientistas. Um primeiro levantamento na comunidade científica mostrou que as mães são as principais, e frequentemente únicas, cuidadoras dos filhos e que a maternidade tem um efeito negativo na produção por um período que pode se estender até os 3-4 anos de idade dos filhos. Graças também a este levantamento de dados, nos últimos três anos, vários editais de pesquisa começaram a considerar a maternidade nas avaliações, com uma pontuação diferencial ou com o ampliamento do período avaliado. Esta é uma grande conquista e uma ótima tendência que deveria ser implementada universalmente. Infelizmente, durante a pandemia, o cenário se tornou mais triste, já que as cientistas, principalmente mães e negras, tiveram mais dificuldades em manter seus ritmos de trabalho devido às maiores responsabilidades com tarefas domésticas (Staniscuaski et al. 2021b). Esta sobrecarga gerada pela pandemia da COVID-19 às cientistas mães e negras pode representar um grande retrocesso aos poucos avanços alcançados na equidade de gênero e raça (Staniscuaski et al. 2020).

No final das contas, apesar do impacto a nível acadêmico que a maternidade teve na minha carreira, eu sou privilegiada em comparação a muitas outras cientistas mães. Em primeiro lugar, compartilho o meu laboratório e muitas das minhas pesquisas com um colega docente com muita experiência que, enquanto estava de licença, me apoiou na supervisão dos meus alunos e dos meus projetos. Ainda assim, a minha ausência prejudicou os meus alunos e a continuação de algumas das minhas pesquisas que requeriam a minha presença e atuação no campo, mas o suporte do meu colega foi fundamental para não interromper completamente as atividades. Além disso, sou uma mulher branca, tive as minhas filhas quando já era professora concursada na UERJ, meu marido compartilha comigo o cuidado com as nossas filhas e elas têm um desenvolvimento típico. As mães cientistas que ainda não são concursadas, mães negras, indígenas, mães solo ou com filhos com deficiências enfrentam muito mais desafios e ainda são frequentemente invisibilizadas.

Está na hora da comunidade acadêmica abrir os olhos e agir para criar um ambiente menos hostil para as mulheres cientistas que são mães. A maternidade não pode ser mais percebida como um obstáculo no sucesso de um cientista, mas sim devem ser criadas práticas e políticas de apoio para as cientistas que se tornam mães. Isto deve ser um esforço conjunto e uma prioridade de todos, para sanar o viés de gênero na ciência e evitar que as mulheres desistam da carreira de cientista. O que se torna prioritário é transformar a academia num ambiente mais acolhedor das diferenças, mais empático e focado nas colaborações ao invés da competição e do sucesso pessoal.

Espero que as minhas filhas, se um dia quiserem se tornar cientistas, não percebam a academia como um ambiente de não pertencimento. Por enquanto, nós estamos trabalhando para mudar o cenário e tornar a academia um mundo mais acolhedor e colaborativo e para que mais cientistas considerem essa pauta uma prioridade.

Aconselho assistir os documentários produzidos pela Gênero e Número da Maria Lutterbach “Fator F” (https://www.youtube.com/watch?v=RukTR9VHcUg) para escutar os depoimentos de mães e pais na academia relatando alguns dos dados da pesquisa do Parent in Science, e o “Potência N” (https://www.youtube.com/watch?v=untetrh5MyM) sobre os desafios das mulheres negras na academia. Para mais informações sobre as ações do Parent in Science, podem seguir as nossas redes sociais e acessar o nosso site https://www.parentinscience.com/. Para saber mais sobre a autora deixamos aqui o link para o Currículo lattes e também o site do laboratório https://sites.google.com/view/lerc-uerj

Por Eugenia Zandoná

Possui doutorado pela Drexel University (2010) e graduação pela Universitá degli Studi di Padova, Itália (2004). Atualmente é Professora Adjunta do Departamento de Ecologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e coordenadora adjunta do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Evolução (PPGEE, UERJ) e Jovem Cientista do Nosso Estado (FAPERJ). Tem experiência na área de Ecologia, com ênfase em Ecologia de Ecossistemas e Ecologia Evolutiva, especialmente de ambientes aquáticos. É membro do grupo Parent in Science e é mãe de 2 filhas, Olga de 6 e Anita de 3 anos.

Imagem: Nessa foto nós temos a professora Eugenia com as suas duas filhas. (Foto de J. R. Amaral)

Referências

Kamerman SB (2000). From Maternity Leave to Parental Leave Policies: Women’s Health, Employment and Child and Family Well-Being. JAMWA 55(2): 96–9.

Staniscuaski F, Reichert F, Werneck FP, Oliveira L, Mello-Carpes PB, Soletti RC, Almeida CI, Zandonà E, Ricachenevsky FK, Neumann A, Schwartz IV (2020). Impact of COVID-19 on academic mothers. Science. May 15;368(6492):724.

Staniscuaski F, Zandonà E, Reichert F, Soletti RC, Oliveira L, Ricachenevsky FK, Tamajusuku ASK, Kmetzsch L, Schwartz IVD, Werneck FP, Ludwig ZMC, Lima EF, Infanger C, Neumann A, BrandÃo A, Wiggers GA, Seixas A, Mello-Carpes PB (2021a). Maternity in the Brazilian CV Lattes: when will it become a reality? An Acad Bras Cienc. 93(1):e20201370. doi: 10.1590/0001-3765202120201370

Staniscuaski F, Kmetzsch L, Soletti RC, Reichert F, Zandonà E, Ludwig ZMC, Lima EF, Neumann A, Schwartz IVD, Mello-Carpes PB, Tamajusuku ASK, Werneck FP, Ricachenevsky FK, Infanger C, Seixas A, Staats C, Oliveira L (2021b). Gender, race and parenthood impact academic productivity during the COVID-19 pandemic: from survey to action. Frontiers in Psychology. 2021 doi: 10.3389/fpsyg.2021.663252

Publicado por: Laboratório de Limnologia/UFRJ | maio 4, 2021

[Mês das Mães] Sobre maternidades na academia

É com muito prazer que iniciamos mais um mês temático no LimnoNews. Dedicado mais uma vez as mulheres, é claro, dentre elas as mães. Essa figura tão importante nas nossas vidas, a geradora da vida, e que muitas vezes é reduzida a esse papel. É claro que esse papel não é pequeno, ele é enorme e em tempo integral… No entanto, as mulheres não estão restritas a maternidade, elas não deixam de ser mulheres para serem mães e em muitos casos elas estão acumulando essa função com a de ser profissional, pesquisadora, professora, estudante tendo jornadas duplas, triplas de trabalho… No mês de Maio nós traremos mulheres que se dedicam a maternidade, a ciência, a docência e ao estudo da maternidade nesses espaços, além da luta das mulheres pelo direito de pertencerem a esses espaços que muitas vezes as excluem e as invisibilizam. Hoje, para abrir o nosso mês trouxemos a Doutoranda Juliana Silva que tem a maternidade como objeto de estudo, principalmente a maternidade dentro do ambiente acadêmico e com as mães negras da pós-graduação. Esse texto mescla a pesquisa com o relato pessoal da Juliana que mesmo não sendo mãe, sempre teve a maternidade e o estudo da maternidade como seu enfoque, dando voz a essas mulheres e as suas trajetórias. É com muito prazer que abrimos o nosso mês com esse texto tão potente e convidamos todos a lerem e a compartilharem, questionarem, refletirem….

Equipe LimnoNews

Dentre as perguntas que mais me fazem “por que você pesquisa maternidade se você não é mãe?” é definitivamente a minha predileta e é partir dela que vou falar sobre mim e sobre minha pesquisa.

Quando eu tinha 11 anos minha mãe estava no meio da graduação em Farmácia e me contou que estava grávida do meu irmão mais novo, a felicidade em mim era latente, mas nela haviam interrogações perceptíveis e muita preocupação. Até o fim de sua formação acompanhei minha mãe estudando até a madrugada após cuidar de nós, da casa e trabalhar em dois empregos. Fui companhia nas idas até a faculdade, ficando quietinha cuidando do meu irmão num canto da sala ou na porta enquanto ela fazia alguma prova ou assistia a alguma aula. Uma jornada muito difícil para ela, mesmo com minha colaboração e participação na divisão das atividades de cuidado, pois ela ainda era a figura central do cuidado, a mãe.

No momento em que a minha conclusão de curso se aproximava o tema da maternidade no sentido biológico também era muito presente na minha vida, eu estava concluindo meu estágio na obstetrícia e UTI neonatal de um hospital público de referência do estado da Bahia, mas foi a partir dos diálogos em que as pacientes manifestavam o encerramento de seus planos individuais para a dedicação total ao cuidado com os filhos que meu primeiro projeto de pesquisa surgiu. Muitas delas eram adolescentes, a fase de tantos sonhos e planos, mas que viam a maternidade como o fim da linha para tudo isso.

São essas as principais experiências que me fizeram refletir sobre a maternidade e me estimularam a buscar aquelas que cruzaram a linha e alcançaram o ensino superior, em especial as mulheres negras. Assim nasce meu projeto de TCC da graduação em serviço social da UFBA que utilizou as lentes da interseccionalidade para analisar a trajetória de mulheres negras que se tornaram mães na adolescência naquela universidade em que eu estudava.

Naquela época o Fundo de População das Nações Unidas havia lançado um documento especial sobre maternidade precoce no mundo que revelava que no Brasil a gravidez na adolescência apresentava maior incidência entre adolescentes negras, pobres e de baixa escolaridade. (UNFPA, 2013) Além disso aparecia também como fator causador da evasão escolar em diversas produções sobre esses temas.

No TCC tive contato com uma expressão que me acompanharia pro resto da vida, o mito do amor materno. Esse termo, cunhado pela filósofa francesa Elizabeth Badinter, refere-se aos valores sociais criados acerca da maternidade que impactam a vida das mulheres desde que a maternidade assumiu o modelo que ela possui hoje, criado no séc. XIX. Você conseguiria imaginar que até o séc. XVII era comum imobilizar bebês com faixas e, onde haviam muitos roedores, pendurá-los em pregos nas paredes? Entre essa prática e a prática atual de instalar câmeras nos berços dos bebês para monitorá-los de qualquer lugar do mundo foram necessários vários discursos filosóficos e científicos para convencer as mulheres a viver na busca de ser a mãe perfeita, sempre alerta e sempre disposta, mas principalmente que não desejasse ser nada além de mãe.

A inserção na iniciação científica sobre professoras negras e o desejo por ingressar na pós graduação foram fatores que me impulsionaram a pesquisar as mães que alcançaram a pós-graduação. Elaboro assim meu projeto de dissertação que me levou a ser a primeira da minha família a se graduar numa universidade pública e ingressar numa pós-graduação. Esse é um relato bastante comum entre mulheres negras como eu, que mesmo após quase 133 anos de abolição da escravidão ainda não alcançamos a equidade nos espaços de educação superior, o que se agrava quando consideramos também a desigualdade de gênero.

No mestrado no Programa de Pós-Graduação em Estudos Interdisciplinares em Mulheres, Gênero e Feminismo (PPGNEIM) pude ingressar no Grupo de Estudos em Ciência, Gênero e. Educação (CIGE), um grupo liderado pela professora Ângela Maria Freire de Lima e Souza, pesquisadora que está entre as que mais orientaram trabalhos sobre gênero nas ciências no Brasil, que tive o prazer de ter como minha orientadora. A orientação de Ângela é um grande diferencial na minha trajetória, pois é o contato com ela que faz com que eu me permitisse me reconhecer como cientista, compreender a importância das mulheres nas ciências, romper com visões tradicionais sobre o feminismo e reconhecer também como as assimetrias de gênero de fazem presentes de maneiras distintas em diferentes áreas de conhecimento.

Os questionamentos levantados sobre as mães negras na pós-graduação durante a elaboração da dissertação revelaram a triste realidade sobre as violações de direitos e as vivências de assédio moral dentro da universidade, como também nas experiências passadas e nas relações de trabalho. Algumas mães se encheram de esperança no ano de 2017 com a promulgação da lei 13.536 que prorrogava a vigência de suas bolsas de estudo, mas assim como uma de minhas entrevistadas segue ouvindo que  “É desnecessário um estudante de doutorado que tem 4 anos para defender ainda ter um semestre de licença-maternidade” (.sic).(SILVA, 2020, p. 116).

A falta de dados produzidos sobre a realidade das mães cientistas por si só foi considerada um elemento revelador, pois notava-se que a realidade dessas mulheres seguia ignorada, não invisibilizada, pois quando as mães seguem denunciando as violações e constrangimentos e as universidades tratam como um problema de cunho pessoal, o problema é visível, mas escolhe-se ignorá-lo ou trata-lo como irrelevante.

Assim a universidade segue deixando para que as mães “se virem” para assumir todas as jornadas de trabalho formal, trabalho doméstico e cuidado com os filhos e família quando a divisão de tarefas deveria ser uma discussão central em toda a sociedade.

Confesso que sempre existiu um interesse profissional e pessoal da minha parte, pois como profissional do serviço social compreendo que assistência estudantil pode garantir a permanência dos estudantes em vulnerabilidades diversas e como mulher que deseja ser mãe, quero colaborar para a construção de um ambiente universitário que compreenda que o respeito com quem exerce a maternidade não é um favor e sim um direito.

“Por que você pesquisa maternidade se você não é mãe?” porque entendo que é partir da atuação do movimento de mães, de mulheres sem filhos, da ampla sociedade e aliada a profissionais da assistência estudantil e de outros setores da universidade que construiremos um ambiente acadêmico que inclua e respeite as mães no Brasil.

Por Juliana Marcia Santos Silva

Sou Juliana Marcia Santos Silva, graduada em Serviço Social e mestra em Estudos Interdisciplinares Sobre Mulheres, Gênero e Feminismo pela UFBA. Atualmente curso Doutorado em Serviço Social na PUC-Rio e também sou pesquisadora no grupo de pesquisa Ciência, gênero e educação – CIGE, no Grupo de Pesquisa de Ações Afirmativas e Reconhecimento – GPAAR e no Núcleo Interseccional de Estudos Sobre a Maternidade – NIEM onde sou professora do curso “Mamães Na Pós”, um preparatório gratuito para seleções de mestrado e doutorado voltado para mães.

REFERÊNCIAS

UNFPA. Maternidade Precoce: enfrentando o desafio da gravidez na adolescência, 2013. Disponível em: http://www.unfpa.org.br/novo/index.php/669-gravidez-na-adolescencia-e-tema-do-relatorio-anual-do-unfpa-2.

SILVA, J. M. S. Mães negras na Pós-Graduação: uma abordagem interseccional. 2020. 150 f. Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal da Bahia. Salvador, 2020. Acesso em: https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/32119/1/Juliana%20Marcia%20Santos%20Silva.pdf

Publicado por: Laboratório de Limnologia/UFRJ | abril 29, 2021

Desastre ambiental no rio Paraopeba

Nesse mês viemos conversar um pouco sobre biologia, ecologia, educação ambiental dentre outros temas que permeiam o nosso laboratório. A ideia será trazer para vocês um pouquinho das realidades, trabalhos, projetos dos grupos de pesquisa que temos aqui no laboratório de Limnologia e já adianto que tem muito texto legal pela frente…Hoje o doutor Leandro Sabagh nos apresenta um dos projetos do Laboratório de Limnologia que tem como área de estudo o rio Paraopeba que foi o local onde ocorreu, em 2019, o rompimento de uma barragem de mineração e o, consecutivo, impacto ambiental causado pelo rejeito da exploração de minério que chegou no rio. Nesse texto, ele perpassa desde a origem do nome do rio, a hidrografia, o rompimento da barragem, os impactos conhecidos do rompimento e esse projeto que tem como objetivo a avaliação ambiental da região afetada. Esse tipo de trabalho é de extrema importância e comumente é um tema de interesse para biólogos que pretendem seguir na área de monitoramento…Esperamos que vocês gostem do texto e que no futuro tenhamos mais sobre esse tema e sobre os trabalhos no rio Paraopeba.

Equipe LimnoNews

Você não leu errado. Paraopeba ou Parauapebas ???

Antes de qualquer coisa é preciso fazer uma desambiguação. Apesar de foneticamente similares e a provável mesma origem etimológica indígena (tupi), Paraopeba e Parauapebas são locais diferentes. Há diferentes hipóteses sobre a origem etimológica. Uma vertente tende para o significado de rio grande e achatado (pará = rio grande; peb = achatado) outra prefere interpretar como rio largo (pará = rio; popeba = largo) e uma terceira como rio raso. Todas fazem sentido e de certa forma se relacionam entre si. Há ainda uma hipótese de interpretação ornitológica fazendo referência a algo como papagaio baixo (parauá = papagaio; peb = achatado/baixo). Descartemos essa última e ficaremos com as definições hidrotopônimas, afinal esse é o Blog da Limno e não dos Psitacideos!!! Rsrsrs

Imagem 1: Para(ou)peba(s) onde a Limnologia – UFRJ tem atuações estudando o impacto da mineração. Fonte: Google Earth

Resumindo brevemente abaixo cada um dos locais:

Parauapebas – município no sudeste do Pará com relevante atividade de mineração de ferro onde o Lab Limno vêm realizando trabalhos de monitoramento, pesquisa e educação ambiental desde 2004. Bioma amazônico. Este Para(ou)peba(s) tem vasta bibliografia aqui no blog. Deixo o link de algumas referências: Sobre lagos de altitude por R. Bozelli (link), Sobre Educação Ambiental por K. Villaça (link); sobre a cultura da região por J. Ferro (link).

Paraopeba – rio em Minas Gerais, pertencente a bacia do São Francisco, que foi afetado pelo rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão. Parte do rio fica dentro da área conhecida como Quadrilátero Ferrífero. Na bacia do rio Paraopeba também há um munícipio homônimo ao rio. Transição entre os biomas Mata Atlântica e Cerrado. Para este Para(ou)peba(s) é a primeira postagem no LimnoNews. Mas certamente outras virão em breve trazendo novidades.

O rio Paraopeba é um dos principais rios do Alto Curso da bacia do São Francisco e deságua na represa formada pela barragem da Usina Hidroelétrica (UHE) de Três Marias, logo após a represa e UHE de Retiro Baixo, situada no próprio rio Paraopeba. O rio passa pela região metropolitana de Belo Horizonte e sofre historicamente com impactos de diversas fontes como poluição doméstica e industrial. Além de várias atividades de mineração incluindo extração de areia.

imagem 2: Bacia do rio Paraopeba (MG) com destaque para a Barragem que rompeu e os reservatórios das Usinas Hidroeléticas (UHE). Fonte: SAGE-COPPE

Uma coisa é certa, ambos os locais são importantes jazidas de ferro do planeta, sendo a atividade minerária a principal atividade econômica da região, com impacto sócio-ambiental e atividades do Lab Limno-UFRJ. Fica a dica de uma nova definição para Para(ou)peba(s)! Rsrsrs.

O desastre no rio mineiro:

Aos 25 dias do ano de 2019 a Barragem B1 da Mina Córrego do Feijão (mineradora VALE S.A.) rompeu-se despejando assim cerca de 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos no Córrego do Feijão, afluente do ribeirão Ferro-Carvão. Este ribeirão, por sua vez, deságua na margem direita do alto curso do rio Paraopeba, a montante da cidade de Brumadinho no estado de Minas Gerais.

O desastre novamente mobilizou o país devido ao impacto ambiental provocado e, principalmente, as centenas de perdas humanas. Houve imediata suspensão da captação de água do rio, proibição de pesca e mudanças na atividade da UHE de Retiro Baixo.

O projeto Paraopeba

Como estudos emergenciais a VALE S.A. contratou a COPPE-UFRJ para um diagnóstico dos impactos provenientes do rompimento da barragem em diversos aspectos como caracterização geoquímica, qualidade da água, avaliação de odores e uma avaliação biológica. Neste último aspecto que se encaixa o Instituto de Biologia e a Limnologia além de pesquisadores de outras unidades e instituições. O estudo dos aspectos biológicos envolveu a participação de mais de 40 pesquisadores da UFRJ, da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), do Museu História Natural Capão da Imbúia (MHNCI-PR) e da Universidade Estadual Paulista (UNESP-Ilha Solteira). A UFRJ coordena o trabalho, representada pelas seguintes unidades: a COPPE, o Instituto de Biologia e o Instituto de Biofísica. Foram realizadas duas campanhas onde foram amostrados mais de 120 locais ao longo de 495 km de corredor fluvial do rio Paraopeba e represas a jusante.

A UFRJ e o Lab Limno neste contexto

O laboratório de Limnologia da UFRJ teve participação significativa do projeto ao buscar responder diferentes perguntas relacionadas ao impacto. Avaliamos potenciais mudanças em variáveis físicas e químicas do sedimento, nutrientes na água, mudanças no metabolismo do rio, alterações na composição e estrutura de comunidades (zooplâncton, macroinvertebrados e herpetofauna) com busca em espécies indicadoras, a modificação de interações tróficas e parasitárias, e bioacumulação de elementos traço em tecidos animais. Tudo isso ao longo de um gradiente de impacto e pontos amostrais a montante da área atingida pelo rejeito de mineração.

Participaram desta empreitada a equipe composta por Leandro Sabagh, Juliana Leal, Joseph Ferro, Élder Sodré, Mario Marcos Neto, Marcos Nathan Monteiro, Ricardo Catarina e Vinícius Farjalla.

Imagem 3: Fotos do trabalho de campo no rio Paraopeba (MG): Incubação da água do rio para quantificação do metabolismo aquático (A); coleta de macroinvertebrados aquáticos (B); coleta de zooplâncton pelos pesquisadores Juliana Leal e Joseph Ferro (C); girinos de Rhinella sp. (sapo cururu) desenvolvendo-se na parte impactada por rejeito de mineração no rio Paraopeba.

Resultados Parciais

O primeiro ano do projeto foi na tentativa de fazer um diagnóstico preliminar dos impactos do desastre. Consideramos o objetivo alcançado, mas ao mesmo tempo outras lacunas foram se abrindo e novas perguntas apareceram para serem respondidas no intuito de identificar o nexo causal no impacto no rio Paraopeba e represas a jusante. A emergência sanitária causada pela pandemia da COVID-19 suspendeu, por hora, uma continuidade do projeto.

Entretanto, conseguimos algumas informações importantes. Apesar de já ser esperada uma variação climática e hidrológica sazonal em rios, conseguimos identificar que danos oriundos do rompimento da barragem são agravados durante a estação chuvosa, que coincide com o verão. Essa sazonalidade também afeta o metabolismo do rio e a fenologia (fenômeno cíclico principalmente ligado a reprodução) das espécies e consequentemente há diferenças nas comunidades entre as estações seca e chuvosa.

Identificamos que a comunidade de macroinvertebrados aquáticos foi afetada fortemente por rejeitos domésticos através de um índice saprobiótico. Entretanto, também foi identificado que o rejeito derramado no rio afetou a comunidade, inclusive com a grande redução da população de algumas espécies.

A herpetofauna apresentou descontinuidades de riqueza e abundância ao longo do gradiente de impacto que ainda não estão claras. Provavelmente o uso do solo ao longo da bacia também tenha influência nesta comunidade. Entretanto, detectamos que houve mudanças significativas na interação entre as espécies (anfíbios, suas presas e seus parasitas), apesar de ainda não podermos atribuir ao rompimento da barragem B1 essas mudanças observadas.

Esperamos que tão logo a emergência sanitária seja controlada para podermos continuar os estudos e contribuir com ações de recuperação desta importante bacia. E em breve, novas postagens mais detalhadas, sobre cada um dos temas abordados no estudo no rio Paraopeba no estado de Minas Gerais.

Por Leandro Sabagh

Doutor em Ecologia e Evolução pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Mestre em Ecologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Especialista em Ecologia Aquática pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e graduado em Ciências Biológicas (Bacharelado e Licenciatura) pela mesma instituição. Atualmente sou colaborador do Laboratório de Limnologia (UFRJ) e pesquisador do Núcleo Rogério Valle de Produção Sustentável (Lab. de Sistemas Avançados de Gestão da Produção – SAGE), COPPE-UFRJ. Tenho interesse em interações ecológicas, em especial ecologia trófica, ecologia parasitária e mutualismos. Utilizo como principais modelos anuros e bromélias.

Textos Citados:

Sobre lagos de altitude por R. Bozelli (https://limnonews.wordpress.com/2013/06/03/nem-tudo-e-planicie-de-inundacao-na-amazonia/);

Sobre Educação Ambiental por K. Villaça (https://limnonews.wordpress.com/2018/06/07/primeira-aproximacao-na-amazonia-paraense-educadores-ambientais-em-acao/);

Sobre a cultura da região por J. Ferro (https://limnonews.wordpress.com/2018/05/10/por-falar-em-doutorado-vamos-dancar-carimbo/).

Publicado por: Laboratório de Limnologia/UFRJ | abril 22, 2021

Experiências com a natureza: possibilidades e (re)encontros

Nesse mês viemos conversar um pouco sobre biologia, ecologia, educação ambiental dentre outros temas que permeiam o nosso laboratório. A ideia será trazer para vocês um pouquinho das realidades, trabalhos, projetos dos grupos de pesquisa que temos aqui no laboratório de Limnologia e já adianto que tem muito texto legal pela frente…Hoje a mestre Carolina Andrade nos trás uma palavra que ouvimos muito, mas que nem sempre pensamos sobre ela de forma completa. O que é natureza? Qual a sua relação com ela? A Carolina nos trás esse questionamento no seu texto e também nos apresenta o trabalho que ela desenvolveu ao longo do seu mestrado e como esses questionamentos perpassaram pelo trabalho dela…Esperamos que vocês aproveitem o texto de hoje para refletir sobre você mesmo e também sobre o mundo.

Equipe LimnoNews

O que é a natureza para você? Como é estar com a natureza? Como é essa experiência? Como você é afetado por ela?

Essas são algumas questões que envolvem a minha dissertação de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências e Saúde do Instituto NUTES/UFRJ. Na minha pesquisa discutimos como o modelo de sociedade moderna tem influência na forma como nos relacionamos uns com os outros, com a natureza e com o mundo. Isso porque o pensamento moderno – baseado na razão humana, na objetividade e na separação entre sujeito e objeto (CARVALHO, 2012) – estabeleceu uma visão fragmentada do mundo e afastou o ser humano da sua naturalidade, passando a se relacionar com natureza a partir de um posicionamento dicotômico e hierárquico, estabelecendo uma relação de dominação, a considerando apenas como um recurso natural, um objeto, com um valor econômico.  

No entanto, argumentamos que práticas em Educação Ambiental com a natureza, que envolvem diferentes dimensões da realidade (sociais, éticas, políticas, estéticas, culturais e ambientais) e consideram as subjetividades e as singularidades dos sujeitos, podem contribuir para superar o pensamento moderno a partir da valorização das sensibilidades, afetividades e do desenvolvimento do sentimento de pertencimento dos sujeitos. Essas experiências de ser e estar com mundo possibilitam que os sujeitos repensem seus modelos de vida e contribuem para a transformação da relação ser humano~natureza a partir do reconhecimento e do (re)encontro com a naturalidade humana e com a convivência harmônica com todos os seres. Nessa perspectiva, o ser humano se encontra em constante movimento com o mundo e com natureza, “sendo-uns-com-os-outros” (humanos~e~não humanos) e “sendo-com-a-natureza” (RODRIGUES, 2019, p. 11;14). 

Imagem 1: Experiências com a natureza em uma trilha interpretativa com educadores ambientais e professores na Floresta Nacional de Carajás.
Foto: CEAP.

Diante dessas questões, me aventurando no mundo poético, compartilho um pensamento com vocês:

Estar sendo

Quando estou sendo com o mundo deixo ser apenas eu

E passo a ser todos nós

Nós, pássaros, árvores, borboletas e formigas

Nós, sol, paz e harmonia

Nós, mundo, eu, natureza

Nós, tu e eu, somos

Nós, estamos sendo uns com os outros com o mundo.

Nós, somos o mundo que queremos. Que tal transformá-lo?

(Carolina Andrade, 2021)

Por fim, deixo aqui algumas perguntas para refletirmos sobre o nosso envolvimento com o mundo: Como vemos a nossa relação com a natureza e com os seres não humanos? Como podemos transformar a nossa relação com a natureza a partir de perspectivas críticas ao modelo de sociedade atual? Acha que é possível? Existem outras maneiras de conviver com o mundo?

Por Carolina Andrade.

Referências:

CARVALHO, I. C. M. Educação Ambiental: a formação do sujeito ecológico. São Paulo: Cortez, 2012.

RODRIGUES, C. A ecomotricidade na apreensão da natureza: inter-ação como experiência lúdica e ecológica. Desenvolv. Meio Ambiente, v. 51, Seção especial: Técnica e Ambiente, p. 8-23, 2019.

Para conhecer e refletir mais sobre as experiências com natureza, assista um vídeo produzido pelo Grupo de Pesquisa em Educação Ambiental e Ensino de Ciências do Laboratório de Limnologia UFRJ sobre as atividades realizadas na trilha interpretativa na Floresta Nacional de Carajás, Pará, Brasil:

Publicado por: Laboratório de Limnologia/UFRJ | abril 15, 2021

Aquilo que retorna à natureza: o caso dos resíduos sólidos.

Nesse mês viemos conversar um pouco sobre biologia, ecologia, educação ambiental dentre outros temas que permeiam o nosso laboratório. A ideia será trazer para vocês um pouquinho das realidades, trabalhos, projetos dos grupos de pesquisa que temos aqui no laboratório de Limnologia e já adianto que tem muito texto legal pela frente…Hoje a doutoranda Nathalia Cunha nos traz um texto sobre um tema muito negligenciado, no entanto, de extrema atualidade, os resíduos sólidos. A Nathalia trás no seu texto a importância de se pensar a educação ambiental como agente em relação a temática dos resíduos sólidos e, também, integra esses temas ao falar sobre consumismo e mudanças climáticas…Esperamos que vocês gostem do texto de hoje tanto como nós gostamos e que pensem sobre o tema levantado pela Nathalia hoje.

Equipe LimnoNews

As relações entre o ser humano e ambiente sofreram transformações ao longo da história. Da contemplação do natural, na relação de respeito pela subsistência, essencial à vida, novas relações foram se construindo e delineando o modelo de sociedade atual. A partir das relações de retirada de recursos naturais para trocas e comercializações, somados ao desenvolvimento industrial e necessidade de enriquecimento por meio do acúmulo de capital, a palavra consumismo veio em substituição à ideia de consumo como subsistência. Consumir para além das necessidades, como busca por uma satisfação e empoderamento social corroboraram para a consolidação de uma indústria cada vez mais extrativista. Nesse processo de extração, produção exacerbada e consumismo elevado há um fator muito importante relacionado: a produção de resíduos.

            Inspirada pelo tema da geração de resíduos, a minha pesquisa de doutorado tem essa temática como tema forte.  Com o título “ENTRE O LOCAL E O GLOBAL: caminhos da Educação Ambiental na ressignificação da política nacional de resíduos sólidos” o tripé educação ambiental, políticas públicas e resíduos sólidos são temas norteadores da pesquisa.

            Num mundo onde as problemáticas ambientais estão cada vez mais em evidência, devido os apelos decorrentes das mudanças climáticas e também de questões relativas a conflitos em detrimento de problemas ambientais, refletir sobre as ações de educação ambiental frente a essas questões se faz necessária. A temática dos resíduos sólidos representa um desses problemas, pois seus impactos interferem em diversos pontos. No processo de produção e consumo a geração de resíduos é evidente, mas o ponto de reflexão, que tem forte influência nas questões climáticas, refere-se à disposição final ambientalmente correta e seu contraponto de mau direcionamento, com forte potencial impactante.

            Em termos de gestão, políticas públicas de gerenciamento de resíduos tem se configurado como ponto essencial ao direcionamento das relações entre responsabilidades de geração, disposição final ambientalmente correta, educação ambiental e, a exemplo do Brasil, o caso da Política Nacional de Resíduos Sólidos, a geração de emprego, trabalho e renda.

            A Política Nacional de Resíduos Sólidos, promulgada pela lei 12305/2010, trouxe um arcabouço legal importante para o Brasil, apresentando princípios, objetivos e diretrizes à nível nacional, estadual e municipal bem como apresentar princípios quanto à responsabilidade compartilhada e a responsabilidade aos geradores para a gestão desses resíduos.

            Na reflexão quanto à temática do nosso início de conversa quanto ao consumismo, a PNRS trouxe o ponto da não geração como uma prática a se pensar frente à redução, reciclagem e reutilização. Em termos de não geração entende-se a reflexão sobre a necessidade ou não de se ter um dado produto que carrega consigo custos ambientais grandes e que corroboram para os efeitos de um planeta em crise.

            A Educação Ambiental se insere nesse contexto em prol da instrumentalização da política em si e na adoção de medidas que culminem numa gestão ambiental mais eficiente e num custo menor ao ambiente quanto à geração desses resíduos. Ressignificar as relações entre consumo e geração de resíduos, sentir-se parte do processo de gestão no entendimento do papel de cada sujeito frente ao modelo de consumo e compreender a questão da responsabilidade compartilhada no direcionamento de ações em prol de um ambiente mais sustentável são importantes pontos de reflexão sobre a temática.

Por Nathalia Ferreira da Cunha

Doutoranda em Ciências Ambientais e Conservação pela UFRJ. Mestre em Ciências Ambientais e Conservação pela UFRJ (2016). Pós-graduada em Psicopedagogia Institucional e Clínica (2020). Graduação em Licenciatura em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2010). Pós-graduada em Engenharia Ambiental e Saneamento Básico pela UNESA (2014). Pós-graduação em Planejamento, Implementação e Gestão em Educação a Distância pela Universidade Federal Fluminense e Licenciada em Pedagogia pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Técnica em Análises Clínicas pela FAETEC (2005) e Técnica em Meio Ambiente pelo SENAI (2016). Trabalha na Secretaria de Meio Ambiente de Rio das Ostras. Experiência com Educação Ambiental, Resíduos Sólidos, Mudanças Climáticas e Políticas Públicas. Poetisa, escritora, ilustradora e artista de hand lettering.

Publicado por: Laboratório de Limnologia/UFRJ | abril 8, 2021

Conflitos socioambientais: luta e resistência

Nesse mês viemos conversar um pouco sobre biologia, ecologia, educação ambiental dentre outros temas que permeiam o nosso laboratório. A ideia será trazer para vocês um pouquinho das realidades, trabalhos, projetos dos grupos de pesquisa que temos aqui no laboratório de Limnologia e já adianto que tem muito texto legal pela frente…Hoje a doutoranda Kelly Pinheiro nos traz um texto com um tema muito importante, os conflitos socioambientais. Nele a Kelly nos trás uma visão do tema, a partir, de seu contato como pesquisadora dele e faz isso de forma clara e didática, compartilhando conosco os questionamentos e inquietações que permeiam o seu pensamento e dando voz a atores muito importantes na luta por esses espaços…Esperamos que vocês gostem do texto e que possamos trazer mais dessa área de pesquisa num futuro próximo.

Equipe LimnoNews

Os conflitos socioambientais, ocorrem em função dos embates entre grupos sociais que possuem modos diferentes de observar e de se inter-relacionar com o ambiente social e natural. Em territórios onde são instalados megaempreendimentos e em áreas de preservação, estes conflitos encontram-se cada vez mais presentes, principalmente, quando são criadas áreas mais restritivas, onde sua gestão, na maioria das vezes, não considera os usos tradicionais das populações locais.

Tal fato, acaba intensificando as disputas, que podem configurar-se tanto através de luta direta no espaço de distribuição de poder sobre a base material, como uma luta simbólica (Brito et al 2011). Se por um lado esses conflitos podem ser vistos de forma negativa, pois, aumentam os embates e acentuam as disputas, por outro lado, acabam dando visibilidade a um grupo de atores sociais que na maioria das vezes tem suas narrativas suprimidas. Ademais, por revelarem assimetrias sociais, trazem à tona questões que devem ser discutidas na sociedade e na comunidade científica.

Nesta perspectiva, diante dos diversos cenários conflitivos que são instaurados, essas ações não ocorrem sem reação. Observa-se, portanto, o desenvolvimento de processos de resistências que se apresentam desde formas simples de reações, onde o ator social que se sente prejudicado simplesmente ignora o fato de haver uma proibição e continua a desenvolver suas práticas sociais, como no caso de diversas comunidades pesqueiras, que se encontram ao entorno de unidades de conservação, à embates mais intensos, que desencadeiam em violência física.

Cabe salientar que, algumas formas de lutas e resistências são apresentadas através de movimentos sociais, que se organizam e mobilizam seus pares, fazendo alianças com outras associações, bem como articulando-se com instituições acadêmicas e ONGS para reverter o quadro adverso enfrentado e reivindicar a identidade da comunidade. Essa identidade, pode ser construída socialmente ou coletivamente (Escobar, 2005), buscando ser reconhecido, ou podem emergir a partir da ideia de dominação, quando são criadas ou silenciadas por determinadas instituições (Mignolo, 2008). Dados apresentados no EJATLAS[1] (Atlas global de justiça ambiental), reportam que, cada vez mais, a política neoliberal vem implantando multinacionais nos países em desenvolvimento como os da América- latina, sem ao menos consultar a população. Nesse viés, a implementação dos chamados projetos de desenvolvimento ou até mesmo a especulação de construção destes megaempreendimentos tem mobilizado uma gama de atores sociais, na tentativa de defender seus direitos. Atores esses que são compostos por comunidades ribeirinhas, indígenas, quilombolas ou camponesas. Destarte, organizados em movimentos, os grupos afetados pelo processo de desterritorialização, acabam travando lutas de resistências, na tentativa de combater as transformações ocorridas em seus territórios e de seus recursos naturais (Zhouri & Zucarelli, 2008). Como o caso de comunidades indígenas, que se mobilizam e protestam contra a usina hidrelétrica Teles Pires, localizada na bacia do Tapajós, na fronteira dos estados do Pará e Mato Grosso.

Foto: Comunidades indígenas na luta pelos seus direitos, frente à instalação de usina hidrelétrica. Fonte:EJAtlas

[1] O EJAtlas é um projeto colaborativo de pesquisa e divulgação entre grupos ativistas e cientistas, que documenta e cataloga os conflitos, em uma plataforma interativa online. O Atlas é dirigido pelo Instituto de Ciências e Tecnologia Ambiental (ICTA) da Universitat Autonoma de Barcelona.

Infelizmente, esses atores que lutam e resistem a esses empreendimentos, na maioria das vezes são ignorados e tragados pelo poder hegemônico vigente. Desta forma, enquanto acadêmica e estudante de conflitos socioambientais,
deparo com várias inquietações e questionamentos. Como podemos dar visibilidade a esses atores injustiçados? Que contribuições podemos dar para que esses conflitos sejam mediados?

Por Kelly Pinheiro

Informações da autora: Kelly Pinheiro, mestra em Engenharia Ambiental pelo Instituto Federal Fluminense, professora de educação básica da secretaria estadual do Espírito Santo e doutoranda em Ciências Ambientais e Conservação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Referências:

BRITO, D. M. Conflitos em unidades de conservação, PRACS: Revista Eletrônica de Humanidades do Curso de Ciências Sociais da UNIFAP, Amapá, n.1, p. 1-12,dez. 2008.

ESCOBAR, A. Una ecologia de la diferencia: igualdad e conflito en un mundo

glocalizado. In: ESCOBAR, A. Más allá del Tercer Mundo Globalización y

Diferencia. Universidad del Cauca. Colombia, 2005.

MIGNOLO, W. D. Desobediência Epistêmica: a opção descolonial e o significado de identidade em política. Cadernos de Letras da UFF – Dossiê: Literatura, língua e identidade, n. 34, p. 287-324, 2008.

ZHOURI A. & ZUCARELLI, M. C. Mapa dos Conflitos Ambientais no Estado de

Minas Gerais – Notas Preliminares de Uma Pesquisa em Andamento. In: IV

Encontro Nacional da ANPPAS, Brasília-DF, 2008.

Site:

https://ejatlas.org/

Um novo mês se inicia no blog e nele nós viemos conversar um pouco sobre biologia, ecologia, educação ambiental dentre outros temas que permeiam o nosso laboratório. A ideia será trazer para vocês um pouquinho das realidades, trabalhos, projetos dos grupos de pesquisa que temos aqui no laboratório de Limnologia e já adianto que tem muito texto legal pela frente…Hoje a mestranda Carina dos Santos nos trouxe um texto que une Educação ambiental e Ensino de Biologia, dois temas que ela e nós gostamos muito e, também, trouxe uma perspectiva diferente sobre o uso da natureza no ensino, mesmo na educação remota, utilizando, por exemplo, a imagem…Esperamos que vocês gostem do texto do hoje e respondam as perguntas que ela fez aqui ou no nosso Instagram…

Equipe LimnoNews

Desde a infância, o desejo por ser professora esteve presente em mim. Ao chegar na graduação, me encantei pelo laboratório de Biologia e pensei: “Aqui é o meu lugar”. A partir desse momento, comecei a observar melhor as paisagens, os pequenos detalhes da vida e de tudo o que é necessário para sua permanência. Um olhar mais sensível se instaurou e o interesse pela Educação Ambiental e o Ensino de Biologia se tornou presente em minhas atividades.

Meu objetivo ao procurar o Mestrado Profissional no Ensino de Biologia é dar continuidade ao dialogo entre Ensino de Biologia e a Educação Ambiental; e dessa forma, aprofundar como essas discussões são necessárias para a elaboração de uma sequência de ensino-aprendizagem (SEA) que promova atividades investigativas e considerem a realidade discente. Toda essa dinâmica será baseada na tríade proposta por Carvalho (2006), que insere as dimensões substanciais presentes na Educação Ambiental: a dimensão do conhecimento, a dimensão axiológica (valores éticos e estéticos) e a dimensão de participação política do indivíduo. O autor entende como essas dimensões se complementam e são necessárias nas práticas e projetos relacionados ao tema. O Ensino de Biologia, pelas características de seus objetos de estudo, viabiliza um leque de possiblidades que pode proporcionar um ensino dinâmico e criativo.

Nas dimensões afetivas, as aulas ao ar livre possibilitam a sensibilização pelo olhar, tocar, sentir, ouvir, que podem despertar sensações e reflexões de novas maneiras de viver e se relacionar com o meio ambiente. Sendo assim, o conhecimento, que contemplam conceitos de Biologia, relacionado às experiências afetivas com o meio ambiente contribuem para que os alunos sejam incentivados ao pensamento crítico e reflexivo na construção do aprendizado e no modo  como se percebem no mundo, contribuindo para mudanças de posicionamento frente às questões socioambientais. Desta forma, a pesquisa para a construção de uma sequência de ensino-aprendizagem que aborde esses temas é relevante e significativa.

Em tempos de pandemia, pensar em atividades que possam ser trabalhadas e tragam essa sensibilização, ao mesmo tempo em que são desafiadoras, se tornam necessárias e urgentes. O visual pode nos tocar e despertar a sensibilidade e o interesse pelos ambientes naturais. Mesmo sem estarmos presentes no ambiente, outras opções podem se tornar materiais pedagógicos interessantes e criativos. Por isso, deixo abaixo alguns questionamentos e uma fotografia. Registre nos comentários possíveis respostas as questões apresentadas. Sua contribuição será importante para que essa imagem possa fazer parte de uma das atividades da SEA, já que em meio à pandemia, nosso contato com ambiente natural se torna restrito e em alguns casos impraticável.

Qual sentimento ou sensação essa paisagem desperta em você? Quais conceitos da disciplina de Biologia podem ser trabalhados a partir dessa imagem? Você acha que a forma como o indivíduo se relaciona com a natureza pode influenciar em seu comportamento e atitudes socioambientais?

Cachoeira no Alto do Rio das Pedras em Lidice, distrito de Rio Claro – RJ (Arquivo pessoal)

Por Carina dos Santos

Referência

CARVALHO, L.M. A temática ambiental e o processo educativo: dimensões e abordagens. In: Cinquetti, H.C.S; Logarezzi, A (Orgs). Consumo e Resíduo: Fundamentos para o trabalho Educativo. São Carlos: EdUFScar, 2006.

Publicado por: Laboratório de Limnologia/UFRJ | março 25, 2021

[Mulheres e Ciência] Notas sobre as experiências de pesquisadoras negras na Pós-graduação

No texto de hoje temos duas convidadas que tivemos o prazer de conhecer nesse mês de Mulheres e ciência aqui no blog. As pesquisadoras Camila Vieira e Thainá Santana. As duas são bacharelas em Serviço social pela UFRB, Mestrandas em programas de pós graduação nas áreas de políticas sociais e território e de gênero, raça e feminismo, pesquisadoras que tem as mulheres, principalmente, as mulheres negras e suas trajetórias como enfoque de pesquisa, integrantes de movimentos sociais e coletivos negro e feminista, além de duas amigas que dividem a autoria desse texto. A nossa ideia ao trazer essas duas mulheres era a de trazer pesquisadoras que tem como seu objeto de estudo as próprias mulheres, ou seja, num mês em que falamos de mulher e ciência, por que não trazer mulheres que estudam universitárias, professoras, cientistas, proletárias… suas vivências, suas trajetórias? No entanto, elas nos trouxeram muito mais do que isso….Esse texto é um relato pessoal, um retrato das disparidades na Universidade e no país, mas mais do que isso, é uma aula! Elas trouxeram no texto de hoje a visão de duas pesquisadoras de Ciências Humanas o pensar ciência, mulher, raça, classe, diversidade… Nós do blog LimnoNews temos o prazer de ter conhecido essas duas mulheres extraordinárias, ficamos fãs do trabalho delas e sabemos que vocês também ficarão… Esperamos que gostem do texto de hoje e que ele faça vocês refletirem, como fez a nós…

Equipe LimnoNews

E apesar de tudo,
ainda sou a mesma!
Livre esguia,
filha eterna de quanta rebeldia
me sagrou.
Mãe-África!
Mãe forte da floresta e do deserto,
ainda sou,
a Irmã-Mulher
de tudo o que em ti vibra
puro e incerto.

Alda Lara.

Segundo Ávila e Portes (2009), nas últimas décadas o crescimento de mulheres a ocuparem vagas no ensino superior tem sido expressivo, tornado este grupo maioria nas universidades brasileiras, entretanto ao considerar o fator raça, é notável que esta maioria refere-se a mulheres brancas. Uma pesquisa realizada pelo IBGE em 2018 aponta que entre mulheres de 25 a 44 anos, 23, 5% de mulheres brancas completaram o ensino superior, enquanto apenas 10,4% de mulheres pretas e pardas concluíram a graduação. Já na pós-graduação somente 1 a cada 4 estudantes é negro, dessa forma os discentes negros representam apenas 28,9% nos cursos de mestrado e doutorado.

Historicamente mulheres negras têm sido colocadas à margem, afastadas de qualquer espaço que possa representar poder ou ascensão social. Romper com o processo de sociabilidade, a partir da inserção no nível superior, representa uma dissociação a essencialização do que é “ser mulher” e as funções atribuídas ao gênero. Convocamos uma passagem literária da obra “A hora da Estrela” de Clarisse Lispector (1999) que, embora não tenha papel conceitual aqui, muito diz respeito sobre a socialização das mulheres, quando diz “o destino da mulher é ser mulher”. E ser mulher nas bases sólidas do patriarcado, enquanto um sistema estruturante, não se baseia em construir narrativas que estejam ligadas as satisfações pessoais, à exemplo da construção de uma carreira, mas em uma reprodução social dos papéis decididos por gênero.

Ainda sobre esse aspecto do lugar dos projetos de vida para as mulheres negras, Lélia Gonzalez em 1982 já nos dava indícios do lugar na divisão racial e sexual do trabalho: as mulheres negras dentro desse processo de tríplice discriminação – raça, classe e sexo, sob os termos da autora – tenderam a ficar alocadas na periferia do mercado de trabalho. Se para mulheres brancas há dificuldades no processo das escolhas de carreiras, já que as áreas socialmente prestigiadas e de maior remuneração são dominadas por homens –  cis e brancos – para mulheres negras e outras minorias sociais, essa realidade é ainda mais complicada, porque não nos é dada a possibilidade de construir projetos de vida, de pensar o futuro a partir de um plano de carreira, em alguns casos as nossas escolhas de curso acontecem a partir das oportunidades que nos são ofertadas, de acordo com as nossas condições objetivas e reais.

Não atoa as motivações que fomentaram a construção do presente texto, para além deste esforço intelectual de compreensão da realidade, tenham sido intimamente ligadas as nossas experiências reais. Nós somos duas mulheres negras de municípios do interior da Bahia. Nos conhecemos durante a graduação e firmamos laços afetivos muito importantes que contribuíram não apenas para nossa permanência e conclusão do curso, como também para o ingresso na pós-graduação. A amizade e parceria se estendem até hoje e sem dúvidas, vivenciarmos a experiência da pós-graduação juntas, ainda que em programas diferentes, é fundamental para o reconhecimento das dificuldades, conflitos e violências as quais estamos expostas cotidianamente, bem como para a celebração das nossas conquistas acadêmicas.

É interessante observar o movimento que tem ocorrido dentro das universidades brasileiras, tanto na graduação quanto na pós-graduação, à medida que pessoas de grupos socialmente subalternizados tem ingressado com mais expressividade no ensino superior, os temas das pesquisas têm surgido a partir das vivências e observação do próprio cotidiano, desta forma o número de pesquisas relacionadas a questões identitárias e políticas tem ganhando notoriedade. Assim como afirma a Prof.ª Dra. Angela Figueiredo em estudo realizado sobre mulheres negras na pós-graduação: “evidencia-se a correlação entre a experiência de vida, a experiência profissional e a escolha do tema de pesquisa. Ou seja, à medida em que a universidade pretende ser mais inclusiva, as questões de pesquisa tornam-se mais próximo do universo empírico da pesquisadora.” (FIGUEIREDO, 2016, p.223).

Como vemos, tem-se aqui uma disputa real de narrativas, e nela as nossas pesquisas se encontram em elo: embora não sejam objetos necessariamente semelhantes, esses se alinham na perspectiva de abordar questões de gênero e raça. Ademais, o sentido atribuído as nossas escritas partem da intenção de compreender as mulheres negras não por elas, mas sim a partir delas e, sobretudo, com elas. Estamos trilhando o caminho de apresentar realidades diversas, das quais nos atravessam de alguma maneira.

As entrevistas realizadas com estudantes negras de pós-graduação (VIEIRA, 2020), proporcionam um processo de recomposição das experiências educacionais, desde os primeiros anos de ensino até o momento atual. Durante o diálogo com as entrevistadas, é possível encontras muitas semelhanças com as nossas vivências educacionais, sobretudo no ensino superior. É muito importante reconhecer, que nós mulheres negras somos plurais, possuímos vivencias diferentes, mas sempre nos encontramos em uma questão: a opressão.

As dificuldades se apresentam desde o processo seletivo, a síndrome da impostora é uma questão recorrente nas nossas trajetórias, questionamos sempre a nossa intelectualidade e a possibilidade de alcançar algo que consideramos difícil. Algumas mulheres chegam a dizer que não comemoram sequer a aprovação na pós-graduação.  Somos tomadas pelo sentimento de “farsa”, como se estivéssemos enganando a todos, negando a nossa intelectualidade e competência. bell hooks nos diz que tentam tirar a intelectualidade de nós, o que afeta inclusive o próprio reconhecimento das mulheres negras enquanto intelectuais.

Frantz Fanon (2008), em seu escrito Pele Negra Máscaras Brancas, descreve que o processo de individuação do negro tem por referência a branquitude para o alcance de sua humanidade, qual historicamente lhe foi negada. Esta referência sustenta esse aspecto que destacamos anteriormente, – fragmento da pesquisa de Vieira (2020) – pela falta de pertencimento a acadêmica.

Além disso outros conflitos se apresentam para nós mulheres negras no ambiente universitário, lidamos com as dificuldades de permanência com o exercício de outras atividades concomitantes aos estudos. Se inserem, da mesma forma, as violências que ocorrem de diversas formas, através da deslegitimação dos nossos conhecimentos, dos questionamentos acerca da importância das nossas pesquisas, com o assédio moral e sexual e de outras inúmeras opressões as quais somos condicionadas, que não caberiam apenas neste texto.

Por outro lado, o ingresso na graduação e posteriormente na pós-graduação representa para nós um passo muito importante, não apenas na nossa trajetória acadêmica e profissional, como nas nossas construções enquanto sujeitas políticas. Da mesma maneira que tem um significado grandioso para as nossas famílias, das quais somos as primeiras mulheres negras a ingressar no mestrado. Por isso, assumimos um compromisso com as nossas pesquisas para além do desenvolvimento acadêmico, como tudo que envolve e toca as nossas vivências.

Contudo, esses conflitos circunscritos no processo sócio histórico, que aqui brevemente foram abordados, tem sido presentes em nossas pesquisas e em nossas trajetórias. A vivência do mestrado inicia, indiscutivelmente, um outro momento de nossas trajetórias enquanto pesquisadoras e, ao mesmo tempo, insere novos desafios.

Camila Vieira da Silva de Assis. Bacharel em Serviço Social (UFRB). Mestranda em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo (PPGNEIM/UFBA). Integrante do Coletivo Angela Davis e do Observatório em Políticas Sociais e Serviço Social. Desenvolve pesquisa sobre trajetórias de estudantes negras em programas de pós-graduação em uma universidade pública da Bahia.


Thainá Santana dos Santos. Bacharel em Serviço Social e discente de Pós graduação em Política Social e Territórios. Militante do Movimento Negro Unificado – Recôncavo. Integrante do Comitê de Igualdade Racial do Grupo Mulheres do Brasil Salvador. Desenvolve pesquisa voltada a trabalho, gênero e raça, sobretudo, ao trabalho desenvolvido por mulheres negras trabalhadoras da indústria calçadista.

REFERÊNCIAS

ÁVILA, Rebeca Contrera; PORTES, Écio Antônio. Notas sobre a mulher contemporânea no ensino superior. Mal-Estar e Sociedade, 2009, 2.2: 91-106.

HOOKS, bell. Intelectuais negras. Estudos feministas, v. 3, n. 2, 1995. p. 464

FANON, Frantz. Pele negra máscaras brancas. Trad. de Renato da Silveira. Salvador: Edufba, 2008.

FIGUEIREDO, Ângela. Para além dos números: uma reflexão sobre a experiência de professores/as e alunos/as negros/as na pós-graduação. In: ARTES, C. UNBEHAUM, S. SILVÉRIO, V. (Orgs.). Ações afirmativas no Brasil: reflexões e desafios para a pós-graduação. São Paulo: Cortez: Fundação Carlos Chagas, 2016. p. 213-240.

INSTITUTO Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE). Estatísticas de gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil. 2018. Disponível em: <https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101551_informativo.pdf>.

LISPECTOR, Clarice. A hora da Estrela. 23° Edição.  Disponível: < https://aedmoodle.ufpa.br/pluginfile.php/305284/mod_resource/content/2/Lispector_1999_Estrela.pdf>.

GONZÁLEZ, Lélia. A mulher negra na sociedade brasileira. In: O lugar da mulher. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1982.

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